segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Escola de Ceilândia conquista o prêmio nacional “Educação em Direitos Humanos"




O Projeto Mulheres Inspiradoras, da professora Gina Vieira Ponte de Albuquerque, foi classificado em primeiro lugar na quarta edição do Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos, nesta segunda-feira (21). A cerimônia de entrega do prêmio (R$ 15 mil e um troféu) ocorreu no Auditório Sede do Ministério da Educação, na Esplanada dos Ministérios. A banda “11D3″,  formada por alunos do CEF 12, foi um dos grupos artísticos que abriu o evento. O prêmio tem o objetivo de contribuir para a formação de uma cultura que defenda valores, atitudes e práticas sociais que respeitem os direitos dos cidadãos em todos os espaços da sociedade, o prêmio recebeu candidaturas de diversas instituições entre públicas e privadas de educação básica e superior, além de secretarias de educação e instituições do terceiro setor.

Executado no Centro de Ensino Fundamental 12 de Ceilândia, o projeto de Gina Albuquerque foi selecionado dentre mais de 260 trabalhos inscritos, provenientes de todas as regiões do país e disputou o primeiro lugar na categoria 2A com o Projeto A Cor do Brasil: uma Prática de Sucesso na Educação Prisional, criado pela professora Maria das Graças Reis Barreto e executado no Colégio Professor George Fragoso Modesto, em Salvador, Bahia. Criado para lidar com a representação da mulher na mídia e com uma alta incidência de comportamentos associados ao cyberbullying e a divulgação de imagens eróticas nas redes sociais, o projeto contribui para o uso consciente das redes sociais, incentivo à leitura e à escrita e a sensibilização dos(as) estudantes na construção de uma cultura inspirada e baseada nos direitos humanos, em especial, na igualdade de gênero, trazendo respeito e admiração pelas mulheres.
“O projeto surgiu da necessidade de construir uma prática pedagógica que estabelecesse diálogo com as demandas dos(as) alunos(as). Há muito me sentia incomodada com o modelo educacional vigente, que está muito apartado da realidade da juventude, distanciado das tecnologias com as quais eles interagem o tempo todo”, justifica a professora. Ela mapeou o uso das redes sociais como um dos problemas da escola. Identificou práticas como sexting (divulgação de conteúdos eróticos e sensuais pelos celulares), cyberbullying, pornografia de revanche e outros, por meio dos conteúdos que eles e elas postavam e acessavam.

Construiu o projeto de forma que pudesse intervir nessa situação. O que mais chamou a atenção da professora foi, sobretudo, a forma como as meninas se portavam nas redes sociais e, após algumas pesquisas, incluindo aí a revista Sinpro Mulher , buscou se fundamentar teoricamente para entender esses processos. Percebeu que muito do comportamento das meninas estavam carregados de dois aspectos essenciais: o primeiro, é que elas estão em pleno exercício da sexualidade e, como característica dos tempos atuais, elas usam tecnologias para isso. O segundo são as referências femininas que chegam a elas por meio da grande mídia, como a televisão.





Contestando a mídia
“Sabemos que a televisão e a internet são decisivas para a formação de nossos(as) alunos(as). Naturalmente, as meninas e os meninos tendem a reproduzir esse comportamento. Eu sou parte do meu meio. Vi que o interessante seria contestar essas referências femininas colocadas na mídia, em que a mulher é reduzida a objeto sexual, trazendo outras referências femininas”.
Gina escolheu dez grandes mulheres da história do Brasil e do mundo, com feitos marcantes que entraram para a história da humanidade. Seus e suas alunos(as) estudaram essas personagens reais, leram seis obras de autoria feminina, dentre elas o Diário de Anne Frank, Eu sou Malala, Quarto de Despejo, O Diário de uma Favela, este último de Carolina de Jesus. Leram também três obras de Cristiane Sobral, que é uma escritora de Brasília, após isso escolheram uma mulher inspiradora do círculo do convívio, a entrevistaram para conhecer a história de vida dela e transformaram essa história em um texto autoral no qual contam a história dessa mulher e falam porque a consideram inspiradora. Por fim, no bojo das discussões sobre Maria da Penha, realizaram a campanha “Eu digo não a qualquer forma de violência contra a mulher”.
“As pessoas empunhavam o cartaz com esses dizeres e postavam nas redes sociais com a perspectiva de criar uma corrente do bem e mostrar para eles e elas que a tecnologia é algo superpositivo se a gente souber usá-la com responsabilidade. Tivemos também a preocupação de fazer um debate, com o qual o Sinpro-DF nos ajudou com isso porque mandou a diretora Vilmara Pereira, sobre a violência contra a mulher e a violência virtual, como a pornografia de revanche que é uma coisa que tem acontecido muito e causado muito sofrimento”.
“Os (as) estudantes participaram nessa perspectiva de uma educação que se preocupa com a formação para a cidadania. A gente sabe que é importante o acesso ao saberes acumulados pela humanidade, mas a educação que não é capaz de transformar o pensamento das pessoas não está cumprindo o seu papel. Então, por exemplo, no Brasil temos um dado preocupante: a cada uma hora e meia uma mulher é assassinada pelo simples fato de ser mulher. Não dá para uma escola, comprometida para a formação para a cidadania, fique indiferente com um dado como este. E nós entendemos que medidas, como o fortalecimento das leis em defesa das mulheres é importante, mas isso não basta. A gente precisa de uma ação conjunta da família, da escola, da sociedade e temos a preocupação de cumprir o nosso papel de contribuir para uma sociedade mais justa, porque numa sociedade em que as mulheres não são respeitas, todo mundo vive debaixo da ameaça”.



Ela diz que no decorrer da execução do projeto percebeu que os estudantes estão inseridos numa proposta pedagógica que dialoga com a realidade deles. “A gente tem um desafio muito grande que é superar o modelo educacional que está posto há bastante tempo e está apartado da realidade dessa geração. A escola não tem feito muito sentido para eles. Não é à toa que muitos resistem a estar na escola, abandonam, evadem. A gente precisa de uma escola que dialogue com eles e elas, com o tempo atual, com as novas gerações, com as novas tecnologias. A primeira coisa que percebi foi os meninos e as meninas mais envolvidos, mais motivados, entusiasmados com as propostas porque também foi um projeto que buscou privilegiar o protagonismo dos(as) alunos(as)”.
Ela contou que a proposta do projeto foi justamente se afastar desse modelo educacional instrucionista em que o professor está no centro do processo pedagógico e buscou se aproximar do modelo educacional em que o(a) aluno(a) é protagonista e ele(a) constrói os saberes interagindo, pesquisando, questionando, refletindo e não apenas sendo ouvinte daquilo que o professor diz. Gina diz que começou a ter a percepção sobre as redes sociais há algum tempo e, este ano, recebeu uma proposta para trabalhar com um projeto interdisciplinar. Uma disciplina que todas as escolas têm em suas grades e que concede às escolas trabalhar com projetos. “Eu sempre acreditei mais na pedagogia de projetos do que na pedagogia de conteúdos e vi isso como uma oportunidade de que precisava”, conta. O projeto foi uma experiência nova para ela. Para materializá-lo, participou de três oficinas oferecidas pelo Ministério da Educação (MEC).
Sinpro/DF
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