quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Brasília, capital dos buracos

Jornal de Brasília - Pneus estourados, rodas amassadas, suspensão empenada e carro desalinhado. Essas são algumas das consequências de cair em um dos buracos existentes nas vias do Distrito Federal. Com o período chuvoso, a situação só piora, pois as pequenas rachaduras no asfalto podem se transformar em verdadeiras crateras. Em dias de chuva, o risco de cair em um deles é ainda maior, pois a água os deixam invisíveis para os motoristas no meio do asfalto.

Os condutores reclamam da situação, principalmente, porque algumas faixas da cidade estão tão esburacadas que são comparadas a um queijo suíço. Na QNP 16, no P Sul, a realidade é tão caótica que não há carro que passe sem cair em um dos buracos. Até mesmo os carroceiros enfrentam problemas para atravessar a pista. Muitas vezes, eles são obrigados a empurrar a carroça, pois só o cavalo não consegue puxá-la.

Carroceiros

“Fazem um asfalto mal feito, e somos nós que pagamos por isso. É quase impossível passar por aqui, ainda mais se a carroça estiver cheia. Às vezes, o pessoal vem tapar os buracos, mas não tira nem a água antes de jogar o cascalho. Por isso, depois de uma chuva, as rachaduras abrem novamente. Esses buracos, dependendo da profundidade, quebram a carroça”, afirmou o carroceiro Márcio Lima, de 42 anos.

Quem trabalha fazendo transporte de passageiros e de cargas também sente a influência dos buracos no bolso. Rubens Amaral, de 52 anos, é motorista e atua com fretes. Ele já gastou mais de R$ 700 para consertar a caminhonete, que teve a suspensão danificada, dois pneus estourados e uma roda amassada. 



Prejuízo não compensa

“Com essa quantidade de buracos, não tem carro que fique ileso ou aguente essa realidade. A suspensão da minha caminhonete acabou, e as rodas estão desalinhadas. O dinheiro que recebo com o frete não dá para pagar tantos prejuízos”, reclamou. Na QNG, em Taguatinga, motoristas desviam a todo instante dos diversos buracos. 

Prejudicado pode pedir indenização

A Constituição Federal e o Código Civil preveem que o Estado seja responsabilizado por danos causados aos cidadãos. Nesse ponto, entram as reclamações por acidentes em virtude da má conservação das vias. Nesses casos, a pessoa deve registrar ocorrência na delegacia mais próxima. Depois, é preciso procurar o Juizado Especial de Pequenas Causas.

O motorista deve estar atento para comprovar todo o prejuízo (por exemplo, o conserto do carro) para receber de volta o que foi gasto. É recomendável registrar imagens dos buracos e de como ficou o veículo após a queda em um deles. De acordo com o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Ibedec), o governo teria que, no mínimo, sinalizar o buraco e mostrar que ali há perigo.

Danos até na estrutura de carros

Segundo o mecânico e borracheiro Alexandre Andrade, dependendo do buraco, até a estrutura do veículo fica prejudicada. “A buraqueira está feia e, com a chuva, a situação fica pior. O resultado de cair nessas armadilhas do asfalto são rodas amassadas, desalinhamento, suspensão empenada, pneus estourados e, às vezes, danos até maiores, além da dor de cabeça e do tempo para resolver esses problemas”, afirmou.

Os pneus, geralmente, são os primeiros a serem atingidos. O mecânico afirmou que os custos costumam variar de R$ 150 a R$ 600, dependendo do aro. Alexandre recomenda aos motoristas a passarem extremamente devagar nos locais onde há buracos e ter atenção redobrada quando estiver chovendo. 

“Quando está chovendo, acontece muito de o motorista passar rápido e não ver o buraco porque está cheio de água. Já estourei dois pneus desse jeito. Realmente, é um prejuízo”, relatou o mecânico e borracheiro.




Centro

Se engana quem pensa que os buracos são apenas nas regiões administrativas mais afastadas do centro da capital. No Sudoeste, por exemplo, é possível encontrar   crateras no meio do asfalto. 

O servidor público Helton de Castro, de 47 anos, conta que dirige procurando os buracos para não correr o risco de cair em algum deles. “Já vi colegas que acabaram com a suspensão do carro porque caíram em algum deles. Quando o tempo está seco, é possível encontrar alguns. Com a chuva, eles se multiplicam. Não são nem buracos, são crateras que podem causar sérios acidentes”, avaliou o servidor público.

“Todo ano é a mesma coisa. Os buracos são sempre nos mesmos lugares. O asfalto que eles colocam para tapar é tão ruim que não resolve o problema. Já tive um pneu estourado porque caí em um deles. O problema é que o prejuízo é sempre do cidadão”, reclamou a advogada Elis Regina Prezzoto, de 27 anos. 

O namorado de Elis, o bancário Rafael Braga, 26 anos, também se revolta com a realidade das pistas da capital. “Os buracos se multiplicam assim como o descaso dos políticos”, compara. 

Resolução só após o período chuvoso

Segundo o diretor de Urbanização da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), Antônio Coimbra, a massa asfáltica costuma ser produzida pela empresa e entregue a todas as administrações regionais. Entretanto, acrescenta  que, com a chuva, é impossível tapar os buracos existentes nas vias. 

“Em dias chuvosos como têm sido os últimos, nenhuma usina está produzindo massa asfáltica. Isso porque o material sai da usina com temperatura acima de 60 ºC e, com a chuva, mesmo que essa massa esteja coberta durante o transporte, a temperatura dela cai e, então, ela não se fixa no buraco”, explicou o diretor de Urbanização.

Mesmo material

Coimbra destacou que o asfalto do Distrito Federal é igual ao dos outros estados, mas o material utilizado na produção é derivado de uma rocha que se desgasta mais facilmente. Além disso, as vias da capital estão sofrendo com o aumento das cargas transportadas sobre elas. Segundo Coimbra, o número de veículos subiu bastante nos últimos dez anos, e isso provoca sobrecarga no asfalto, causando maior desgaste.

De acordo com o diretor da Novacap, além de já ter o material, a companhia está com 18 equipes preparadas para as operações, que só devem começar quando a chuva cessar. 

“Não adianta tapar os buracos enquanto estiver chovendo, porque não vai resolver o problema. Temos que esperar a chuva passar, e os buracos ficarem secos”, explicou Antônio Coimbra.

Por Jurana Lopes / Jornal de Brasília ( http://goo.gl/MSeYmP )
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