sábado, 14 de março de 2015

Entrevista - Agnelo Queiroz: Quebrando o silêncio


Agnelo Queiroz (PT) foi distrital, deputado federal por três mandatos e ministro do Esporte. Durante os últimos quatro anos, pilotou o avião chamado Brasília. No dia 7 de janeiro, a imagem do ex-governador a bordo de um voo para Miami, a 5 793 quilômetros da capital brasileira, simbolizava o desfecho melancólico de sua administração no Distrito Federal.

Eliminado das eleições ainda no primeiro turno e acusado pelo atual governo de ser o responsável por um desfalque de 4 bilhões de reais nas finanças do DF, Queiroz soma apenas problemas desde que passou sua faixa. Tornou-se réu em nove ações de improbidade administrativa e teve os bens bloqueados em dois processos nos quais é acusado de lesar o Erário.

Alvejado em todas as direções, o ex-governador planejava permanecer calado pelo prazo mínimo de 100 dias desde o início da nova administração. No entanto, numa entrevista exclusiva a VEJA BRASÍLIA, concedida em São Paulo na terça (10), Queiroz rompeu o silêncio e partiu para o contra-ataque. Acusou o governador Rodrigo Rollemberg de usar táticas nazistas para acabar com sua imagem, avaliou que seu sucessor tem uma visão miúda e mesquinha de gestão pública e o chamou de inoperante. “Quem governa é o Hélio Doyle (chefe da Casa Civil)”, considerou.

Mas não só o sucessor direto é destinatário da cólera do político. O petista criticou a conduta do senador Cristovam Buarque (PDT), que, segundo ele, teria participado das negociações para definir o aumento aos servidores e agora faz “o jogo do contra”. O ex-governador ainda se disse “revoltado” com a postura do presidente do Tribunal de Contas do DF, Renato Rainha, que “usa a corte como palanque para a campanha de 2018”.

Embora pivô de ações que tentam responsabilizá-lo pela algazarra financeira dos últimos meses, Queiroz dispara que a crise na cidade foi fabricada pelos seus inimigos. Ele afirma que deixou 1 bilhão de reais em caixa quando saiu do governo. “Se o GDF não tinha verba, como pode ter quitado integralmente o salário dos servidores depois da determinação judicial? Brotou dinheiro?”, provoca.

Há dois meses morando em Miami com a mulher, Ilza Maria, Queiroz diz que volta a Brasília no fim de abril para se defender dos petardos de adversários e dos processos nos órgãos oficiais. Até lá, continua em seu retiro americano, onde diz levar uma vida bucólica, indo de bicicleta até a escola de inglês, local em que passa a maior parte do tempo.

Confira a entrevista com o ex-governador do Distrito Federal.


Quebrando o silêncio

O ex-governador garante não ser culpado pela crise, dispara contra a atual administração e atribui sua impopularidade ao embate com grupos poderosos

O atual governo afirma que sua administração deixou um rombo nas contas públicas de 4 bilhões de reais. O senhor foi irresponsável?

Essa é a primeira grande mentira de Rollemberg. Deixei 1 bilhão de reais em caixa quando saí. O governo dele disse que só tinha 67 000 reais na conta. Os dados oficiais provam que isso é mentira. O GDF tem 55 contas, entre o BRB, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil. Eles mostraram só o que interessava. Quando a Justiça, recentemente, obrigou o GDF a pagar os servidores sem fatiar salários e o governador cumpriu a medida, ficou claro que se tratava de uma farsa, que a verba estava em caixa. Ou eles fizeram o dinheiro brotar?

O senhor também não convenceu o Tribunal de Contas nem o Ministério Público sobre a sanidade das finanças de seu governo. Trata-se de um complô?

O governo de Rollemberg se vale de táticas nazistas na tentativa de me destruir. Repete uma mentira mil vezes para ver se ela vira verdade. Alega que eu deixei dívidas a partir de cálculos sobre compromissos futuros do governo. Isso é um absurdo contábil, mas alguns setores sérios da sociedade chegaram a acreditar. Dos mais de 100 000 servidores, 9 000 faziam aniversário em dezembro e deveriam receber o 13º salário no mês subsequente, em 5 de janeiro. É um dos casos em que não se pode falar em atraso. No ano passado, tivemos dificuldade de fechamento de contas, como no resto do Brasil. A diferença é que perdi a eleição e houve uma descontinuidade. Para Rollemberg, a campanha não acabou. Ele não desceu do palanque. Rollemberg, não. O governador Hélio Doyle, porque quem governa é o Hélio. Ele também organiza as mentiras e as passa para a população. Brasília vive uma crise fabricada.

