quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Entrevista Rogério Rosso "Uma parcela dos impostos recolhidos nas regiões administrativas devem ficar por lá"



Tido como um dos homens fortes do governo de Rodrigo Rollemberg (PSB), o ex-governador e deputado federal eleito, Rogério Rosso (PSD), participa pessoalmente da transição para o novo governo e garante que seu partido, que faz parte da aliança e indicou o vice-governador da chapa vitoriosa, não negociou cargos e que a preocupação maior  da agremiação agora é com as questões técnicas da transição. 

“Para o PSD, que está com Rollemberg desde o início da aliança, o que mais  interessa é que a população  tenha um governo eficiente”, garante. Experiente em transição, Rosso foi eleito em abril de 2010 para um mandato-tampão para o GDF, que durou apenas oito meses, na ressaca da crise provocada pela Operação Caixa de Pandora, que deflagrou um suposto esquema de corrupção no GDF. Presidente do PSD no DF, Rosso foi eleito deputado federal com 93.653 votos. Em entrevista ao Jornal de Brasília, ele  garante: tomará posse do cargo e cumprirá seu mandato para concretizar projetos com os quais  sonha já há alguns anos.  


O senhor foi eleito deputado federal e agora o partido elegeu o vice-governador do DF. Uma vitória como essa é um reconhecimento do seu trabalho? 
É fruto de um trabalho não apenas meu, mas do PSD, que foi fundado em setembro de 2011. Ficamos, durante esses três anos, organizando e construindo o partido, estudando os problemas da cidade. Lançamos, antes das eleições, um programa de propostas. Claro que é o reconhecimento da população  desse trabalho feito pelo PSD, por um grupo, que enfrentou com seriedade e transparência, os problemas da cidade, propondo soluções.

Rogério Rosso sai mais fortalecido  desta eleição?
Eu acho que não. Nós trabalhamos bastante com propostas. Tenho convicção de que a população do DF e do Entorno precisam de soluções urgentes. Em 2010, quando assumi o Governo do DF por oito meses, tivemos um trabalho difícil e o reconhecimento veio agora, das urnas. Fico bastante honrado com este mandato, que não é meu, mas da população do Distrito Federal. 

Qual será a participação do PSD no governo Rollemberg? 
Ainda em 2013, muitos meses antes da formalização da  aliança, nosso partido já conversava com o Rodrigo Rollemberg e, em nenhum momento, se discutiu participação no governo. Foi uma construção em cima de propostas. Inclusive o PSD se sentiu confortável de estar nessa aliança com   PSB, PDT e SD, em razão de a equipe ter discutido um programa comum. Entendemos que o governo precisa funcionar como um todo. A responsabilidade do PSD não é em uma  área, mas em todo o governo. A transição não é o momento que  tem que se falar em divisão de áreas. Este é o momento de se entender  como está o governo. Depois, é hora da adequação técnica. 

O PSD não elegeu nenhum distrital. A que o senhor atribui a falta de representatividade na Câmara Legislativa?
O PSD tomou uma decisão conjunta com os candidatos de sair sozinho na coligação proporcional, sabendo que o nosso desafio seria o quociente eleitoral. E a maioria dos candidatos do PSD era de novatos, com perfis  distintos e  técnicos. Foi uma decisão, na minha avaliação, correta, porque o partido não queria ser escada para outros. Assumiu um risco claro, mas com a intenção de traçar um rumo independente. Sentimos muito, mas os quadros do PSD são  valiosíssimos, do ponto de vista técnico, de conhecimento, experiência. Com certeza, vão  ajudar o partido nesse novo momento. 

Na condição de membro do Congresso e com influência no governo local, como o senhor pretende implementar suas propostas para o Entorno?
Não é uma novidade para o governador eleito a questão do Entorno. Ele sabe que se não for enfrentada de uma forma responsável, direta e urgente, essa configuração metropolitana do DF tende a ficar cada vez mais difícil. Na medida em que o DF tem um crescimento populacional equilibrado nos últimos anos, percebemos que em algumas cidades do Entorno tem sido quatro, cinco vezes maior. Isso significa que o DF não tem nenhuma jurisdição sobre a ocupação do território da região do Entorno, porém essas cidades vivem social e economicamente em razão do DF. Devemos chamar atenção do Congresso Nacional para essa questão e enfrentar esse tema também no DF. O Rodrigo está disposto a fazê-lo, estando à frente dessa condução tripartite, com  Goiás e a União, para o desenvolvimento da região. Juscelino Kubitschek, quando criou Brasília, na lei que remeteu ao Congresso, no Artigo 28, já previa o Entorno. Já se previa, em 1957, que existira um aglomerado urbano. 

Qual deve ser a primeira medida  do GDF com relação ao Entorno?
Acho que é a criação e o fortalecimento da estrutura regional. O Entorno está presente nos problemas do DF. E, por isso, precisa ser também priorizado. Já começamos, inclusive, estudos para a criação de um novo fundo para essa região. 

