sexta-feira, 3 de julho de 2015

Casa dos horrores, ou Câmara Legislativa


Antes de sair de recesso, os distritais jogaram no colo de Rollemberg uma lista de horrores compatível com o histórico da casa.

A quem mesmo eles representam? Não a mim ou aos meus pares ou a qualquer cidadão ou cidadã com um fio de convicções democráticas, direitos civis e um mínimo de compromisso com o próprio tempo e lugar.


É tão difícil comentar, de um modo razoavelmente civilizado e suficientemente contundente, as últimas da Câmara Legislativa que talvez só um Dias Gomes ressuscitado poderia construir uma nova Sucupira onde a mais atrasada política continuasse a ser exercida.

Sem a presença do mitológico Odorico Paraguaçu, por certo.

Os personagens da anacrônica ficção que se apoderou do poder legislativo da capital são demasiadamente insossos para compor uma narrativa irônica. Nem por isso causam menos danos a Brasília, aos brasilienses e às noções de inteligência, decência e civilidade.

Como é possível que uma cidade projetada por homens da melhor qualidade – democratas, utópicos, humanistas, socialistas, comunistas, poetas, pensadores e pela bravura criativa e incansável do operário brasileiro – como é possível que a cidade com esse excepcional componente genético venha elegendo, sucessivamente, uma Câmara Legislativa que representa o pior da política brasileira. O pior do pior, porque a escala de valores vem caindo vergitinosa e perigosamente.

Num constrangedor à-vontade, os distritais tripudiam com a inteligência (e a memória) do eleitor. Ao rebater argumento de Chico Vigilante, contra o projeto que proíbe protestos no Eixo Monumental em horários de rush, Cristiano Araújo, autor da ideia, saiu-se com essa pérola: “Em países modernos, as pessoas se manifestam com ordem”.

Tivesse acompanhado as recentes manifestações de motoristas de táxi na França, teria se poupado do ridículo. Ou os protestos anti-racismo que se espalharam pelos Estados Unidos em maio último. Ou aquele outro maio, de que Araújo deve ter ouvido falar, embora tenha deixado claro a Vigilante que cresceu na democracia.

Mais vergonhoso para os brasilienses, porém, foi a aprovação de um projeto de lei que define família como um homem e uma mulher casados ou em união estável. O feito distrital aconteceu uma semana depois de os Estados Unidos aprovarem o casamento gay. Na quarta-feira passada, a Igreja Episcopal norte-americana autorizou a cerimônia religiosa para uniões de mesmo sexo.

Atentos ao que acontece nas democracias contemporâneas, os distritais também se preocuparam com a religião – se depender deles, as igrejas ficarão isentas de pagamento de ICMS dos serviços de telecomunicação, água, luz e gás.

Na despedida do primeiro semestre do primeiro ano desta legislatura, os distritais rejeitaram a proposta de redução das administrações regionais e aprovaram a concessão de verbas indenizatórias a policiais civis – a concessão de auxílio-moradia, auxílio-alimentação e auxílio-uniforme, entre elas.

E puseram um bibelô na mesa de horrores – trocaram o nome da ponte.

Blog da Conceição
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