terça-feira, 2 de junho de 2015

Professora de Ceilândia é a única brasileira finalista do Prêmio Ibero-americano de Educação

Quando ainda era uma menina triste, calada e medrosa, a mãe da professora Gina Vieira Ponte de Albuquerque, 43 anos, alertou: “A educação vai transformar a sua vida. Não apenas no sentido econômico e social, mas na construção da sua identidade”. Naquela época, a matriarca não imaginava que a filha seria uma profissional premiada (veja quadro) e reconhecida nacionalmente. 

Mas conhecia o caráter de Gina e sabia que a família tinha oferecido o mais importante: uma educação fundamentada em valores. Hoje, a professora do Centro de Ensino Fundamental 12 de Ceilândia receberá a notícia de que é uma das finalistas do Prêmio Ibero-americano de Educação em Direitos Humanos. Ela concorrerá a US$ 20 mil. A Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) no Brasil vai cobrir os custos para Gina participar do seminário e representar o Brasil na disputa. Haverá representantes dos 22 países-membros e ela é a única brasileira na competição.

Para Gina, realização e compromisso definem os sentimentos que chegam com os prêmios que já recebeu (veja quadro). “Tenho muito cuidado para não me deslumbrar. Isso tudo só aumenta a minha responsabilidade. As palavras convencem, mas o exemplo arrasta. Procuro ser uma professora atenta aos alunos, que lhes oferece uma escuta sensível.” Os títulos vieram após o trabalho com o projeto “Mulheres Inspiradoras”. A proposta começa com a leitura de livros de escritoras, como a paquistanesa Malala. Em seguida, os alunos do nono ano do ensino fundamental estudam a biografia de 10 mulheres que fizeram importantes contribuições à humanidade na defesa dos direitos humanos, como Anny Frank e Maria da Penha, por exemplo. Por fim, os estudantes devem escrever e contar histórias de mulheres da comunidade de Ceilândia.

O objetivo de Gina era ressignificar a percepção que os jovens têm da mulher e fazê-los compreender a importância de atuar na defesa do gênero. Processo semelhante ao que ela passou ao longo dos anos. A professora nasceu em Brasília e foi a primeira dos seis filhos de Djanira Castro e Moisés Manoel da Ponte a nascer em Ceilândia. “Não foi uma infância fácil. Enfrentei o racismo e a descriminação. Mas meus pais nunca permitiram que fosse vítima. Eles me ensinaram a persistência.”

A professora se emociona ao mostrar fotos da primeira comemoração de Natal, regada a Coca-Cola e pudim de leite. Montado em uma bicicleta, Moisés trabalhava como vendedor ambulante de bolachões, e Djanira era empregada doméstica antes de os filhos nascerem e depois que a mais velha completou 14 anos. “Mas durante muito tempo ela escolheu ficar em casa para nos acompanhar, nos supervisionar e nos ajudar nos estudos”, relembra. Para complementar a renda e ajudar na alimentação, a matriarca plantava e colhia, no jardim de casa, jiló, quiabo, couve, entre outros.

Professores da vida

Ao longo dos anos, a educadora passou por importantes mestres. Com o pai, ela aprendeu o que era integridade. A mãe, excelente contadora de histórias e dona de uma riqueza interior enorme, ensinou-lhe que o valor das coisas mais importantes não estavam no material. No entanto, talvez a contribuição mais significativa do casal tenha sido revelar a grande paixão da professora: a educação. “Eles se preocupavam muito com nossa escolaridade. Minha mãe me fez me apaixonar pela escola antes mesmo de entrar. Lembro de acompanhar as obras do colégio que ia abrir do lado da minha casa”, recorda-se.

Anos depois, uma professora chamada Creusa deu o toque que faltava para transformar Gina em uma educadora encantada pelo que faz. “Ela era enérgica. Apesar de rígida, comigo era só ternura. Ela me colocou no colo, a despeito da minha roupa rasgada. Acreditou em mim”, revela. O carinho e a atenção oferecidos por Creusa concretizaram o sonho de Gina. “Queria ser para outras crianças o que ela (Creusa) foi para mim.” Gina foi aluna da Escola Normal de Ceilândia. Na época, os estudantes ou tinham urgência em trabalhar, ou não podiam pagar por uma escola privada ou não tinham tempo de passar o dia todo na Universidade de Brasília (UnB).

Aos 18 anos, passou no primeiro concurso e, aos 19, deu início à carreira. “No dia da formatura, meu pai era só orgulho. Ele fretou uma Kombi para que a família toda fosse ver que ele tinha uma filha professora”, conta. Antes de desenvolver o projeto Mulheres Inspiradoras, Gina se viu diante de dois desafios: superar o modelo educacional existente e trazer as novas tecnologias para uma geração que já nasceu com ela. Apostou na ideia, dedicou-se e, agora, colhe os frutos do empenho, inclusive a mudança da própria percepção. “Assumi minha negritude. Não sou mais a menina medrosa. Eu me ressignifiquei.” Gina acredita na educação como formadora de cidadania. Ela concebe o processo pedagógico com amor, e valoriza a ação transformadora desse processo.

Quer ajudar?

» O trabalho diversificado dos alunos de Gina sobre as mulheres inspiradoras de Ceilândia se transformou em livro. Mas, depois de um assalto, o dinheiro de um dos prêmios da educadora, destinado à publicação, foi levado. Quem quiser ajudar pode entrar em contato. Gina Vieira: 9941 8602 ou ginaponte@ig.com.br. Vitória Régia: 8422 7243
Prêmios recebidos por Gina
» Prêmio Professores do Brasil 2014
» Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos 2014
» Mulheres Flores de Aço, destaque Educação & Lazer
Fonte: Correio Braziliense - 29/05/2015
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