terça-feira, 28 de outubro de 2014

Na prisão, jovem morador de Ceilândia que transformou dor em poesia ganha concurso


Na prisão, ele conquistou sua liberdade. Deu asas às palavras dentro de uma cela pequena e escura, que dividia com mais 31 pessoas.  “Lá, um papel e uma caneta são os melhores passatempos que tem”, afirma. Tamanho esforço lhe rendeu um prêmio de redação, uma apresentação no teatro e uma improvável segunda chance. Para o protagonista da história, um ex-presidiário de apenas 22 anos, suas 30 linhas de texto  lhe deram também a oportunidade de inventar um novo roteiro para sua vida.


“Eu não sabia o que aquele texto podia me dar. Aqui fora, para a gente conquistar algo, leva muito, muito tempo mesmo”, afirma o jovem, morador de Ceilândia. O rapaz, que teme revelar o nome por conta do preconceito, conta ainda que ficou oito meses preso, por causa de uma suposta receptação de carro roubado. “Era para eu ficar mais tempo, mas eu comecei a participar dos projetos lá dentro, e isso, aos olhos do juiz, me favorecia para diminuir a pena”, lembra.

Planos

Hoje, W.S., como quis ser chamado, é motoboy em um supermercado de Ceilândia. “Não é ainda o que eu quero para a minha vida. Mas topei o primeiro emprego que apareceu para ver minha mãe feliz. Ela foi a única pessoa que me visitou no tempo em que eu estive preso e eu imagino o sofrimento dela me vendo lá. Tinha que dar ao menos esse orgulho para ela”, diz o jovem, que também não pretende virar um escritor profissional.

“Eu escrevia lá dentro porque era a única coisa que podia me salvar. Fiz o texto que venceu o concurso visando sair de lá. Eu nem sabia que podia escrever aquilo, mas o tema me chamou a atenção. Era ‘Copa, Eleições, Conscientização e Alienação’. Foi por isso que deu certo. Nosso país é muito injusto. E, vou te falar, o único órgão que apoia a ressocialização mesmo é a Secretaria de Educação. A de Segurança parece que só quer aumentar a raiva entre presos e policiais”, diz.
Educação venceu no jogo contra o crime
 
O final do texto, que lhe rendeu também R$ 700, revela a nova página escrita em sua história. “Se você está ouvindo esse poema que foi escrito dentro da prisão, é porque no jogo contra o crime quem ganhou foi a educação”, mostra.
 
O jovem, de voz serena e olhos claros, lembra ainda dos piores dias que passou dentro da cadeia. “Toda sexta-feira é tensa. É dia de acerto de contas. As visitas levam recado dos caras que estão fora. E os caras de dentro mandam recado para quem está fora. Aí, volta e meia, é briga, porrada”, conta. 
 
E objetos que são comuns para o cidadão, segundo ele, são proibidos dentro da prisão, como uma caneta, por exemplo. “Se for vermelha, não pode. Eles acham que você pode fingir um sangramento, algo assim. Por isso, você só pode usar caneta nas aulas mesmo, com autorização. É uma coisa normal para as pessoas aqui fora. Mas, quando você está preso, aprende a valorizar um pedacinho de papel”, ressalta.
 
“Rap consciente”
 
No Brasil do futebol, onde a corrupção já é normal
Protestos e escalações dividem as notícias do jornal
Onde os técnicos escalam os melhores pra jogar
E o povo sofre para eleger os piores para governar
A disputa para saber quem vai ser o novo craque da bola
Esconde os rostos das crianças que no crack jogam a vida fora
E se no ano de Copa e Eleição o Brasil levantar a taça
Já sabemos esse roteiro, a política sempre disfarça
E o governo dos hospitais que estão caindo ao pedaço
Se reelege por ter construído estádios de concreto e aço
Mas, se às vezes em campo fomos também envergonhados
Pode ser que haja uma chance
Do nosso Brasil ser mudado
Se um dia as televisões forem todas desligadas
E muitas mentes brasileiras deixarem de ser alienadas
Aí, sim, o nosso Brasil vai ser um país mais de opinião
Se perder, é claro, o hexa campeão
A diferença entre o meu crime e dos políticos do Senado
É que no meu julgamento
Um inocente foi condenado
E se você está ouvindo esse poema
Que foi escrito dentro da prisão
É porque no jogo contra o crime quem ganhou foi a educação.
 
Saiba mais
 
O Prêmio entregue a W.S. faz parte do V Concurso de Redação e Desenho, do Sindicato dos Professores (Sinpro) em parceria com a Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap). Neste ano, o tema foi A Escola Pública que eu quero.  
Ao todo, 2.496 redações e desenhos foram entregues pelos estudantes.
Carla Rodrigues do Jornal de Brasília
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