segunda-feira, 30 de março de 2015

Criado em Ceilândia, técnico que revelou Marílson dos Santos muda a vida de centenas de jovens no DF



A fala é veloz e afiada. Em 10 minutos de conversa, Albenes Souza, 57 anos, é capaz de mesclar diversos assuntos, arriscar previsões e contar memórias de um passado distante. A rapidez das palavras tenta acompanhar os passos dos atletas preparados por ele. E o número é grande. “Ih… Já perdi a conta de quantos meninos passaram por mim”, diz, entre frustração e orgulho, com a mão na testa. O ritmo frenético pesa na mente do treinador que levou o nome do Distrito Federal ao atletismo mundial. O descanso tem data marcada. “Paro depois de 2016. Vou ficar só com a música, que é outra grande paixão”, avisa o veterano.

Sem perder tempo, Albenes emenda os versos simples. A voz do técnico preenche o vazio da pista de atletismo da Universidade de Brasília (UnB). Nem mesmo as placas de borracha ressecadas do local praticamente abandonado lhe tiram o bom humor. Albenes canta Ceilândia. Foi nas pistas de terra da região, a 30km do Plano Piloto, que o treinador encontrou garotos capazes de se tornar grandes atletas.




Marílson representou a concretização de um projeto pessoal do treinador. Criado em meio à violência de Ceilândia, o baiano de Ituaçu viu no esporte a oportunidade de “salvar vidas”. “Eu precisava criar um ídolo, um atleta que mostrasse para as crianças da cidade que é possível crescer e sair daquela realidade”, conta, satisfeito, ao dizer como o esporte mudou a vida do pupilo.



Com o Centro de Formação de Atletas de Ceilândia, criado em 1986, Albenes instruiu muitos outros Marílsons. Os ensinamentos vão muito além das técnicas de atletismo. O treinador preocupa-se em educar. O trabalho feito há décadas encontra dificuldades de se manter na própria cidade, mas ganha reconhecimento nacional. Mesmo sem ele ter salário para dar aos atletas, muita gente o procura. “Ligam do país todo, falam que têm um menino sensacional e o mandam pra Brasília. Eu já não tenho mais como receber tanto atleta”, pondera.

Uma solução encontrada por ele foi criar a Casa do Atleta, em Águas Lindas (GO). Hoje, o local tem seis moradores, mas já chegou a reunir 15 — incluindo quenianos. Construída com recursos próprios de Albenes, a casa é mantida por ele e e por doações. “O pessoal me ajuda com tênis e roupas. Tento achar emprego para eles e vou à feira no fim do dia para pegar frutas e verduras que sobraram e ninguém quis”, relata. O veterano acrescenta que, às vezes, hospeda jovens na própria residência. “Eles não têm para onde ir, o que eu posso fazer?”, observa. Quando começam a crescer no esporte, o treinador os envia para clubes do Rio e de São Paulo, onde podem se profissionalizar.

Apoio financeiro, só o do próprio salário como especialista em informática no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro). A renda aumenta com as aulas que dá à elite de Brasília, às 5h30, no Jardim Botânico. O valor da mensalidade vai de acordo com o poder aquisitivo do contratante. Alguns figurões chegam a pagar R$ 300 por mês para dois treinos por semana. E quem quer atendimento exclusivo é logo dispensado pelo treinador. “Eu treino todo mundo junto, o cara do Lago e o menino da Ceilândia. Um paga boa grana, o outro não paga nada, mas os dois vão ter um treino perfeito”, sustenta.

“Todos iguais”
O incomum plano de negócios vai além do financeiro. Aos sábados, todos os alunos se encontram para um treino conjunto. O convívio de pessoas com situações financeiras distintas é proposital. “Sem paletó, com short e camiseta, todos ficam iguais”, raciocina o treinador. Na visão de Albenes, é assim que os jovens de menor poder aquisitivo ampliam seus horizontes, a partir de exemplos.

Se as dificuldades financeiras permeiam o projeto do treinador no DF, o reconhecimento internacional persiste sete anos após o título de Marilson em Nova York. Albenes estava no Parque da Cidade quando alguém o procurou, gritando o nome do treinador. “Era uma moça da embaixada americana, me convidando para viajar para os Estados Unidos”, conta.

O baiano fez uma turnê em julho passado pelo país, fazendo palestras, com direito a dois intérpretes, e conhecendo projetos sociais. “Só fiquei em lugar chique, e todo mundo queria me conhecer, me senti uma estrela”, ri Albenes, que também já foi a Sidney, onde acompanhou os triatletas Leandro Macedo e Mariana Ohata nas Olimpíadas de 2000.


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