O PSD vem forte para as próximas eleições, considerando que  o Entorno terá eleição em 2016?
Não tenha  dúvida disso. Nossa primeira prova de fogo foi em 2012 e o PSD foi o partido que mais fez prefeitos nos municípios da Região Integrada de Desenvolvimento (Ride).  Conseguimos prefeituras importantes  - como Formosa, Luziânia, Cristalina e Vila Boa -, de  cidades cuja população representa 40% dos que moram na região. Com essa nossa linha estratégica de metropolinização do DF, queremos ter presença forte nessa região.

Quando começou a tramitação do PPCUB (Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico) e da LUOS (Lei Complementar de Uso e Ocupação do Solo do DF), houve disposição de se  federalizar a discussão. Como o senhor acha que o assunto deve ser tratado?
É uma questão do poder executivo, com  aprovação do Legislativo local, mas é um caminho que pode ser tomado, de envolver as bancadas federais, tendo em vista que estamos em uma unidade da Federação especial. O DF tem atribuições complexas e algumas áreas podem e devem ter  o respaldo federal. 

O PSD vai participar da equipe de transição para o novo governo?
Participa. As coisas ainda estão acontecendo, mas existe um conselho político dos partidos - não só os originais, mas os que manifestaram apoio. E eu acho que a gente tem que olhar para a frente e Brasília enfrenta problemas gravíssimos. Tem que acabar com essa história de que o governo não pode receber apoios outros que não  os originais. Pelo contrário. Eu acho que quem quiser contribuir e puder contribuir, é tudo válido. O PSD participa da transição tanto no aspecto técnico quanto político. Mas sem nenhuma discussão  de áreas. O momento é de concentrar na questão técnica. 

O senhor vai participar pessoalmente desse conselho?
Faço questão de participar pessoalmente. Para o PSD, que está desde o início da aliança, o que mais  interessa é que a população  tenha um governo eficiente. E a transição é essencial para isso.

O senhor vê alguma diferença entre a transição do seu governo, em 2010, e a de agora?
Primeiro,  não gosto de pré-julgar ninguém. Fui duramente criticado por deixar um caixa que seria negativo e, depois, o Tribunal de Contas analisou as contas e percebeu que o caixa era positivo. Naquela época, não criei nova despesa ou novo programa. O que fizemos foi priorizar os serviços para tirar Brasília da intervenção e retomar obras, dentro do limite orçamentário. Já esse governo teve  quatro anos. 

Vocês têm receio de encontrar surpresas nas contas do governo?
Não. As ferramentas de gestão  existem para controle dos governos. É claro que não sabemos o que podemos encontrar, mas precisamos ter a consciência e a tranquilidade de analisar com responsabilidade os dados e não simplesmente politizar o momento de transição. 

O próprio Rollemberg  dizia que a transparência do atual governo era de araque. O senhor acha isso?
Vamos ver agora na transição. Eu não tenho dúvida de que o governo vai disponibilizar o que for necessário para uma tranquila transição.

O governador Agnelo Queiroz, em entrevistas, tem enfatizado que está trabalhando  para deixar um governo “muito, muito, muito” melhor do que encontrou. Como o senhor avalia essa declaração?
Quem avaliou foi a população, no voto. Eu não posso avaliar. E eu espero que, ao longo dessa transição, ele possa fornecer as informações que, no grau comparativo com governos anteriores,  mostrem que saúde, educação, segurança, transportes e valorização do servidor público estejam todos melhores.

O senhor acha que a participação do PSD no governo Dilma deve ser maior do que é hoje?
(Gilberto) Kassab (fundador do PSD) é reconhecido como um homem de palavra. Ele fez um compromisso com a presidente Dilma, no ano passado, e definiu o apoio no plano nacional. Ao longo do processo de construção de alianças no âmbito nacional, o partido foi procurado por outros candidatos, inclusive pelo senador Aécio Neves (PSDB), e o Kassab foi firme e manteve o apoio. Portanto, dada a característica que percebemos da presidente, não tenho dúvida de que o PSD tenha outra participação. 

Como o senhor avalia a proposta de Rollemberg de regulamentar eleições diretas para administrador regional?
Me parece salutar que a população escolha o administrador da sua região e que este tenha  relativa autonomia financia. O PSD entende que é fundamental que uma parcela dos impostos recolhidos nas regiões administrativas fiquem lá, para que o administrador possa ter autonomia. Isso, junto com a eleição direta, é possível e até necessário. O grande desafio das eleições diretas é a definição das regras. Se elas forem muita claras, não vejo nenhum problema. Pelo contrário, vejo isso como um avanço.

O senhor  tem expectativa de assumir alguma secretaria no governo Rollemberg?
Fui eleito para ser deputado federal e tenho, há alguns anos, muitos projetos que gostaria de apresentar para fazer a minha parte. 

Qual dele será sua prioridade?
Tem vários, mas destaco a  questão da desoneração em todo o processo do setor produtivo e as propostas para o Entorno do DF.

Paulo Gusmão, Eduardo Brito e Millena Lopes
Jornal de Brasília
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