O senhor é réu em duas ações que bloquearam seus bens e contas. Acha que terá condições de provar sua inocência?

Em uma dessas ações, o MP alegou que a inauguração do Centro Administrativo foi um capricho, por ter sido realizada no final do governo. Mas eu estava em pleno exercício do meu mandato popular e soberano. E todos os pressupostos estavam em dia. Se eu não emitisse o habite-se, aí, sim, teria de responder. Cumpri minha obrigação. Entreguei um prédio fundamental para melhorar a rotina da população.

Mas entregou de maneira precária, sem móveis, por exemplo.

E no Mané Garrincha? Há móveis e computadores? Transformar o estádio em centro administrativo tendo um espaço apropriado para o funcionamento da burocracia é um disparate. Um governo que entra não pode destruir tudo o que seu antecessor fez para alimentar um revanchismo ignorante.

O senhor investiu tempo e verba pública para trazer a Universíade e a Fórmula Indy a Brasília. O atual governo o acusa de não ter deixado dinheiro para a realização dos projetos. Quem vai pagar essa conta?

Cancelar essas parcerias depois do esforço gigantesco que fizemos para colocar Brasília no calendário internacional é um crime contra a cidade. Os eventos movimentam hotéis, táxis, lojas, toda a cadeia produtiva do turismo, geram emprego e renda. Só a Fórmula Indy deixaria 100 milhões de reais na cidade. Sem falar que a atitude irresponsável do cancelamento compromete a imagem do DF. Brasília vai levar décadas para recuperar a confiança internacional, além de ter de arcar com uma indenização milionária. Esse governo é mesquinho, tem uma visão pequena da capital do país. Achar que todo o esforço de cooperação internacional era para justificar viagens ao exterior mostra uma compreensão miúda da gestão pública.

Poucos meses após ter deixado o governo, o senhor já responde a nove ações de improbidade, a maior parte delas por nepotismo. Faltou atenção à lei que proíbe o emprego de parentes no governo?

Fui eu que fiz essa lei. Temos hoje uma legislação de transparência que é invejável. Mas é que um governador assina muitas nomeações e, nessas situações, foram parentes em áreas diferentes do governo. Assim que tomei conhecimento, pelo próprio MP, mandei demitir um dos familiares. Mas, convenhamos, estamos falando de meia dúzia de casos em um universo de mais de 100 000 servidores. Dê uma olhada no governo Rollemberg. O presidente da Caesb e o diretor do DER são irmãos, os Ludovice.

O senhor passou quatro anos à frente do governo, seis meses como interventor da saúde. Hoje se sentiria seguro em indicar tratamento em um hospital público do DF para algum parente seu?

Não só tenho coragem como fui atendido no HRT (Hospital Regional de Taguatinga) quando machuquei a perna em um acidente de moto.

O senhor tinha a prerrogativa do cargo. Dramático é para a dona Maria e o seu Francisco, não?

No meu governo, melhoramos o atendimento nas emergências, criei a sala vermelha. O Hospital de Base é referência no atendimento dos casos mais graves. Investimos 5,6 bilhões de reais nessa área, o maior aporte entre todos os estados. Recuperei a emergência do HRT, do HRP (Planaltina), fiz seis UPAs, nove clínicas da família, coloquei o Hospital da Criança para funcionar. Contratei 14 000 profissionais de saúde e melhorei o salário dos servidores, não só os da saúde. Todos os aumentos foram calculados com base na média de arrecadação do DF. Dei conta de pagar de 2011 a 2014. Por que agora esse governo diz que não pode honrar os compromissos? Porque tem prioridades diferentes e manipulou quanto pôde para tirar um direito adquirido pelos funcionários. E o mais triste é que políticos que sentaram comigo para negociar esse aumento hoje fazem o jogo do contra.

De quem o senhor está falando?

Cristovam Buarque, por exemplo.

Os amigos o tratam carinhosamente por Magrão, dizem que tem abraço de urso. Os adversários o chamam de Agnulo e dizem que no GDF o senhor esteve mais para bicho-preguiça. Como se autoavalia?

Os adversários estão no papel deles, desde que assumi tentam me desconstruir. Quem me conhece sabe do meu ritmo. Trabalho até dezoito horas por dia se for preciso. Mas esse é o tipo de pergunta que só as comparações vão responder. Quero ver no final do governo quem fez mais UPAs, escolas, asfalto.

O senhor diz que seus inimigos políticos tentam destruí-lo, mas foram os eleitores que não o levaram nem ao segundo turno, patamar que até dona Weslian alcançou em 2010. Não lhe faltou carisma?

