sábado, 30 de julho de 2016

Após superar quase 30 cirurgias, artista sonha criar centro cultural em Ceilândia

[Jornal de Brasília] Após ter a morte dada como certa por um médico, uma atriz amadora do Distrito Federal tem provado que a projeção estava errada ao continuar firme na luta contra uma doença renal crônica. Aos 36 anos, Célia de Oliveira já fez 29 cirurgias e ficou internada 40 vezes. Contabiliza duas paradas cardiorrespiratórias e sobrevive com apenas um rim. Detalhe: o que restou funciona parcialmente – somente 20%. O desgaste físico e emocional foram incapazes de afastá-la do grande amor da vida dela: o teatro. Foi a paixão pela arte, inclusive, que a motivou a criar junto com amigos o projeto cultural ‘Cia de Teatro Art Vida’, em Ceilândia.

“Sinto dores nas costas e tenho infecções urinárias desde pequena. Fazia exames e nada era detectado. Como era gordinha, achava que a culpa era do peso. Levei uma vida normal até os 24 anos, quando descobri uma pedra de seis centímetros no rim direito e outras menores, no esquerdo. Na época, trabalhava normalmente como professora e tive que fazer a primeira cirurgia”, conta Célia.

Segundo a atriz, que também é formada em pedagogia, o procedimento cirúrgico não surtiu efeito e o problema logo agravou. “Foi só o começo… Vieram depois múltiplos cálculos [renais], repetidas infecções. E como os rins estavam parcialmente tampados, começaram a me operar a cada quatro meses. Eu usava um cateter, entre o rim e a bexiga, para evitar algo pior”.

O tratamento não avançou e Célia, em 2005, foi afastada do trabalho em uma escola para alunos com necessidades especiais na Asa Norte. Seis anos depois, recebeu a notícia de que o rim direito havia atrofiado. Após dez meses, o órgão parou de funcionar. A paciente ficou com o corpo inchado e sem urinar durante cinco dias. Não teve escolha: teve de retirar o rim e uma costela. Ficou entre a vida e a morte. Um exame de sangue para medir a função renal chegou a registrar nível 14 vezes acima do recomendado.

“Fiz várias sessões de hemodiálise e por milagre, o nível de creatinina no meu sangue abaixou mais que a metade. Daí, continuei o tratamento em casa. Porém, ao repetir os exames por três meses seguidos, fui diagnosticada com insuficiência renal crônica e alertada a receber um transplante imediatamente”, relata Célia Oliveira.

A brasiliense foi encaminhada ao Setor de Transplantes do Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), onde foi novamente pega de surpresa ao ser informada que não poderia substituir o rim afetado, aquele que mantém 20% de função, pois morreria antes mesmo do término da cirurgia. O 28º procedimento cirúrgico da paciente foi no ano passado. O rim que sobrou foi aberto para corrigir o ureter – tubo que transporta a urina dos rins para a bexiga – que estava colado. Alteraram a anatomia do órgão para tentar mudar também o funcionamento dele. Como resultado, enfrentou complicações pós-operatórias devido a ruptura de vísceras e à inflamação de um apêndice. Para não entrar na sala de cirurgia de novo em tão pouco tempo, pois seria arriscado, ficou cinco noites sem dormir acamada em leito de UTI, queixando-se de dores a todo momento.

“Voltei para casa com a certeza de que voltaria em breve. Não deu outra! Piorei novamente e retornei ao hospital. Foi necessário operar mais uma vez: a 29ª cirurgia no currículo. Ainda ouvi de um médico a seguinte frase: ‘você é o tipo de paciente que profissional nenhum quer levar para a mesa de cirurgia por causa dos riscos’. Felizmente, deu tudo certo”, comenta Célia, aliviada.

Caso “acima da média”

O nefrologista Mario Ernesto acompanha o caso da atriz há mais de 10 anos. Ele diz ter atendido pacientes com quadros similares, mas enfatiza que a situação de Célia é acima da média. “Ela tem um quadro de litíase renal, com formação de vários cálculos que levaram a repetidas infecções urinárias e ainda a perda de um rim. A atividade dela [a frente de um projeto social] é grande. Ela tem muito valor por conseguir realizá-lo com as dores que sente”.

