domingo, 5 de julho de 2015

Emilly Cristiny, Jovem violentada e morta cultivava o sonho de se tornar policial



Antes de saltar para o terrível desconhecido, Emilly Cristiny Almeida da Silva, 14 anos, provou com avidez o gosto de viver. Sorvia a vida como se estivesse sempre provando o primeiro picolé. Como naquele dia em que foi à Água Mineral com um grupo de adolescentes evangélicos de Ceilândia e Taguatinga. Nem bem chegaram, ela se aproximou do pastor Carlos Alberto Lindolfo, da Igreja Batista 1º de Julho.

– Pastor, pastor. Olhe ali, aqueles caras são americanos. Vou lá falar inglês com eles.

– O que você vai dizer pra eles, Emilly? Fica quieta.

– Vou lá, pastor, vou lá. De boa.

E foi. De longe, Carlos Alberto ficou observando a menina atirada. Ela atraía olhares por onde passava. Não foi indiferente aos americanos.

Voltou mais excitada ainda e contou ao pastor que havia conseguido falar, ser entendida e entender o que os gringos disseram. O pastor sorriu com uma ponta de inveja. “Eu ficava impressionado. Na idade dela, eu era tímido, e ela era muito corajosa.”

Foram necessários apenas alguns meses, quatro talvez, para Emilly se lançar ao perigo que a levou à morte violenta. Antes, a garota de pele alva, cabelos naturalmente louros, olhos graúdos e lampejantes se atirava às descobertas próprias da idade e de alguém ainda não maculado pelas maldades do mundo.

A brasiliense nascida no Hospital Regional de Ceillândia cresceu acostumada a ser admirada — não apenas pela cor dos cabelos e da pele, num país onde os mais pobres são majoritariamente mestiços, mas também pelo jeito como chegava à vida, com alegria e curiosidade, com afeto e ingenuidade.

“Emilly tinha uma personalidade carismática”, diz Rafael Rangel Goulart, professor de história e geografia do CEF 4, de Ceilândia. “Ela era muito extrovertida”, comenta Ludimila, amiga, filha do pastor. “Ficava muito alegre quando ganhava as coisas”, diz a mãe, Ana Paula de Almeida. “Era muito ingênua, não tinha noção do perigo”, observa Alynne Mel, prima, amiga e parceira musical. “Ela era desprovida de qualquer tipo de preconceito”, conta Rosana Gonçalves, professora de português e inglês.

Queria muito
Tocava violão, compunha música e melodia, era skatista, jogava futebol, frequentava igreja evangélica e queria ser policial, ser fazendeira, mudar-se para Minas Gerais, para o Rio de Janeiro e para Guarapari (ES) e ajudar a prima, a cantora Alynne Mel, a estourar nas redes sociais. Emilly queria muito e não apenas para ela mesma.

Depois da tragédia, a página pública que a prima criou Emilly teve, até a tarde de sexta-feira passada, mais de 5 mil curtidas. A garota destemida foi violentada, estrangulada e morta, possivelmente no domingo 14 de junho. Seu corpo foi encontrado à beira de um bambuzal, às margens do córrego que dá nome ao Parque Lago do Cortado, em Taguatinga Norte. 

Preso 17 dias depois, Robson Gonçalves de Souza Silva, 24 anos, o Rasta, confessou o crime. A polícia diz que o acusado tinha “obsessão” pela menina que conheceu, mais ou menos, um ano atrás. Morador de rua, artesão ao estilo hippie,  rondava com frequência a casa da menina.       

Emilly foi morta num lugar paradisíaco, um parque que preserva um cerrado de árvores graúdas e muito antigas, com um córrego de águas límpidas que serpenteia a mata fechada e perfura o solo deixando cachoeiras, poços e lagos pelo caminho. Quarenta e cinco hectares de pleno domínio da natureza enquistados na selva urbana de Taguatinga.A mãe, Ana Paula, começou uma campanha para levar segurança aos frequentadores do parque.

O que levou Emilly até o bambuzal idílico? Só ela poderia responder, mas é possível fazer um esforço para tentar ouvi-la a partir do que contam as testemunhas de seu curto viver.

