sábado, 20 de junho de 2015

Desempregados, brasilienses se viram como podem para encontrar alternativas de sobrevivência


Um, dois, testando. Em todas as praças em que se apresentam, a rotina é a mesma para Ricardo Alves, cantor gospel de 36 anos, e seu filho, Gileadi Inácio Natividade, estudante, 14. Primeiro, eles montam os microfones, depois, afinam o violão e, por fim, fazem a checagem de som. “Quem canta quer cantar”, brinca o pai, cuja foto estampa a capa do álbum de sertanejo evangélico gravado com esforço próprio, vendido por R$ 10 a unidade.


Em Brasília, de acordo com a Secretaria do Trabalho (Setrab), existem 215 mil pessoas sem emprego, o que representa 14,1 % da População Economicamente Ativa (PEA) da capital. Especialistas apontam que alternativas calcadas na informalidade, como a encontrada por Alves e seu filho, são comuns e ocorrem de maneira mais intensificada em momento de desaquecimento da economia.

Necessidade

O gosto pela música motiva a atual fonte de renda  de Alves, que divide uma casa no Itapoã com a mulher e outra filha. Natural de Uberlândia (MG) e morador do DF há cinco meses, o homem vive o sonho por necessidade, afirma lucrar pelo menos R$ 1 mil por mês e projeta ter emprego formal.
“Penso, sim, em arranjar um trabalho fixo e ter a cantoria mais como hobby. Tenho família para cuidar, né?”, diz o artista, também formado em curso técnico de pintura.

Na voz

Por 15 anos, Ricardo Alves foi pintor e ele ainda sonha prosseguir com a profissão. A dificuldade na busca por emprego, porém, o torna propenso a investir no sucesso próprio por meio da música. O pequeno Gileadi aprendeu “uns três acordes” com o pai e tenta ajudar como pode, servindo hoje de segunda voz para a dupla sertaneja.

“Gosto disso demais da conta, mas quero me formar em alguma coisa também”, conta o adolescente, com sotaque mineiro   carregado – fala todos os erres puxados. 

“Queria ter uma empresa para vender carro de luxo. Meu favorito é o Lamborghini”, sonha o jovem, em referência à marca italiana de carros esportivos fundada em 1963 e presente na garagem de artistas internacionais.

Segundo o mestre e doutor em Economia Carlos Alberto Ramos, a situação de Alves é costumeira entre pessoas recém-desempregadas. “(A oferta de) emprego formal está caindo, então, não tem muita alternativa. Se você é a principal fonte de renda da família,   vai cair na informalidade”, diz.
Conforme o especialista, no primeiro momento, uma pessoa demitida busca função similar (e de igual remuneração) à que tinha. Se as oportunidades não surgem,   tende a diminuir as ambições e adota outro  jeito  de se sustentar.

Família se ajuda em crise

Sem trabalho há quase seis meses, Joselito Pereira, de 24 anos, formado como vigilante, reclama porque existe muita concorrência em sua área e afirma esperar “as portas se abrirem”. “Tenho experiência como motorista também, mas o mercado está fraco. Tenho paciência, mas é uma situação difícil”, queixa-se.

O rapaz foi buscar soluções fora de sua zona de conforto e além do que está capacitado. “Já fui auxiliar de obra algumas vezes, mas tem ficado mais e mais complicado. Eu tirava uns R$ 70 ou R$ 80, mas eles querem mão de obra especializada”, relata Joselito. Ele não tem noção, por enquanto, de como estabilizar a vida financeira, então  o jeito é olhar para os negócios da família.
Atualmente, ele se voluntaria para resolver problemas e transportar crianças para a creche da sogra, no Itapoã, onde mora com a mulher e o filho recém-nascido. “Eu tenho ajudado e ela me ajuda também. Até agora não nos faltou nada”, diz, aliviado.

Culpa do quê?

Para o subsecretário de Atendimento ao Trabalhador e Empregador do Distrito Federal, Antônio Vieira Paiva, a dificuldade de pessoas como Ricardo Alves e Joselito Pereira em encontrar um trabalho formal deve-se à escassez de concursos para o serviço público e, principalmente, à falta de mão- de-obra especializada para as funções carentes de profissionais. Ele cita as áreas de Tecnologia da Informação, Radiologia e instalação de sistemas de segurança como as mais necessitadas atualmente.

“Digamos que dez vagas sejam oferecidas nas Agências do Trabalhador e, após 30 dias, não haja preenchimento. Significa que o contratante não viu qualificação necessária, seja por falta de experiência ou curso específico. Precisamos trabalhar a partir disso”, exemplifica Paiva. 
Ele diz que o governo busca parcerias com o Senac e o Sesi para corrigir o problema, mas reclama do Pronatec. Segundo Paiva, os recursos para o programa ainda não teriam sido repassados pelo Governo Federal e, assim, não teria havido como oferecer cursos técnicos.

"Economia desaquecida"

O mestre e doutor em Economia  Carlos Alberto Ramos  discorda da visão do governo sobre os porquês da falta de empregos para todos. Para ele, não é questão de qualificação insuficiente, mas de “economia desaquecida na atual conjuntura”. “As fábricas de carro, por exemplo, estão produzindo menos, então  precisam de menos engenheiros, empresários etc. Quando a economia cai, tudo é afetado”, justifica.

Nascido no Pará, criado em São Paulo e residente em Brasília, Eugênio Cunha Gibson, 25 anos, não frequentou a universidade, mas aprendeu inglês e “outras coisas por aí”. Ele se mudou para a capital há cinco meses, decidiu não mais ficar na fila por emprego e se virou.

“Hoje você entra em uma empresa e, seis meses depois, é mandado embora, porque a empresa está mal. É um ciclo”, critica o jovem, cuja última profissão foi de analista de frota de carro para uma companhia paulista de engenharia. O caminho foi comprar um carrinho de mão, pesquisar preços no atacado e se tornar vendedor ambulante.

Segundo Gibson, em alguns meses, é possível ganhar até R$ 3,5 mil vendendo água, refrigerantes, salgadinhos e afins. “Tenho uma meta de ir ao Sebrae e formalizar um CNPJ. Quero abrir meu negócio”, almeja. Enquanto isso, ele admite correr o risco de ser roubado ao caminhar de uma parada de ônibus a outra ou ser pego pela fiscalização.

“Eu não tenho conforto. Se preciso ir ao banheiro, não tem como. Mesmo assim, não quero trabalhar para os outros. Passei muito tempo correndo atrás de emprego e nada”, revolta-se. Ele critica a CLT, pois acredita que os funcionários “se acomodam quando têm segurança”, mas valoriza uma situação de estabilidade financeira.

Eric Zambon / Jornal de Brasília
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