sexta-feira, 7 de novembro de 2014

ENTREVISTA - Emicida é atração de festival em Ceilândia


Rapper em evidência no país desde 2009, quando lançou sua mixtape de estreia, Emicida visita Ceilândia para participar da terceira edição do festival Elemento em Movimento. O paulistano de 29 anos se apresenta neste sábado (8), por volta das 23h, na Praça do Trabalhador (clique aqui para ver a programação completa). Autor de hits como Zica, Vai Lá e Levanta e Anda, ele retorna à cidade com seu primeiro disco de estúdio, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013), produzido após uma série bem-sucedida de mixes e EPs. Em conversa com a VEJA BRASÍLIA, o músico fala do carinho que tem por Brasília e da liberdade de divulgar seu trabalho e de parceiros por meio de seu próprio selo/produtora, o Laboratório Fantasma.

Você costuma visitar Brasília com alguma frequência. Ceilândia, local do seu show dentro do festival Elemento em Movimento, é famosa nacionalmente pela tradição no rap. Sente que o público da cidade acolhe bem o seu trabalho? Quando você começou na carreira, quais eram suas impressões da cidade?
Sou muito bem recebido pelos meus irmãos e irmãs em Brasília. Eu não consigo entender direito o Plano Piloto geograficamente falando, mas tenho bastante amigos lá. Ceilândia já se parece mais com o lugar onde eu cresci. Já fui diversas vezes. Fiquei uma temporada em Brazlândia quando lancei a primeira mixtape. O que eu mais gosto de Brasília é a quantidade de referências diferentes que formam seu povo, gente de diversos lugares do Brasil. Isso cria um caldeirão bem interessante de cultura. Sempre sou bem recebido, até pelo fato de eu de alguma maneira tentar expor essa diversidade em minha música.
Sua carreira mudou muito após o lançamento do disco O Glorioso Retorno? Percebeu novos públicos se aproximando do seu trabalho? Como tem sido a turnê com esse álbum pelo país?
Não sei se “mudou” é a palavra correta. Cada disco é um passo, e o passo glorioso foi bem importante no sentido de “pros que carecem de um álbum oficial, agora o Emicida também tem um álbum oficial”. Mas, em termos de público, creio que atraio com minha música pessoas que têm o mesmo grau de sensibilidade para perceber que sou um artista em construção. Aliás, todo artista que se preocupa com a arte de verdade está em construção. Sou uma experiência, como uma viagem. A gente se refaz a cada passo, vê um mundo novo ano após ano e vai fazendo música igual a um retrato. A repercussão do trabalho é bacana. É difícil sincronizar mercado e arte de uma forma que a gente se sinta 100% contemplado. É uma equação complexa, mas a independência permite certas ousadias que criam essa ponte. Fui bem feliz com o Glorioso – estou sendo. Ele ter sido o disco do ano em tantos rankings é uma grande alegria, mas a alegria maior foi ter conseguido fazer um disco como eu queria que fosse. A turnê nacional e internacional mostra como isso se conecta automaticamente com as pessoas.
Tanto no seu trabalho como em entrevistas, nota-se a presença de artistas da música brasileira que de alguma maneira ajudaram na sua formação como músico e compositor – Cartola, Adoniran, Racionais, entre outros. Como você enxerga o estado atual da música brasileira? Vê uma separação muito grande entre mainstream e música independente?
Nosso mercado é conservador, não consegue perceber de forma rápida o que acontece no underground, o que é ruim para ele mesmo, pois precisa de novidade pra continuar aquecido. Muito do sucesso da música independente se deve à incapacidade do mercado de oferecer novidades legais. Exploram muito as mesmas coisas e uma hora isso cansa. A independência oferece outros caminhos. Tem muito a evoluir também, mas essa barreira entre nós e o mainstream já foi maior e já pareceu mais difícil de ser superada.
Você vem de uma turnê pela Europa – inclusive mostrada recentemente no programa Profissão Repórter. O que essa experiência significou para você tanto em termos profissionais quanto pessoais?
Maturidade. Conectar-se com outras pessoas e lugares te faz voltar maior pra casa se você estiver aberto para essas experiências. Musicalmente, conheci muita coisa, aprendi muita coisa e trago na bagagem pra seguir evoluindo aqui. Em termos profissionais, a distribuição internacional do meu nome me interessa muito. Tocar nos maiores festivais do mundo é um ótimo cartão de visitas e acho que nesse sentido estamos fazendo a lição de casa muito bem. Em termos pessoais, eu volto, vou e volto com a sensação de que nosso país é lindo, nossa cultura é linda e é uma grande honra poder dar continuidade a uma música tão incrível como a brasileira.
Você e o Laboratório Fantasma costumam ser muito atuantes nas redes sociais, sempre alimentando os fãs com informações e bastidores. É essa a principal vantagem de tocar um selo/gravadora/produtora, ter tanto liberdade de criação quanto de comunicação com o público?
Sim, é um diferencial. Temos uma equipe bastante jovem, e isso faz todos terem vontade de mostrar o que há de novo no segmento que em que atuam. Isso mantém a gente conectado com o mundo de uma forma especial. É involuntário para a minha geração, por exemplo, estar nas redes sociais. Embora haja as exceções da regra, é muito difícil achar alguém que não tenha relação alguma com as redes sociais hoje, principalmente nos grandes centros urbanos do país, que é por onde minha música circula em geral. Esse traço da geração influencia diretamente no lidar com o público. Ter autonomia pra virar o leme de acordo com o vento é o que impede os naufrágios. Estamos na de aprender cada vez mais. Vence nesse jogo quem entende que isso é uma escola diária.
Por Veja Brasília
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