quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Criança mantida em cárcere privado em Ceilândia seria sacrificada, afirma jornal


[Portal Metrópoles] Uma reportagem publicada hoje (10) no jornal Metrópoles, afirma que o destino da criança trancada pela própria mãe em um quarto escuro em Ceilândia após uma pastora evangélica induzi-la a acreditar que a filha estava possuída pelo demônio poderia ter um desfecho trágico. De acordo com jornal, denúncias levadas ao Conselho Tutelar da região administrativa por uma testemunha dão conta de que a menina de 8 anos seria sacrificada. O ritual de exorcismo teria a participação da própria mãe e da pastora Jacivã Pereira dos Santos, conhecida como Jaci, 44 anos, que prega na igreja Casa da Oração Pentecostal dos Escolhidos de Deus. 

Ambas foram presas na última sexta-feira (5/8), quando a Polícia Militar resgatou a menina, que vivia trancada em um quarto escuro nos fundos do templo, em Ceilândia Norte. No entanto, a mulher e a suposta religiosa foram libertadas no domingo (7), após audiência de custódia na Justiça do DF.

O episódio provocou uma enxurrada de denúncias recebidas pelo Conselho Tutelar, e o caso pode ser ainda mais assustador. Segundo relatos de testemunhas, pelo menos quatro crianças foram abandonadas pelas mães — todas fiéis da igreja — por suposta influência de Jaci.

Jacivã teria convencido as mulheres de que os filhos delas estavam com o “demônio no corpo”. Por isso, precisavam se afastar das crianças. As fiéis seriam orientadas a se separar dos maridos e a cortar relações com todos os parentes, com a desculpa de que todos estariam “endemoniados”.

Na noite de terça-feira (9/8), o Metrópoles esteve na igreja em Ceilândia Norte e registrou parte do culto. Mesmo depois de passar 48 horas na cadeia, Jaci fez questão de contar aos fiéis que, de fato, a menina vítima de cárcere privado estava com o “demônio no corpo”, e que poderia se tornar uma ameaça a todos. “Qualquer hora ela poderia pegar e matar, né? Manifestar os demônios”, disse a pastora durante o culto. Quando percebeu que estava sendo gravada, ela fechou as portas do local.

A influência de Jaci

Jéssica (nome fictício) é parente de uma mulher que abandonou o filho, de apenas 6 meses, por acreditar que o menino estava possuído. Sob a condição de não ter a identidade revelada, ela conversou com o Metrópoles e contou que a familiar é uma empresária, dona de uma escola de educação infantil em Ceilândia. Ainda assim, foi influenciada por Jaci.

“Ela tem formação superior em pedagogia. Não se trata de uma pessoa humilde e sem instrução, mas teve a personalidade modificada por essa pastora. Ela foi convencida a largar o marido e a abandonar o filho de 11 anos com o pai. Por último, entregou o seu bebê de 6 meses para adoção simplesmente porque a pastora afirmou que todos estavam possuídos”, contou a mulher.

Segundo a denúncia, que foi encaminhada ao Conselho Tutelar, a intenção da pastora teria motivação financeira. O plano seria afastar parentes e garantir o pagamento do dízimo (doações à igreja), sem interferências. “Como essa minha parente é dona de uma escola e fatura um bom dinheiro, a pastora recebe cerca de R$ 2 mil por mês com o dízimo”, contou.

Ainda segundo essa testemunha, a fiel cortou relações com todos os parentes mais próximos e o bebê foi deixado em um abrigo do governo, aos cuidados da Vara da Infância e da Juventude (VIJ). “Tentamos ficar com a criança, todos da família queriam, mas ela disse que o bebê estava com o demônio e que deveria morrer. Estamos tentando reaver a guarda”, desabafou a familiar da frequentadora da igreja.

Mais um caso

Outra apuração conduzida pelo Conselho Tutelar envolve um casal de servidores públicos. A mulher foi convencida que o marido e o filho estariam sendo “comandados pelo demônio”. Ambos também frequentavam a igreja de Jaci. O modus operandi foi o mesmo dos demais casos. A fiel teria sido orientada pela pastora a abandonar todos os parentes, mas sem se esquecer das obrigações com o dízimo. A funcionária teria se separado do marido, e a criança ficou com o pai.

Após o culto da noite de terça (9), o Metrópoles tentou falar com Jacivã, mas ela se recusou a comentar as acusações. A empresária que deu o filho para a adoção e faz parte do grupo de fiéis da igreja também foi procurada na escola que administra, mas não foi localizada.

Pai quer a guarda

O pai da criança que foi mantida em cárcere privado entrou em contato com Conselho Tutelar. O homem não tinha contato com a menina havia cerca de dois anos e, agora, tentará lutar pela guarda da filha.

A menina permanece internada no Hospital Regional de Ceilândia (HRC) se recuperando de um quadro de grave desnutrição. Ainda não há previsão de alta. O pai chegou a visitá-la na unidade hospitalar. Em depoimento, ele disse que não sabia da tortura.

Um vídeo divulgado pela Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) mostrou o momento em que a menina foi encontrada pelos militares. As imagens revelam a negligência com que a criança era tratada. Estava magra, deitada no chão sem qualquer proteção e totalmente abandonada.

Assim que os conselheiros chegaram à residência, a mãe alegou que a filha estava no quarto porque era doente, não andava e tinha dificuldades para falar. “Levei ela no hospital várias vezes, a médica desconfia que ela também tenha gastrite”, disse a mãe. Fraca, a criança não conseguia se levantar do chão. Ela estava trancada em um quarto vazio, sem móveis e no escuro, por ao menos dois meses, suspeita a PM.

*Reportagem de Carlos Carone
*Portal Metrópoles (http://goo.gl/XuKhny)

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