sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Sede do "Partido Nacional Corinthiano" fica na casa de vascaíno em Ceilândia



Na casa serena, de portão branco, no Setor P Sul de Ceilândia, não há qualquer indício de que ali definam-se estratégias para a política nacional. Menos ainda se as decisões forem também de cunho esportivo. No local, vive um jovem vascaíno, com a mulher e a avó, pouco apegado ao futebol. É nesse endereço, porém, que o Partido Nacional Corinthiano (PNC) — que protocolou nesta semana pedido de criação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — diz funcionar a sede do grupo. É o que revela uma reportagem do Correio Braziliense.

Correio foi até o local. Os vizinhos se surpreendem com a informação de que um partido político — ainda por cima ligado ao Corinthians —, em tese, está instalado na rua. Um vizinho arrisca: pouco provável, acho que o morador é vascaíno. Ele se refere a William Arantes Filho, motorista de transporte escolar, que vive no endereço do PNC. Por telefone, a mãe de William, Luzia Arantes, esclarece: “Você está falando do William pai ou do filho? Porque o pai é flamenguista, mas o meu filho é vascaíno”, contou. “Ele nem põe muita fé em time, muito menos no Corinthians”, admirou-se.

Mais tarde, William Filho admitiu: “Eu sei o que é esse partido, meu tio avisou”. O endereço registrado no processo de criação do PNC pertence ao tio do motorista. Dono do imóvel, Wiris Arantes cedeu a casa como “sede”, já que o grupo precisava de um endereço em Brasília, ainda que Ceilândia fique a cerca de 30km do Congresso Nacional.

William realmente torce para o Vasco. Ficou encarregado, pelo tio, de recolher eventuais correspondências que cheguem ao Partido Nacional Corinthiano. Divertindo-se com a situação, o vascaíno driblou, por necessidade, a incompatibilidade de times. “Graças a Deus o meu tio me ajuda, então tenho de tolerar”, brincou.

Em Ubatuba

Questionado pelo Correio sobre a sede que está registrada na documentação entregue ao TSE, o presidente provisório do grupo — que não pode ser considerado partido até o aval do Tribunal —, Juan Antonio Moreno Grangeiro primeiro respondeu que o local fica em Ubatuba, São Paulo, onde reside. Novamente indagado sobre a obrigatoriedade de partidos terem sede em Brasília, ele lembrou o endereço que consta do papel. “Também temos sede em Ceilândia, DF, mas nossa sede administrativa fica aqui em Ubatuba.”



Quanto ao espaço ser residencial, Grangeiro desconversou. “É de um conhecido nosso. Mas eu prefiro não te falar o nome por uma gentileza com ele.” O presidente do grupo diz que já recolheu 200 mil assinaturas em 12 estados — um dos requisitos para criação de partidos é apresentar o apoio de cerca de 500 mil eleitores.

Dentista e empresário, Grangeiro diz que nenhum integrante do possível partido é político ou de torcidas organizadas. “Nós juntamos os amigos e conversamos para fazer um partido diferente. Começamos devagar, pedindo para os amigos recolherem assinaturas.” A inspiração, ele jura, foi — além da democracia corintiana — a participação das radicais torcidas do Egito, as Ultras, na Primavera Árabe, movimento revolucionário contra a ditadura no país africano, que conseguiu depôr o ex-presidente Mubarak.

Ao afirmar que o futuro partido, se aprovado, não será de direita, nem de esquerda ou centro, o presidente do PNC afirma que “as divisões são ultrapassadas”. “Esse será um movimento independente. É complicado falar se vai dar certo, mas tenho certeza de que vai ser um partido muito diferente”, tenta explicar.

Em 2011, Grangeiro foi processado pelo Ministério Público de São José dos Campos por três crimes: ameaça, desacato e lesão corporal. Condenado pela 5ª vara criminal da cidade paulista a oito meses de detenção, revertidos em prestação de serviços à comunidade, o presidente do PNC contesta. “Não (traz problemas para o partido), porque eu fui absolvido em segunda instância.” Dos autos dos processos a que a reportagem teve acesso consta que a pena foi extinta porque houve prescrição da intenção de punir após a sentença condenatória, ou seja, o estado não aplicou a punição dentro do tempo estabelecido pelo Código Penal.


Palhaçada


O grupo que pretende criar o Partido Nacional Corinthiano ainda não decidiu se vai aceitar ex-jogadores e personalidades do clube alvinegro como candidatos, caso consigam aprovação do Tribunal Superior Eleitoral. Uma coisa, porém, é certa: o principal nome político do time paulista, o deputado Andrés Sanchez (PT-SP), não tem nenhum interesse em se filiar à legenda. “Impossível, eu sou totalmente contra. Já tem partido demais nesse país”, opinou. 

Sanchez contou que não conhece nenhum dos membros que protocolaram o pedido para criação do partido com nome que faz referência ao Corinthians. “Isso não existe, deve ser brincadeira de mau gosto.”

No que depender do parlamentar e ex-presidente do Corinthians, o grupo ainda pode ter problemas jurídicos pelo nome que escolheu para o partido. “A parte jurídica do Corinthians vai pensar se entra ou não com uma ação. O Corinthians é uma marca patenteada. Não pode isso”, afirmou Sanchez.

Com o lema “Unidade no Esporte, na Saúde e na Educação”, o Partido Nacional Corinthiano pretende regularizar a situação eleitoral com o TSE até 2017, para poder concorrer já nas eleições de 2018. Por regra, um partido precisa ser criado ao menos um ano antes do pleito. O Tribunal recebeu a documentação na última
quarta-feira.

Informações do Correio Braziliense
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...