Embora fosse muitas e tivesse muitos afetos, era uma menina sozinha. Muita vida querendo viver em um chão incerto, desde sempre. Filha de um encontro passageiro, foi criada pela avó, a passadeira aposentada Almira Francisca dos Santos, 61 anos, com duas tias, um tio, uma prima e uma sobrinha. A mãe mora com um parceiro, com o qual tem um filho de dez anos. O pai, o publicitário Yuri Assis, 47, conviveu pouco com a filha. É casado, tem quatro filhos e mora em Goiânia.

A avó tinha, e ainda tem, muitas responsabilidades. Uma das filhas nasceu com distúrbios mentais. O marido de dona Almira já morreu, e nunca conviveu com a família. Em um ambiente em que todos estavam concentrados em dar conta de si mesmos, as duas primas, Alynne e Emilly, se apoiavam uma na outra, embora a diferença de idade fosse de dez anos. Alynne tem uma filha um ano mais nova que Emilly.

“Havia muito sentimento entre nós duas. Era tudo misturado, mãe, irmã, prima, sobrinha, tudo. Vivíamos em um ambiente desunido. Então, a gente se apegou muito uma à outra. Era a forma que a gente tinha de mascarar aquilo tudo. Crescemos assim”, conta Alynne, com olhos de lágrima. (Ela havia acabado de saber que o suspeito fora preso).

Menina, Emilly se encantou com o violão da prima Gabriela. O pai, Yuri, toca, canta e compõe desde que era jovem. Uma ponte para o mundo do enlevo, dos sonhos, da música e da religião. “Eu fazia a letra e ela, a música. Às vezes, eu dizia: ‘Emilly, tenho uma letra. Coloca música pra mim. Ela já vinha com a música pronta”, conta Alynne. Violão era o assunto preponderante nas conversas de pai e filha via WhatsApp.

Aos 11 anos, Emilly conheceu o mar. Viajou de férias para Guarapari (ES) com a tia, Lucineide Leal; o tio, Paulo Sérgio Leal; a prima, Gabriela, e a família do pastor. “Foi quando ela se apaixonou pelo futebol. Ganhou uma bola e não parou mais”, conta Paulo Sérgio, irmão do pastor. “Um dia, a gente procurou a Emilly e lá estava ela jogando futebol na praia num time de adultos”. Noutro dia, apareceu com um peixe enorme. Presente de um pescador. Em outro, foi a uma festa de um amiguinho mais jovem que havia acabado de conhecer. Era assim, Emilly.  Não tinha medo de gente.

Mascote
Na volta para casa, no carro, ela disparou: “O tio Paulo vai ser meu pai e a tia Lucineide vai ser minha mãe”. Morou quatro meses na casa dos tios, mas, devido a dificuldades de levá-la e buscá-la na escola, voltou a morar com a avó e com a mãe. Mais ou menos nessa época, grudou na família do pastor: “Ela vinha na sexta à tarde e ficava com a gente até domingo à noite”, conta Carlos Lindolfo. Ia para os cultos, se oferecia para tocar e cantar. Logo, estava tocando guitarra, e virou mascote da equipe de louvor. “Não vem, não?”, ela telefonava, quando o pastor se atrasava para buscá-la em casa.

Num dos aniversários do protetor, deu-lhe de presente um pente de plástico (daqueles redondos, que os homens usavam no bolso da calça). Envolveu o mimo numa embalagem florida e a fechou com um lacinho. Na última Semana Santa, ao saber que Lucineide não havia ganhado ovo de Páscoa, tirou de seus guardados ovinhos do tamanho de uma balinha e presenteou a tia, o tio e a prima.

Na escola, “não era uma aluna nota dez”, diz o professor Rafael Goulart. Mas era carinhosa e carente. “Emilly, fica quieta e me deixar dar aula”, pedia Rosana Gonçalves nas aulas de português e inglês. No começo deste ano letivo, saiu do período da tarde e foi para o matutino, para uma turma de aceleração, na qual os alunos cumprem dois anos em um. No caso dela, o 7º e o 8º.

A vida lá fora a esperava, e Emilly se deixava levar pelos encantos que ia descobrindo no esporte, na música, nos afetos. “Ela já estava grande e ainda brincava de biloca com as crianças”,  lembra Alynne. Descobriu o skate e o transformou em um meio de transporte. “Como você veio, Emilly?”, peguntava o pastor. “Vim de skate”. Cruzava Taguatinga, Samambaia e Ceilândia impulsionada pela prancha de madeira sobre quatro rodas.