Célia afirma ter ficado com sequelas a ponto de ficar dependente de medicamentos, como morfina, por exemplo, para tentar amenizar as dores no dia a dia. A maior parte do tempo, fica em repouso, deitada em uma cama cheia de travesseiros e com uma bolsa térmica grudada ao corpo. O cômodo ganhou até o apelido de “quarto da guerra”. Para movimentar e relaxar os músculos, Célia procura manter uma leve rotina de exercícios a cada trinta minutos enquanto acordada. Quando as dores dão trégua, dá um jeito de contracenar nem que seja rápido ou trata de colocar a ‘mente para criar’: é autora de 40 roteiros de peças pantomimas – quando a expressão corporal dita a apresentação – e de mais quatro textos voltados ao público infantil. Um dos sonhos da brasiliense é transformar as histórias para crianças em livros.

“Meu corpo hoje é meu maior troféu. Me assustei com as primeiras cicatrizes, chorei, fiquei chocada. Mas nunca tive problemas de autoestima. Levo cada hematoma, cada marca, como uma vitória. Eu tenho orgulho, sabe”!?

Grupo de Teatro

Em meados de 1994, Célia e um grupo de jovens de uma igreja criaram a Cia Art Vida. A sigla vem de amando, resgatando e transformando vidas. A moradora de Ceilândia ainda era adolescente e nem cogitava sofrer de problemas nos rins. Conforme o tempo passava, o projeto ganhava novas dimensões: apresentações com temáticas sobre aborto, bullying, drogas, política e até respeito à diversidade foram expandidas para casas de recuperação, creches, escolas, hospitais e orfanatos. Sempre de forma itinerante. Pelo menos, por enquanto.

O marido da atriz é técnico em Eletrônica e responsável pela sonoplastia das atrações. Ele, ao receber uma indenização em decorrência da morte da mãe em outubro do ano passado, decidiu investir o dinheiro na compra de um terreno na chácara 85 do Sol Nascente, em Ceilândia. No lote, já existia uma casa, que, até hoje, continua alugada. A área dos fundos, então vazia, deu espaço a um salão de 90m², que abriga a sede da companhia, formada oficialmente por 10 integrantes, além de voluntários. Até o momento, o lugar serve de depósito para doações de alimentos, brinquedos, roupas e móveis. O material recolhido é doado a cerca de 50 famílias da região.

“Além de ajudar as pessoas, quero tornar esse lugar num verdadeiro centro cultural. Queremos dar aulas de teatro, de dança, música e de inglês e francês. Mas antes é preciso ajustar alguns pontos. Não temos, por exemplo, cadeiras suficientes para realizar as oficinas. Temos apenas três. Por isso, estamos pedindo doações”.

Sonho compartilhado 

Casado com a atriz há seis anos, Maurício de Oliveira não apenas ‘abraçou’ os sonhos da esposa, como enfrentou quem foi contra ao relacionamento do casal. “No início do namoro, ela tinha crise renal quase todos os dias. Ao menos, três vezes por semana tinha que levá-la para o hospital. Teve uma consulta em que o médico chegou em mim e perguntou se eu pretendia me casar com a Célia. Eu disse ‘sim’ e o doutor na mesma hora me orientou a não fazer isso, pois, segundo ele, a minha mulher morreria em breve. Eu respondi que pediria a mão dela mesmo assim porque acredito em milagres”, relata Maurício, orgulhoso.


O casal e os amigos prometem seguir com a missão de levar alegria e cultura aos mais carentes, por meio, de apresentações, oficinas de teatro e também doações. Quem quiser conhecer de perto o projeto, o espaço fica localizado no conjunto ‘P’ da chácara 85 do Sol Nascente – lote 1, em Ceilândia.

*Informações Andrei Helber do Jornal de Brasília
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