quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Servidores mantêm paralisação e desafiam o governo, Justiça e a população


Jornal de Brasília - Apesar de a Justiça considerar ilegal e abusiva a greve dos servidores da Saúde e dos agentes penitenciários e   socioeducativos,  as   categorias permanecem sem prestar atendimento à população. Os trabalhadores estão de braços cruzados desde a última quinta-feira para reivindicar o reajuste salarial acertado ainda em 2013.  Tão logo o governador Rodrigo Rollemberg anunciou que cortaria o ponto dos grevistas, recuou da decisão. 

Com a greve, a população é a principal prejudicada. Nos hospitais, apenas as emergências estão funcionando, e com escalas de plantão. Em algumas unidades, apenas casos gravíssimos são atendidos. Ontem, no Hospital Regional de Ceilândia (HRC),   pacientes foram orientados a voltar para casa, pois não há médicos. A situação tem causado desespero e revolta a quem vai ao local.

“Minha esposa está com sintomas de taquicardia, passando muito mal, e eles já disseram que não tem médico para atender. É um absurdo o que está acontecendo no DF. Estou indignado, porque o governo aumenta impostos, não paga o reajuste dos servidores, e nós é que sofremos as consequências. Chega a ser vergonhoso”, afirmou, indignado, o vigilante Francisco de Paula, 39 anos.

“Um absurdo”
Iris José da Silva,  54 anos, também vigilante, é hipertenso e foi ao HRC em busca de   atendimento, pois, mesmo tomando a medicação indicada, não se sentia bem. “Minha pressão está 17 por 11 e já me disseram que não tem ninguém que possa me atender. Estou até com medo de voltar para casa, porque posso passar mal no carro e sofrer um acidente. É um absurdo não ter um médico na emergência de um hospital tão grande como o de Ceilândia”, lamentou.

Demora
No Hospital Regional de Taguatinga (HRT), apesar da demora, havia atendimento em algumas especialidades. A salgadeira Rosana Nunes,   29 anos, está grávida de nove meses e contou que esperou cerca de cinco horas para ser atendida. 

“Estão demorando muito para atender na sala de medicação. São pouquíssimos enfermeiros para a quantidade de pacientes. Essa greve está me preocupando, pois estou perto de ganhar neném”, afirmou. 

Quem buscava por atendimento na ortopedia sentia ainda mais as consequências da greve dos servidores. Rafael Rodrigues, 27 anos, jauzeiro, sofreu um acidente no último sábado, fraturou a clavícula e, naquele dia, foi dispensado pelo médico que o atendeu.

“Ele me mandou   voltar   depois do feriado, mesmo eu estando com a clavícula quebrada e com  a possível necessidade de fazer uma cirurgia. Hoje (ontem), cheguei com o exame de raio-X e o ortopedista nem olhou. Disse que só atenderá casos de fraturas expostas. Vou ter que ficar sentindo dor até o atendimento ser normalizado”, relatou. O rapaz considera a situação absurda, tendo em vista a quantidade de impostos paga pela população.

Agentes penitenciários e socioeducativos
Os agentes de atividades penitenciárias  fizeram assembleia na manhã de ontem e decidiram começar uma nova greve. 

Na última sexta-feira, a Justiça considerou a paralisação desses servidores   ilegal, e, em seguida,  o Sindicato dos Agentes de Atividades Penitenciárias do Distrito Federal (Sindpen-DF) solicitou que a categoria retornasse aos postos. Mas, agora, eles voltam a deixar de trabalhar. 

om a decisão, ficam suspensos visitas a presos e o acesso de advogados, oficiais de Justiça e escoltas judiciais nos presídios. Por conta disso, ontem, cerca de 50 mulheres de detentos fizeram um protesto em frente ao Palácio do Buriti. 

Durante o movimento, os servidores mantêm a segurança das unidades, a distribuição de alimentos e o banho de sol.

Representando outra categoria, o Sindicato dos Servidores da Carreira Socioeducativa   (Sindsse-DF) informou que não foi notificado da ilegalidade da greve e o movimento grevista continua.  Caso haja notificação, será convocada uma assembleia para definir o  rumo   do movimento.