Num instante em que ninguém conseguiu identificar quando, onde e como aconteceu, Emilly começou a querer mais, muito mais do que a idade, a inexperiência e a intrepidez juvenil eram capazes de sustentar. Um dos primeiros adultos a observar que algo havia mudado foi a esposa do pastor, Sheila Lindolfo. Ela tinha a senha da conta de Emilly no Facebook e viu, assustada, uma foto da menina com outras amigas fumando narguilê. Sheila interditou o acesso da menina à rede. O pai conta que também tomou a mesma providência.

“Conversamos com ela, explicamos, e ela dizia: ‘Tá certo, pastor’, ‘tá certo...’, vou parar com isso’, e depois sumia”, conta o pastor Carlos. “Ela começou a se vestir como hippie”, diz a mãe. Colocou alargador nos dois lóbulos da orelha, um piercing no nariz, um entre os dois dentes da frente e fez uma tatuagem de nota musical no pulso direito, de henna.

“Aí, tudo desandou”
Um pouco antes dessas intervenções no corpo, Emilly perdeu a companhia constante da prima, Alynne. Com uma gravidez de risco, a cantora saiu da casa da avó para morar com o companheiro. “Aí tudo desandou. Fiquei internada quase um mês. Fiquei muito debilitada, quase entrei em depressão. Eu me isolei do mundo. Não saía de casa, não queria comer. Perdi doze quilos. Eu me afastei de todo mundo, inclusive da Emilly. Mesmo assim, ela ficava no meu pé pra gente gravar um vídeo. Pedia pra voltar a movimentar meu Facebook, pra eu não desistir do meu sonho.”

Alynne se afastou de Emilly no começo do ano. Quase simultaneamente, a menina foi-se desligando da casa do pastor e das atividades pastorais. Trocou de igreja, foi para a Sara Nossa Terra de Ceilândia, porém sem o mesmo entusiasmo. “A mãe dela ficava muito preocupada, me pedia para conversar com ela. Eu conversei várias vezes, mas ela já estava distante”, recorda-se Carlos Lindolfo.

Continuava a morar no meio do caminho, na casa da avó e na casa da mãe, em Taguatinga Norte e Ceilândia Norte. Dormia alguns dias no sofá da casa de um quarto e depois voltava para a casa da avó. Esse dormir aqui e acolá deu a ela mais liberdade para enganar os adultos, e a passar a noite fora de casa. “Ela não teve ninguém que ficasse ligando para ela o dia inteiro para falar: ‘Onde você está? A que horas vai chegar? Vou te buscar”, comenta Alynne, a prima, amiga, parceira. A avó indagava, brigava, clamava, mas a neta escapulia. “Tá bom, vó, tá bom”.  Almira balança o corpo, abre os braços, fala num só fôlego. A avó e a mãe de Emilly têm surdez severa.

Ainda em janeiro, no aniversário da mulher do pastor, Emilly postou uma mensagem de felicitações na qual revelava seu dilema, seu bom-humor juvenil, sua vontade de voltar ao porto seguro, seu coração cheio de afeto e gratidão, seu desejo de se salvar (veja ao lado). A essa altura, Emilly já havia conhecido o suposto assassino (embora confesso, só pode ser considerado culpado após julgamento e sentença transitada em julgado).

Em abril, o pai veio visitá-la. Ele conta que foi um passeio às escondidas, porque a família da mãe o odeia. Yuri e Ana Paula acusam-se mutuamente pelo abandono da filha. Ele conta que interditou o Facebook de Emilly quando viu imagens dela “com umas malocagens”. O pai está atormentado: “Se eu soubesse o que estava acontecendo, teria dado um jeito de trazê-la para morar comigo em Goiânia”, diz. Ele argumenta que a família da menina o impedia de vê-la e que uma demanda judicial seria muito desgastante. Ana Paula e Alynne, mãe e prima, dizem que o pai não se interessava pela filha. Yuri e Emilly trocavam zaps com frequência (veja ao lado).

A morte de Emilly provocou um terremoto emocional no CEF 4 de Ceilândia. Um dos professores mais próximos da loirinha, Rafael Goulart procurou ajuda terapêutica para dar conta da tragédia. Professora há 21 anos, Rosana Gonçalves já viu de tudo — prisões, homicídios, suicídio de alunos — mas o assassinato da aluna inquieta a tirou do prumo. “Foi uma das coisas que mais me chocaram na minha vida profissional. Ficamos todos sem chão.”

Conceição Freitas/ Correio Web
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