domingo, 2 de agosto de 2015

Após prisões, Sol Nascente fica 38 dias sem registrar homicídio


A jornalista Isabella Calzolari relata em matéria no portal G1, que o Setor Habitacional Sol Nascente em Ceilândia, ficou 38 dias sem registrar homicídios. O jejum foi quebrado pelo assassinato do adolescente Gabriel de 17 anos, na noite do dia 30. Confira íntegra da matéria.

Depois de 38 dias de “jejum”, o Setor Habitacional Sol Nascente, em Ceilândia, voltou a registrar um assassinato – um adolescente de 17 anos foi morto a tiros em uma rua da região na noite desta quinta-feira (30). O último homícidio havia sido registrado na área em 22 de junho. No ano passado, a média mensal de assassinatos e tentativas de assassinato na região era de quase quatro por mês.


Apontada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como a maior favela do Distrito Federal, o Sol Nascente ficou sem homicídios desde que a polícia prendeu integrantes de duas gangues e outros criminosos que atuavam na região, ainda em maio.
A redução de homicídios vem acontecendo desde o início do ano, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública e Paz Social. No primeiro semestre, a queda foi de 50% em relação ao mesmo período do ano passado – 10 mortes de janeiro a junho, contra 20 no ano anterior.

A reportagem do G1 esteve em março na região e, em várias quadras, encontrou pichações em muros com a sigla CSN (Comando Sol Nascente, uma das gangues que atuava na região). Na época, um morador que não quis se identificar afirmou que a prática de revenda de lotes por grileiros era comum na região. Ele contou que criminosos tentaram invadir a casa dele para tomar posse do lote e vendê-lo para outra pessoa.




O delegado-chefe da 19ª DP, Fernando Fernandes, afirmou que o perfil dos assassinados em Sol Nascente é de pessoas com envolvimento com o crime. “Juntavam essas organizações criminosas envolvidas com grilagem de terra, tráfico de drogas e acerto de contas. Aquela velha história: a turma de um assassinava um da turma do outro que por sua vez vingava e ficava aquela coisa que não acabava”, declarou.
Em 25 de maio, policiais da 19ª DP prenderam seis pessoas no Sol Nascente suspeitas de grilagem de terras com cerca de R$ 2 milhões em cheques sem fundos. A ação foi nomeada de “O Comando é Nosso” em alusão ao nome da organização – “Comando Sol Nascente”.
Em 29 de junho, foi realizada na região a segunda fase da operação, batizada de “Jogo Duro”. Outras seis pessoas foram presas e mais de 20 kg de droga (maconha, crack e cocaína), apreendidos.

“Essas operações visaram, entre outros objetivos, apreender armas de fogo, que acabaram dando certo. Apreendemos submetralhadoras, pistolas, revólveres. Cerca de 20 armas foram apreendidas ao longo do ano.”