Corte de ponto não intimida
O Sindicato dos Auxiliares e Técnicos em Enfermagem do DF (Sindate-DF) disse que não recebeu notificação sobre ilegalidade da greve e que o movimento vai continuar. “Nossa greve não é ilegal. Ilegal é a posição do governador, que faz ameaça de corte de ponto e judicializações”, afirmou Josy Jacob, diretora do Sindate-DF.

Descaso nos atendimentos
A vendedora Fabiana Silva, 31 anos, estava com o braço imobilizado e aguardava ser atendida pelo ortopedista no Hospital Regional de Taguatinga (HRT). Assim que quebrou o membro, ela ligou para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e foi informada de que não havia viaturas disponíveis. 

“Ainda foram grossos comigo, disseram que eu tinha quebrado o braço e não as pernas, que eu me virasse. Então, como estava doendo muito, fui ao Corpo de Bombeiros e pedi que me ajudassem. Lá, eles colocaram essa tala, mas disseram que era para eu devolver o material assim que saísse do hospital com o gesso”, contou. Em nota, a Secretaria de Saúde informou que a emergência do HRT funcionava normalmente e que, no Hospital Regional de Ceilândia, estavam escalados dois ortopedistas, um clínico e três ginecologistas.

Apesar da judicialização da greve e da ameaça de corte de ponto, os servidores da Saúde se reuniram ontem e decidiram continuar de braços cruzados. Segundo Marli Rodrigues, presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Brasília (Sindsaúde-DF), o sindicato não foi notificado, e a greve continuará por tempo indeterminado.

“Vamos manter a greve. Sabemos que nosso serviço é essencial, mas os salários também são. Queremos o cumprimento da lei, pois o reajuste dos servidores é uma despesa continuada e não nova. Além disso, o governo não pode cortar o ponto como se fosse um ditador”, afirmou. Segundo Marli, quanto mais o governo ameaçar a categoria, mais o movimento será radicalizado. “Não vamos aceitar ameaças, e essa provocação do governo vai ter um resultado negativo”, avisou. Caso seja notificado pela ilegalidade da greve, o Sindisaúde-DF vai recorrer na Justiça.

Na Hora e parques fechados
O Sindicato  dos Servidores Públicos Civis da Administração Direta, Autarquias, Fundações e Tribunal de Contas do DF ( Sindireta-DF) representa os servidores do Na Hora, que, ontem, suspenderam os atendimentos na Rodoviária do Plano Piloto.  “As ameaças do governador em cortar o ponto só aumenta a raiva dos servidores. Caso a Justiça determine a greve ilegal, vamos recorrer”, disse o presidente  da entidade, Ibrahin Yusef.

Os frequentadores dos parques do DF também tiveram uma surpresa desagradável. Todos eles, exceto o Parque de Águas Claras, encontram-se fechados devido à greve dos servidores do Instituto Brasília Ambiental (Ibram). No Parque Olhos D'Água, na Asa Norte, os portões estavam trancados e com cartazes da paralisação.

“É um local público, que deve estar aberto à população. Infelizmente, está fechado desde sexta-feira, e sou obrigado a fazer a minha caminhada na parte de fora. Com essa greve, a população está sendo penalizada”, afirmou o aposentado Ronaldo Maia, 70 anos. O comerciante Márcio Bittar, 52, frequenta o local com a filha e achou um absurdo o local estar fechado.  Para ele, não deveria haver estabilidade no serviço público, pois os servidores param quando querem, e a população é quem sofre as consequências.

Segundo o presidente do Sindireta, Ibrahin Yusef, a greve é por tempo indeterminado. “Queremos que o governo cumpra a lei e pague o nosso reajuste. Se não houver proposta, vamos fechar, na quinta-feira, o Parque de Águas Claras”. 

Saiba mais
Os servidores do Departamento de Estradas de Rodagem do DF (DER-DF) e  da Secretaria de Agricultura também continuam de braços cruzados. 

Segundo André Luiz da Conceição, presidente do Sindicato dos Servidores e Empregados da Administração Direta, Fundacional, das Autarquias, Empresas Públicas e Sociedades de Economia Mista do Distrito Federal (Sindser-DF), a greve vai continuar, e o movimento não foi considerado ilegal pela Justiça, tendo em vista que 30% do efetivo está atuando. 


Segundo Conceição, os servidores não têm medo de corte de ponto e não vão aceitar a perda salarial, com a falta de reajuste.

Jurana Lopes / Jornal de Brasília
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