Fui vítima de um aspecto conjuntural, de ataques permanentes ao meu governo. Não consegui mostrar tudo o que fiz. Na campanha, os adversários tiveram a cara de pau de negar obras físicas que construí, que estão aí para quem quiser ver. Além disso, enfrentei grupos poderosos, cartéis, e isso gera muitos inimigos. Paguei com o preço da popularidade.

Se não for impedido pela Justiça, pretende voltar à política?

Meu objetivo hoje é fazer a minha defesa, mostrar as realizações do meu governo. Não estou pensando em candidatura coisíssima nenhuma. Só não vou aceitar que uma carreira respeitada seja alvo de ataques rasteiros.


O senhor já pilotou o avião chamado Brasília, mas, em janeiro, foi visto indo para Miami espremido na classe econômica. O poder deixou saudade?

Em absoluto. Nunca me contaminei por posições. Tenho vida simples, tive no mandato inteiro e vou continuar assim. A melhor maneira de conhecer uma pessoa é dar poder a ela. Veja o Rollemberg. Acusou-me de ter feito uma reforma desnecessária em Águas Claras, disse que não usaria o espaço e agora está despachando de lá. Segundo eu soube, até elogiou as acomodações. Mas falar uma coisa e fazer outra parece que tem se tornado a marca dele. Prometeu fazer a eleição de administrador e não fez. Disse que iria radicalizar na transparência e acabou com a secretaria. Prometeu cortar comissionados e aumentou o salário desses cargos. Comprometeu-se a liberar a senha do Siggo e, até agora, nada. E foi pedir conselhos a Roriz. Isso não tem cabimento para um político que se diz mais alinhado à esquerda.

Como tem sido sua rotina em Miami?

Não tenho uma rotina muito fixa. Mas, basicamente, vou de bicicleta à escola de inglês, que fica a uns 6 quilômetros de casa, e passo o dia lá. Não voltei a correr porque ainda preciso de fisioterapia para o joelho. Ele não está 100%. Como não temos secretária lá, dividimos as tarefas. Às vezes eu cozinho, às vezes é a Ilza (ex-primeira-dama). É uma vida nada fora dos padrões.

Quando retorna a Brasília?

No fim de abril. A ideia era aproveitar minha licença-prêmio como médico para ficar afastado por pelo menos 100 dias, deixar o governador à vontade, sem ficar emitindo opiniões. Acabei revendo essa decisão para reagir ao massacre que ele tem feito à minha imagem. Portanto, em breve voltarei às minhas atividades como cidadão, para me defender contra essas injustiças, sobretudo perante os órgãos competentes. Tenho confiança na lucidez do Judiciário. Agora, fico revoltado quando vejo o presidente de um Tribunal de Contas (Renato Rainha) fazendo pré-julgamento, falando pelos conselheiros, usando o cargo como palanque eleitoral.

Por que esta entrevista está sendo feita em São Paulo? O senhor está constrangido de aparecer em Brasília? Tem medo de ser agredido?

Em absoluto. Eu tinha questões pessoais para resolver aqui, só isso. Sei que vai levar um tempo, mas as pessoas um dia ainda vão reconhecer tudo o que fiz por Brasília.

Do auge ao refúgio
Relembre a trajetória do político, desde a filiação ao PT até o ostracismo nos Estados Unidos

2008
Apoiado pelo ex-presidente Lula, de quem foi ministro do Esporte, Queiroz deixa o PCdoB e, em julho de 2008, assina sua ficha de filiação ao PT

Em março de 2010, ele desbanca o petista histórico Geraldo Magela, durante as prévias do partido, e se torna candidato ao governo do DF

2010
Eleito em outubro de 2010, depois de enfrentar Weslian Roriz no segundo turno das eleições, Queiroz assume o poder. Em janeiro de 2011, ele decreta estado de emergência na área da saúde

A construção do Estádio Nacional Mané Garrincha lhe rendeu críticas pelo alto custo da obra e louros pela boa organização da Copa do Mundo em Brasília. A arena torna-se um símbolo do governo de Queiroz, para o bem e para o mal

2012
A partir de 2012, o governador e seus secretários fazem uma série de viagens internacionais sob o argumento de captar eventos mundiais para a cidade. As competições, no entanto, seriam canceladas pelo atual governo, que alega falta de condições financeiras

Com baixa intenção de votos nas pesquisas pré-eleitorais, já em 2013, Queiroz perde apoio de partidos e antigos aliados

2014
Vivendo um momento ruim na política, Queiroz demonstra abatimento físico. Em agosto de 2014, cai de sua moto, mas segue firme na campanha da reeleição.


Foto: Mario Rodrigues)
Fonte: Por Lilian Tahan, blog Grande Angular/Revista Veja Brasilia 
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