terça-feira, 28 de outubro de 2014

'Branco Sai. Preto Fica' o filme vencedor do Festival de Brasília traz reflexão, mas também diversão


Ousado ou amador? Qual adjetivo serve melhor para se referir ao longa Branco Sai. Preto Fica(Brasil, 2013), do diretor Adirley Queirós? O filme, vencedor do Festival de Brasília, é uma mistura de documentário com ficção científica que tem como mote uma violenta ação policial durante um famoso baile black no Quarentão, em Ceilândia, periferia de Brasília. “Branco Sai. Preto Fica” foi a ordem da polícia ao entrar no local naquele ano de 1986. Quase três décadas depois, Marquim do Tropa e Shockito relembram aquela noite. O primeiro está numa cadeira de rodas e o segundo usa uma perna mecânica. Os dois são reais e seus depoimentos, verdadeiros. De 2073 é que surge o elememento ficcional: Dimas Cravalanças (Dilmar Durães) veio do futuro para coletar provas contra o Estado brasileiro, responsável por atrocidades contra negros e pobres nas periferias. Além disso, ele deve tentar impedir que uma “bomba” seja jogada sobre o Plano Piloto.


Os mais engajados já gostam do longa só de ler sua sinopse, mas o filme chama a atenção não só pela discussão que quer colocar em pauta. A maneira como foi pensado e conduzido também merece um olhar atento. Marquim do Tropa e Shockito falam de suas perdas reais e das dificuldades para se adaptar a uma nova vida. Mas também, ao se colocarem como personagens dessa mescla de realidade com ficção, ajudam a jogar luz sobre um problema real, mas sem transformar o longa em panfletário ou autopiedoso. Pelo contrário, eles são muito bem resolvidos. Marquim do Tropa, principalmente, é uma figura cativante, daquelas com quem dá vontade de passar o dia conversando sobre música e sobre seu passado, quando, ainda fora da cadeira de rodas, levava dias ensaiando novos passos para arrasar nas pistas do Quarentão, como ele mesmo conta. Sua atuação lhe valeu o prêmio de melhor ator em Brasília. Como DJ de uma rádio pirata, é ele o responsável na ficção — e também nos créditos do filme — pelos clássicos da black music que embalam a história.

Em Branco Sai. Preto Fica existe uma espécie de mundo paralelo, que é Brasília. Para ir de Ceilândia para lá é preciso passaporte. E há uma tal de polícia do bem-estar social que controla tudo. Esse é o cenário que Dimas Cravalanças encontra ao chegar de 2073. Ele é o personagem que dá o tom cômico ao enredo. Sua máquina do tempo é um conteiner e não há nenhuma intenção de disfarçar isso. A produção dos elementos de ficção científica lembram filmes caseiros de estudantes de comunicação ou cinema. Mas o que sugere ter sido feito deliberadamente de maneira tosca causa uma estranheza divertidíssima. Quando o filme termina, a gente se pergunta o que afinal Dimas fazia ali. O personagem não faz muito sentido, mas a graça que ele imprime com essa ficção científica tupiniquim já justifica sua presença. Provocar o riso não deve ter sido a intenção principal de Adirley Queirós, que acredita que existe um “apartheid social” entre Brasília e suas cidades-satélites. Mas ainda bem que ele conseguiu tratar de um tema sério, a violência policial e o abandono das periferias, de forma leve e divertida.
Simone Costa da Revista Veja

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