No entanto, Fernandes disse que o tráfico de drogas, a grilagem de terras e o envolvimento de adolescentes no crime ainda preocupam os órgãos de segurança. “A gente vai continuar intensificando as operações. A nossa meta, pode ser até sonhadora, é zerar durante um bom tempo esse número de crimes violentos letais”, falou.
“Os criminosos continuam recrutando bastante adolescentes, seduzindo através daquela promessa do ganho do dinheiro fácil, mulheres bonitas, carrões, dinheiro, celular, armas. Então a molecada acaba sendo seduzida, e a cereja do bolo é aquela velha frase que o traficante usa para os adolescentes: 'tu é de menor e não vai dar nada'. O moleque acredita piamente naquela expressão, não sabendo ele que a lei penal alcança qualquer cidadão brasileiro a partir dos 12 anos de idade através das medidas socioeducativas e do ECA.”
Segundo o delegado, os próprios moradores vêm auxiliando com denúncias anônimas. “Quando um cidadão de bem começa a fazer uma denúncia e vê que aquela denúncia que ele fez foi apurada, a polícia foi lá, prendeu, cumpriu mandado de busca e apreensão, tirou um bandido de circulação, aquela propaganda positiva daquela ação gera uma verdadeira onda de credibilidade, de confiança e de coragem da comunidade que acaba ‘enchendo’ nossas caixas de mensagem de denúncias.”
O líder comunitário Edson Batista, de 36 anos, mora há 14 anos em Sol Nascente e elogiou o trabalho das polícias Civil e Militar. “A sensação dos moradores é que a PM está fazendo mais ronda. As viaturas passam, os policiais conversam com o morador. Também o delegado está ‘botando para moer’ lá dentro. Ele incomoda os ‘pebas’ lá. Nós moradores estamos sentindo mais a presença da polícia na nossa comunidade.”
Batista disse ter notado uma tranquilidade na região com as prisões de algumas pessoas de três meses para cá. “A paz acabou vindo para a nossa comunidade. Com a prisão desses traficantes, nossa comunidade acaba ficando mais tranquila. A gente espera que continue melhorando, quanto menos homicídios nas ruas melhor, apesar de a maioria que morria era entre os traficantes”, declarou. “Eu sonho em ter um local melhor para o meu filho. Dá uma tranquilidade saber que está menos perigoso.”
Em toda a capital do país, foram 317 homicídios nos seis primeiros meses deste ano, menor soma dos últimos sete anos, se comparado ao mesmo período de cada ano. As regiões com mais mortes no período foram Ceilândia, Samambaia e Planaltina – com 54, 27 e 26 assassinatos, respectivamente.
O comandante do 10º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Adriano Meirelles, afirmou que a divisão da área de Ceilândia em novembro do ano passado contribuiu para que as regiões de patrulhamento fossem redimensionadas. “Tiramos os policiais dos postos e colocamos na viatura. Aumentou a visibilidade e preveniu o crime. Os índices vêm caindo”, falou.
“Somado a isso recebemos cerca de dez viaturas e cem policiais nesse primeiro semestre, que corroboraram com o planejamento de melhorar a ostensividade. Começamos a estudar melhor as análises criminais e colocamos o nosso efetivo diretamente no problema identificado.”
Meirelles declarou que a corporação vem aumentando as ações ostensivas de combate ao crime com fiscalização em bares, rondas diárias, ações comunitárias e operações pontuais. Para ele, a maior preocupação da Polícia Militar é trabalhar na proteção da vida.
“Nós não queremos que ninguém morra, seja gente de bem ou traficante. Ações como essas diminuem as ações delituosas de crimes violentos. Quando aumentamos o nível de abordagem, o potencial de acontecer um homicídio diminui e aumenta a sensação de segurança na comunidade.”


Sol Nascente
A região tem um projeto urbanístico dividido em três trechos, que juntos somam 940 hectares (cerca de 940 campos de futebol). A área apresenta problemas de saneamento básico, acúmulo de lixo, buracos nas ruas, barracos em condições precárias e altos índices de criminalidade.

Estudo feito por amostragem pelo IBGE aponta que, em 2010, a região tinha 56,5 mil moradores. Na época, o Sol Nascente estava abaixo somente da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, em número de habitantes.
Dados da administração regional baseados em pesquisa realizada pela Codeplan em 2013 apontam que o Sol Nascente e o Pôr do Sol, também em Ceilândia, tinham 78.912 moradores. No entanto, líderes comunitários afirmam que atualmente o setor habitacional é ocupado por mais de 110 mil pessoas.
Em março deste ano, a diretora da Agefis, Bruna Peres, afirmou ao G1 que o principal objetivo do órgão para a região é desobstruir áreas que estão inviabilizando obras de infraestrutura. De acordo com Bruna, as maiores desocupações no Sol Nascente ocorreram no início de fevereiro e de março deste ano, quando 363 ocupações do trecho 1 da região e 357 construções do Residencial Nova Jerusalém foram destruídas, respectivamente.
Informações de Isabella Calzolari do portal G1
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