quarta-feira, 6 de julho de 2016

Professores de Ceilândia e bancada evangélica da Câmara Legislativa estão em pé de guerra


(Correio Braziliense) Os professores da rede pública e a bancada evangélica da Câmara Legislativa estão em guerra. Os profissionais do ensino denunciam uma interferência dos parlamentares na educação e reclamam da intromissão de distritais na escolha do conteúdo ministrado em sala de aula. Dois episódios recentes contribuíram para azedar a relação. A deputada Sandra Faraj (SD) enviou ofício a um colégio em Ceilândia para questionar trabalhos escolares com conteúdo LGBT e cobrou “providências legais” contra o professor responsável pela disciplina. Já o distrital Rodrigo Delmasso (PTN) mandou documento a uma outra escola de Ceilândia que organizou uma peça teatral sobre cultura africana, para reclamar de referências ao candomblé.

Esse é mais um episódio de atrito entre deputados evangélicos e os professores. No ano passado, durante um debate do projeto Escola sem partido, de autoria de Faraj, um grupo de docentes entrou em confronto com seguranças da Câmara. Os professores classificam a proposta, que proíbe a “doutrinação ideológica dos estudantes”, como projeto de lei da mordaça. Por conta das críticas, a parlamentar entrou na Justiça com uma ação por danos morais contra o Sindicato dos Professores. O processo tramita na 15ª Vara Cível de Brasília.

O caso mais recente desse conflito teve como alvo o Centro Educacional 6 de Ceilândia. Um professor da unidade passou um trabalho em grupo aos estudantes, em que eles deveriam debater um entre os seguintes temas: homofobia, integração entre gêneros, pansexualidade, relações poliamorosas e transexualidade. Sandra Faraj recebeu reclamações com relação ao assunto e enviou ofício à direção da escola pedindo “esclarecimentos” e “providências legais cabíveis”. Ela embasou seus questionamentos no Plano Distrital de Educação, aprovado pela Câmara Legislativa em 2015. Por pressão da bancada evangélica, o texto excluiu referências a áreas como sexualidade e gênero.

O doutor em educação Carlos Augusto de Medeiros, professor da Universidade de Brasília, critica duramente a postura da parlamentar e garante que, apesar da redação final do Plano Distrital de Educação, isso não significa que temas como homofobia sejam proibidos em sala de aula. “A separação entre Igreja e Estado foi importante para o desenvolvimento humano e para a ciência. Agora, esses segmentos de parlamentares querem colocar em risco garantias constitucionais, como a liberdade de expressão e de ensino. É preciso que haja um grande debate em defesa das prerrogativas dos professores, que têm liberdade para desenvolver seu trabalho”, afirma o especialista.


Outro episódio que gerou a ira dos professores teve como protagonista Rodrigo Delmasso. O Centro Educacional 7, o maior da Ceilândia, teve um projeto aprovado pelo Ministério da Educação para receber recursos reservados a iniciativas sobre a cultura africana. Os alunos da disciplina de educação artística desenvolveram uma peça teatral sobre o assunto. No dia da apresentação, os alunos deveriam ir de branco. Um dos pais procurou o gabinete de Delmasso para denunciar que os estudantes teriam sido coagidos a fazer danças e a usarem roupas em referência ao candomblé. O parlamentar enviou ofício à escola, dando prazo de 24 horas para esclarecimentos.

A situação revoltou a diretora da escola, Simone Rebouças. “A escola é o espaço de debate sobre todos os temas. É aqui que a comunidade se empodera e que os alunos se preparam para a vida. Apesar de todas as dificuldades, como falta de recursos e sala de aulas lotadas, a gente se esforça para fazer um bom trabalho. Aí, alguns deputados aparecem para insinuar que os professores querem doutrinar e causar danos aos alunos”, desabafou Simone. “Falar sobre política, homofobia ou cultura africana, de uma maneira correta e enriquecedora, pode causar algum constrangimento? Não vejo como isso é possível.”A diretora da escola disse que os alunos vestiram branco em defesa da cultura de paz, e não como apologia ao candomblé.


A Secretaria de Educação enviou nota afirmando que “o instrumento administrativo do ofício não é considerada uma via adequada para se questionar” o Plano Distrital de Educação e afirma que a pasta “trabalha por uma educação para a diversidade.”

*Informações Helena Mader do Correio Braziliense
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