sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Mortes em sequência chocam população de Ceilândia


[Jornal de Brasília] Elâine Sousa Silva, 21 anos, foi a segunda vítima de feminicídio no Distrito Federal em menos de uma semana – a terceira morte por crime passional. Para especialistas, os casos, todos ocorridos em Ceilândia, são exemplos de que muitas relações se tornam abusivas. É importante atentar-se aos sinais cotidianos, que geralmente começam pela violência psicológica, e denunciar o agressor.

Elâine foi morta pelo ex-namorado, um policial militar de 49 anos, na praça ao lado da Administração de Ceilândia, na noite da última quarta-feira. A Polícia Civil informou que a vítima conversava com um amigo na praça da QNM 13, ao lado da administração regional, quando o ex-namorado chegou e ficou observando a dupla. Incomodada, a jovem pediu para ele ir embora, mas o PM ficou nervoso e ficou com a pistola calibre 40 em mãos.

Elâine teria perguntado se ele iria atirar. Como resposta, o suspeito apontou a arma para ela. Segundo testemunhas, a vítima partiu para cima do suposto autor, que, logo depois, atirou no peito da ex- namorada.


Flagrante

No momento em que a polícia chegou ao local, encontrou o suspeito ensanguentado, e a vítima, morta. Ele teria alegado que discutiu com Elâine e a arma havia disparado. Na delegacia, o autuado em flagrante declarou que usaria do seu direito constitucional de permanecer calado e só se manifestaria diante da Justiça. A arma foi apreendida e encaminhada para exame pericial. Ele segue preso.

Doze feminicídios em sete meses

Também em Ceilândia, mas na QNO 2, na madrugada de terça-feira passada, Elaine Vieira de Paula, 42 anos, foi esfaqueada pelo marido, de 57 anos, depois de uma discussão. Um vizinho ouvido pela Polícia Civil informou ter ouvido gritos e batidas nas portas vindos da residência do casal. Cerca de cinco minutos depois, Eliane bateu à sua porta para pedir socorro.

Ele logo deu brigo à mulher, que sangrava bastante e estava em desespero. Em seguida, o suspeito entrou na casa e desferiu golpes de faca no pescoço e no tórax da mulher, que morreu no local.

Os dois casos são investigados pela 24ª DP Ceilândia. De acordo com a Secretaria de Segurança, houve o registro de 12 casos de feminicídio entre janeiro e julho deste ano – levantamento mais recente da pasta. Não é possível comparar os dados com o mesmo período do ano passado, pois a lei que tipifica o crime entrou em vigor em março de 2015.

Pastor evangélico

Na quarta-feira, a comunidade da QNO 18 da Ceilândia também se surpreendeu com o assassinato do pastor Damião Diniz do Nascimento, 46. A suposta autora é a esposa dele, que teria esperado a vítima dormir e golpeado com pauladas e facadas para, por fim, asfixiá-la com um saco. De acordo com a Polícia Civil, a mulher confessou que estaria com ciúmes do marido por acreditar que ele abusava do filho, de 16 ano, e da filha, 20. No entanto, ambos teriam negado a suspeita.

Eva e Damião eram casados há 30 anos e tinham seis filhos. Alguns deles moravam na mesma casa onde o crime ocorreu. Para vizinhos, a relação dos dois era tranquila e não imaginavam que a esposa poderia fazer isso. Ela continua presa.

Ponto de vista

Em um relacionamento, a agressão psicológica sofrida e praticada pelas partes, normalmente, é um dos sinais mais expressivos de que o casal não está em sintonia, alerta a psicóloga e especialista em análise do comportamento Fabiana Cassimiro. “Ela (agressão) é tão violenta quanto a tortura física. A diferença é que se apresenta de outra forma, por meio de xingamentos, chantagens emocionais e manipulações. Passa de amor para algo doentio”, frisa.

De acordo com Fabiana, a pressão para tentar mudar o parceiro pode arruinar um relacionamento. “A pessoa deixa de ter a própria vida para viver do jeito que o outro quer, passa a ter as preferências alheias. Isso é um erro. A preocupação deve existir logo no início da violência psicológica. Não pode deixar o cenário piorar para tomar uma atitude”, acrescenta.

A especialista explica que essa fase é causada por uma série de traumas e inseguranças. “A crise existe porque um dos envolvidos, ou os dois, demonstram possessividade, ciúme ou autoestima baixa. Em qualquer namoro ou casamento, a culpa é compartilhada. Se alguém chega ao ponto de agredir o companheiro é porque não está bem. Isso se reflete. Vale fazer uma reflexão pessoal”, completa.

Para evitar o desgaste, Fabiana aconselha apostar na conversa. No entanto, a diálogo deve ser praticado desde o início e de forma contínua. “Precisa estar tudo combinado entre o casal. As regras e os acordos estabelecidos entre eles devem estar claros”, afirma. Ela garante que atende pacientes nessa situação com frequência. “Tem sido cada vez comum. Por incrível que pareça, percebo que ainda existe muita dependência financeira, o que dificulta um término. O problema é que as denúncias só surgem quando a sociedade, os vizinhos e os mais próximos começam a perceber os primeiros sinais”, conclui.
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