sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Hospital Regional de Ceilândia completa 34 anos de funcionamento sem ter o que comemorar


O Hospital Regional de Ceilândia (HRC) completou 34 anos de funcionamento nesta quinta-feira (27). Para lembrar a data, foi realizada a I Jornada Acadêmica, envolvendo internos e residentes de medicina, enfermagem e nutrição e o I encontro de Psicologia da Saúde, entre os dias 24 a 28.

Para o coordenador geral de saúde de Ceilândia, Fernando Araújo, o HRC está mudando o seu perfil, agregando o ensino à assistência e, com isso, todos ganham, desde o interno (graduando em medicina), os residentes (que fazem uma especialização na área da saúde) e, principalmente, a população porque o empenho é na busca de um atendimento de qualidade aliando conhecimento e novas tecnologias.

Atualmente o HRC é campo de estágio para várias categorias e tem na parceria com as universidades Católica e de Brasília apoio técnico e financeiro para desenvolver atividades científicas e até obras nas instalações físicas, a exemplo do espaço recém-criado para abrigar um centro de estudos para os residentes de nutrição, enfermagem e medicina. Também está em andamento a reforma e ampliação da farmácia hospitalar.

O HRC presta assistência à saúde para a maior região administrativa do Distrito Federal. Com seus 33 leitos para internação é pequeno, mas realizou quase 200 mil atendimentos ambulatoriais e de emergência, 1.934 cirurgias e 3.939 partos no primeiro semestre de 2015.
Na emergência do hospital são realizados atendimentos de clínica médica, cirurgia geral, ortopedia, odontologia, ginecologia e obstetrícia e pediatria. No ambulatório são oferecidas 15 especialidades, além de fisioterapia e outros serviços como centro de referência para DST/Aids e acolhimento a vítimas de violência.

Sem comemoração

Não há o que comemorar no aniversário de 34 anos do HRC, os problemas são inúmeros, e parecem não haver solução. No último dia 17 de agosto, o Sindicato dos Médicos do DF (SindMédico-DF) fez uma blitz na unidade, e o resultado da visita não foi animador, o presidente do SindMédico-DF, Gutemberg Fialho, foi abordado por um casal que lhe perguntou se era ortopedista. Depois de explicar sua presença ali, disseram que informaram na recepção da emergência que não havia especialistas no plantão. Lá dentro, todos os médicos escalados trabalhavam, a fila ficou mais lenta porque dois realizavam cirurgias. Apesar de um dos nomes de especialistas apontados no Siga Brasília não constar da escala de plantão da chefia, a unidade não ficou sem ortopedista.

De acordo com Gutemberg, o problema nessa especialidade não chega a ser falta de profissionais, é o fluxo. Pacientes aguardam de 15 a 20 dias para conseguirem uma cirurgia. A fila de macas serpenteia pelos corredores, com pacientes que, sem privacidade ou o mínimo de conforto. As cirurgias eletivas praticamente acabaram e falta material como fixadores externos. Os médicos improvisam estruturas com peças avulsas. Antibióticos de última geração são mais facilmente encontrados do que os simples – eleva-se custos e queimam-se etapas nos tratamentos.

Sala vermelha em vias de ser inviabilizada
No banheiro de uso comum na emergência da clínica geral, uma mancha vermelha. Amparada pela equipe, a mulher continua sangrando pelo corredor, até chegar à sala vermelha. Nesse meio tempo, uma operação de guerra foi realizada pela diminuta equipe para abrir espaço para receber a paciente. Lá fora, a equipe de limpeza fazia malabarismos para limpar o corredor cheio e movimentado antes que o sangue se espalhasse. A pouca quantidade de banheiros dificulta a interdição para desinfecção. Alguns são de uso comum a homens e mulheres.
Uma médica, uma enfermeira e duas auxiliares compunham a equipe para todos os casos de extrema gravidade que entravam naquela tarde. A equipe deveria ter, no mínimo o dobro do tamanho para o serviço funcionar bem. Em outras salas vermelhas das unidades de saúde, costuma-se contar com pessoal do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), em Ceilândia não. Foi colocado lá um dos cinco aparelhos de Telemedicina por Solução Robótica pelos quais o governo pagou R$ 2 milhões no ano passado. Nunca funcionou pela simples falta de acesso à internet. Telemedicina no HRC só existe por relação de amizade e confiança entre colegas, via Whatsapp.
Além desse equipamento, está parado um respirador e um aparelho de eletrocardiograma. Também faltam enzimas cardíacas para o exame. Até a remoção de pacientes é difícil ali: existe apenas uma na Regional de Saúde, para atender o HRC e 12 centros de saúde.
Falta de meios impede assistência
No ambulatório de dermatologia o atendimento é limitado pela falta de equipamento, desde a coleta de material para biópsia até o tratamento preventivo de câncer de pele, que poderia ser feito por meio de crioterapia, com cauterização preventiva de pequenas lesões. Com essa impossibilidade, a unidade de referência (que é o Hospital Regional da Asa Norte), que já não comporta a demanda, é ainda mais sufocado e as cirurgias de câncer de pele demoram ainda mais.
O Centro Obstétrico tem uma equipe multidisciplinar coesa e colaborativa – até manutenção dos computadores a equipe se vira para fazer, diante da falta de suporte de manutenção. O déficit de 5.990 horas na enfermagem demonstra que a falta de profissionais não se restringe aos médicos. Sem neonatologistas, a equipe de enfermagem acaba assume funções e riscos indevidos. Os recursos repassados ao hospital pelo Programa de Descentralização Progressiva das Ações de Saúde (PDPAS) não é suficiente para atender todas as carências do HRC e a limitação de R$ 8 mil para aquisições com dispensa de licitação contribui para a impossibilidade de reposição de itens diversos.
A instalação da nova versão do sistema TrackCare, de prontuários eletrônicos e outras ferramentas de gestão hospitalar trouxe um problema novo. O programa de navegação na internet (browser) necessário para rodar adequadamente o sistema não foi instalado em todos os computadores (já insuficientes) e não há técnicos com senha de administração para fazer isso. O resultado é que consultórios ficam sem uso e outros têm que ser compartilhados para acesso aos prontuários eletrônicos.  As quedas de sistema são frequentes e, não raro, perdem-se os dados da consulta e tudo tem que ser refeito, o que faz o atendimento ficar mais lento.
O HRC recebeu oito novos pediatras. Mesmo com o reforço, o atendimento nessa especialidade enfrente a dificuldades. Os estoques de medicamentos não foram regularizados, hora tem soro oral, hora venoso, antiméticos e antitérmicos nem sempre estão disponíveis. Antibiótico continua sendo o de plantão, ou seja, prescreve-se o que há disponível, uma condição inadequada de tratamento especialmente grave quando se fala na assistência a crianças e idosos.
“Expusemos à imprensa as situações com as quais deparamos na expectativa de que as autoridades se mobilizem com maior rapidez para resolver esses problemas. Não é um caso isolado que se divulga para causar comoção, é uma situação comum na assistência”, destaca o presidente do SindMédico-DF, Gutemberg Fialho.

Da redação com informações da Agência Brasília e do SindMédico-DF
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