segunda-feira, 27 de abril de 2015

Tráfico concentra assassinatos. Medo cala moradores em Ceilândia

Prisão de acusados de tráfico em Ceilândia: relação direta com homicídios.

Um estudo sobre os benefícios de informações georreferenciadas na investigação policial, que acaba de ser lançado, dois policiais da área de tecnologia da informação da Polícia Civil usaram programas de computador para georreferenciar os crimes tráfico e de homicídios em Ceilândia, cidade mais populosa do Distrito Federal. Reginaldo Pereira dos Santos Filho e José Wellington Cunha da Silva analisaram os boletins de ocorrência feitos nas delegacias da cidade entre os anos de 2010 e 2011. 

Consideraram o sexo, a idade e a escolaridade dos envolvidos. Por meio do Sistema de Informação Geográfica, associado ao Sistema de Posição Global (GPS), descobriram que os locais de registro de tráfico coincidiam com as áreas com mais homicídios. Também apontaram que a maioria dos envolvidos tem baixa escolaridade e, muitos, menos de 18 anos. 

O estudo é fruto de uma dissertação de mestrado defendida na Universidade Católica em 2012 e mostra a importância do uso de tecnologias da informação para o gestor público. “Em alguns casos, fica evidente que não se trata só de um problema de polícia, mas de uma situação que necessita de intervenção de diferentes áreas do governo. Às vezes, melhorar a iluminação pública e limpar terrenos baldios ajuda na segurança de uma lugar”, explica Reginaldo. 

Alguns dos programas de computador usados por Reginaldo e José Wellington para desenvolver o estudo foram desenvolvidos e patenteados por policiais civis do DF e estão à disposição do Estado. Em alguns casos, como na confecção da análise de vínculos, esses instrumentos já são usados e municiam os investigadores com uma vasta informação das relações entre criminosos, permitindo identificar as tarefas de cada integrante da organização. 

Para Reginaldo, o compartilhamento da base de dados e a manipulação correta das informações permitem ao Estado olhar a atividade criminosa de outro ângulo. “É como se você estivesse do alto da arquibancada de um estádio de futebol. Você tem visão clara do que está acontecendo na região”, compara. Segundo Reginaldo Pereira, hoje, o governo tem estrutura para fazer o georreferenciamento de todos os tipos de crimes, em qualquer período.

Educação integral

Alunos do Centro de Ensino Fundamental 35 (CEF 35) de Ceilândia trabalham para escrever uma história diferente. A instituição fica na área mapeada pelos policiais e, recentemente, deu início ao atendimento em período integral aos alunos. O processo está apenas no começo.Além da monitoria, a instituição desenvolve atividades extracurriculares para criar um ambiente de paz. 

Um dos projetos é o Vozes da Paz. Alunos, professores, pais e funcionários da escola discutem sobre a violência e traçam estratégias de como ter um ambiente mais saudável. Palestrantes apresentaram as drogas para os estudantes e explicaram os efeitos e os danos de cada uma delas. “Desde que iniciamos os trabalhos, há três anos, houve uma redução drástica da violência”, diz a supervisora pedagógica da instituição, Valéria Sá. 

Os estudantes deixam claro que, estar na escola o dia todo, tem sido uma conquista. “É bem legal. Muito melhor do que ficar na rua aprendendo bobagem e ocupando a cabeça com coisa errada”, afirma Cleidemara Borges, 13 anos, aluna do 6º ano. 

Em alguns casos, fica evidente que não se trata só de um problema de polícia, 
mas de uma situação que necessita de intervenção de diferentes áreas do governo”



Medo cala moradores

Falar sobre a convivência diária com bandidos é difícil para moradores das regiões onde o crime encontrou espaço para proliferar. Alguns dizem não saber de nada. Outros preferem falar sobre o que falta na cidade. “O governo precisa fazer mais vilas olímpicas e investir pesado no esporte. No P Norte, a vila olímpica tirou crianças e adolescentes das ruas. Virou outro lugar”, afirma uma servidora pública, sem se identificar. 

Com a experiência de quem viu meninos e meninas nascerem e se perderem no vício, a comerciante Geilza Alves, 50 anos, acredita que o caminho para o tráfico é pavimento por uma conjunção de fatores. O principal deles é a desestruturação familiar. “Se fizer uma pesquisa, vai ver que os pais desses meninos são viciados na bebida, e as mães precisam trabalhar o dia todo para ajudar a pagar as contas. Com isso, ficam jogados na rua, sem fazer nada o dia todo. Alguns se revoltam com o ambiente ruim em casa e acabam encontrando nas drogas o dinheiro fácil para ter alguma coisa.” Segundo os moradores, “nos últimos tempos”, as mortes deram uma trégua. Mas o uso e o tráfico continuam intensos.

A sensação dos moradores em relação a queda nas mortes se confirma pelas estatísticas. No primeiro trimestre deste ano, os homicídios caíram 35% de acordo com a Secretaria de Segurança Pública. Já os registros de tráfico cresceram 108% no mesmo período. Uma das explicações pode ser o fato de que, no começo de 2014, a PM estava com a operação tartaruga e, com isso, patrulhou menos e fez menos abordagens.


Por Adriana Bernardes, Correio Braziliense, foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...