sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Brasiliense que procurou unidades de saúde foi a maior vítima da paralisação de servidores


O brasiliense pode esperar mais um dia caótico em 7 de outubro, data marcada para a próxima manifestação dos servidores públicos, como o que ocorreu ontem. Desde o início da manhã, a população sentiu os reflexos do protesto no trânsito. Ao longo do dia, os problemas se espalharam pelas escolas públicas que não tiveram aulas e nos atendimentos do Na Hora (Leia mais na página 23). Contudo, o problema maior se instalou nos hospitais e unidades de pronto de atendimento (UPAs). Pacientes tiveram que voltar para casa sem atendimento e as consultas agendadas acabaram desmarcadas. Nem os casos extremos receberam prioridade.

As seis UPAs do DF recusaram pacientes. Nesses locais, a maioria dos profissionais são de contratos temporários e o baixo número de médicos ficou ainda mais acentuado com a paralisação. No Recanto das Emas, as recepcionistas avisavam que não havia médicos. “Não tem como atender. Volta amanhã ou procure os hospitais”, disse uma delas, que recusou atendimento a uma mulher após queda.

Nos hospitais, porém, a situação não era tão diferente. No Gama, a movimentação de pacientes se manteve intensa durante todo o dia. A maioria das pessoas da unidade permaneceu na sala de espera por mais de 7 horas. Nem os tratamentos agendados tiveram continuidade. O auxiliar de pedreiro José Vale Cassiano de Sousa, 39 anos, caiu de uma altura de 3m há um mês e teve que colocar parafusos na perna. Desde de o início dos cuidados médicos, ele é assistido pelo Hospital Regional do Gama (HRG), mas ontem, mesmo com o agendamento, não pôde ser atendido. “Estou com muita dor. Hoje (ontem), cheguei aqui às 6h com a expectativa de ser atendido às 7h, como estava marcado há duas semanas, mas acabei sem ser recebido”, queixou-se o morador de Santo Antônio do Descoberto (GO).

Na emergência, no ambulatório e no pronto-socorro infantil, os atendimentos estavam suspensos. No caso da pediatria, havia dezenas de crianças aguardando a consulta. Apesar de na escala de plantão aparecerem três nomes, segundo pacientes, apenas um atendia por volta do meio-dia. “Não tenho previsão para sair daqui”, pontuou a estudante Karine Santos Muniz, 22, que acompanhava o sobrinho Júlio Victor, 5, que estava febril.

Em Ceilândia, região administrativa mais populosa do DF, 3 mil servidores cruzaram os braços. A UPA e vários centros de saúde fecharam as portas. A adesão à paralisação na cidade atingiu metade dos funcionários, segundo estimativas do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde (SindSaúde-DF). Sem opções, a população recorreu ao Hospital Regional de Ceilândia (HRC). “O governo só sabe agir na hora de aumentar impostos e cortar direitos dos servidores públicos” gritou uma mulher revoltada, ao deixar a emergência do HRC.

Angústia
O Hospital Regional de Santa Maria (HRSM) fechou as portas. A cuidadora de idosos Maristela da Silva Moreira, 65, precisou de quatro conduções para chegar à unidade de saúde. Ela gasta 1 hora e 40 minutos do Novo Gama (GO) à cidade. Ontem, Maristela ficou angustiada com os avisos sobre a suspensão de serviços e marcação de consultas — algumas disponíveis apenas em novembro. “Como faz numa situação dessas? E se chegarem pessoas morrendo? Este é o momento de o governo repensar as políticas e perceber que o cidadão está sendo penalizado demais”, questionou. Os poucos servidores que não aderiram ao movimento se encontravam nitidamente incomodados com a situação. No Hospital Regional de Samambaia (HRSAM), vigilantes, enfermeiros e médicos não recebiam mais pacientes às 11h. “Não tem como trabalhar desse jeito”, argumentou um recepcionista.


Por Otávio Augusto / Correio Braziliense
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