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segunda-feira, 20 de março de 2017

Escola pública de Ceilândia enfrenta crise hídrica com sistema de captação de águas pluviais




Quando a estação de chuvas começa, a água escorre pelos telhados de um colégio, localizado numa Região Administrativa do DF, sendo distribuída em um sistema de calhas que consegue encher tanques de 20 mil litros. Essa situação é vivenciada constantemente no Centro Educacional 7, em Ceilândia (DF), depois da construção de três reservatórios de água, feitos com um método construtivo alternativo e econômico, o ferrocimento, por quatro estudantes do curso de Engenharia Civil da Universidade Católica de Brasília (UCB). Sob a orientação da professora do curso Tatyane Rodrigues e do gestor do Projeto de Educação Ambiental (PEA), Nilo Mendes, a ação integrou ainda toda a comunidade escolar, com a participação de estudantes, professores e a diretora da escola.
Preocupados em desenvolver um sistema ecológico e sustentável, no ano de 2015, quando o estado de São Paulo viveu uma grave crise hídrica, com a diminuição drástica do Sistema Cantareira, os estudantes da UCB, Luís Felippe Santana, Mário Fernando da Silva, Matheus Augusto Oliveira dos Anjos e Jéssica Karoline Nogueira idealizaram um projeto voltado à comunidade local da cidade de Ceilândia, que abordasse a temática da falta de água, num momento em que o assunto nem era cogitado no DF. Luís conta que a ideia surgiu na disciplina de Projeto I a partir de um curso feito pelo PEA para construção de reservatórios de baixo custo.
Mão na massa para uma tecnologia sustentável

Inicialmente, foi realizado um diagnóstico físico da área de implantação do sistema e escolhida a técnica com menor custo quando comparada aos reservatórios convencionais. O método ferrocimento consiste na construção de cisternas, piscinas e tanques de maneira mais econômica e menos impactante ao meio ambiente. “O tanque pode ser construído em qualquer tamanho e utiliza materiais de fácil aquisição, baixo custo, requer mão de obra capacitada e não especializada, pouco tempo de execução. Foram instaladas calhas em três trechos do telhado de um dos blocos da escola”, explica Luís.
A obra foi feita do zero, desde a formação do piso da caixa d’água, passando pelos moldes da armação das barras de vergalhões, com a preparação da parede do reservatório com tela de gaiola para pássaros, depois a execução das paredes finas com argamassa, com média 3 cm de espessura, até a finalização do reboco e do processo de cura. Segundo Luís Felippe, no início, o grupo imaginava que a obra seria complicada pela inexperiência da mão de obra, recursos e materiais utilizados. Apesar de ter um custo muito inferior em relação a caixas convencionais de mesma capacidade, os reservatórios demandaram o esforço conjunto de todos no período de quatro semanas. Entre planejamento e execução, o projeto levou um ano e 10 meses para ser concluído.
Hoje, eles cogitam que, para a fabricação de uma caixa de uso doméstico, seriam gastos cerca de R$ 3.000 reais. “Todo o projeto contou com doações de materiais e tivemos que colocar a mão na massa para construir os tanques. No entanto, estimamos o gasto total de R$ 8.000 para fazer as três caixas, o que corresponde ao preço de apenas uma comprada em uma loja de construção”, destacou Luís.
Matheus dos Anjos, estudante do 10º semestre do curso de Engenharia Civil, explica que a primeira leva de água, com sujeira das telhas, é descartada, e o restante vai para o reservatório, que garante armazenamento suficiente para período de estiagem. Para ele, a ideia pode ser implementada em outras escolas e o importante é levar esse conhecimento para as famílias. “Durante o processo de construção e implantação dos reservatórios, procuramos envolver a comunidade escolar e ministramos palestras. A vantagem é que a água captada é utilizada para a limpeza de pisos e para a irrigação da horta por meio de torneiras instaladas em cada reservatório”.
Por mais água potável

O intuito inicial da proposta foi reduzir o consumo de água potável e conscientizar a comunidade escolar da importância dos recursos hídricos, que são finitos. No entanto, em decorrência do recente racionamento no DF, com os níveis baixos do sistema do Rio Descoberto, o projeto ganhou nova concepção e proporção, com a análise das águas pluviais para torná-la potável, segundo os critérios do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) e do Ministério da Saúde.  Sob a orientação da professora Beatriz Barcelos, os estudantes Matheus e Jéssica Karoline Nogueira estão elaborando uma extensão do projeto, que englobará estudos e técnicas de tratamento da água, com soluções viáveis para torná-la potável.
Segundo a professora Beatriz Barcelos, a avaliação da qualidade de águas, com base nos padrões dos órgãos competentes, englobam parâmetros físico-químicos e bacteriológicos, o que possibilitará a definição do tratamento adequado para tornar a água potável. “Não há indicação para suspender o racionamento, por isso o aproveitamento de água da chuva é uma alternativa excelente. A água tem potencial de usos em diversas atividades, principalmente, em lavagem de áreas, roupas, carros e irrigação”.
Na sua opinião, a gestão das águas deve ser compartilhada, com papéis definidos para a população e pelo governo, de acordo com a legislação ambiental, na Política Nacional de Recursos Hídricos. O uso correto da água é uma questão de educação e solidariedade. “Se todos utilizarem a quantidade essencial para sobreviver, enfrentaremos a crise de forma mais amena. Precisamos economizar e o simples reaproveitamento de águas, como da máquina de lavar, por exemplo, já é um desperdício a menos”, disse a professora Beatriz.


Cenário de crise

Segundo a coordenadora do curso de Engenharia Civil, professora Glauceny Medeiros, o Distrito Federal enfrenta hoje a maior crise hídrica de todos os tempos, devido ao alto índice de crescimento populacional, falta de planejamento da rede de abastecimento, crescimento desordenado das cidades satélites, junto a um forte período de estiagem das chuvas. “Esses fatores combinados colaboraram fortemente para que os dois maiores reservatórios da região, a barragem de Santa Maria e a do Descoberto, atingissem níveis críticos”.
Para ela, os cursos de Engenharia Civil e de Engenharia Ambiental e Sanitária podem viabilizar novas técnicas e tecnologias para a otimização do uso da água, por meio de estudos de previsões hidrológicas, ao promover a revitalização de áreas nascentes e o reaproveitamento de águas pluviais. “São várias soluções que devem ser analisadas sob o ponto de vista econômico, ambiental e social. Nesse sentido, a Universidade Católica de Brasília está sensibilizada com a situação e procura dentro de sua missão contribuir para com a sociedade, compartilhando seus conhecimentos e expertises que possui na instituição sobre o assunto”.