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quarta-feira, 29 de março de 2017

Museu conta história dos fundadores de Ceilândia


[Correio Braziliense] Uma cidade erguida por um povo guerreiro, resume o professor de história Manoel Jevan Gomes, 47 anos, sobre a construção de Ceilândia. Diferentemente do que ficou registrado nos documentos e livros oficiais sobre o surgimento da cidade, criada em 1971 para receber 16 mil famílias de invasores do Plano Piloto, ele reivindica o justo reconhecimento aos verdadeiros candangos do Planalto Central.

Por isso, criou e mantém em sua residência, no P Sul, o Museu da Memória Viva dos Candangos Incansáveis da Ceilândia. O professor reúne objetos dos pioneiros, artefatos, fotos dos primeiros anos da cidade e publicações.

Na defesa pela memória dos candangos, Manoel Jevan diz que a verdadeira Candangolândia é a Ceilândia. Prega que, em lugar do significado real do nome, formado pela sigla Cei, de Campanha de Erradicação de Invasões, a abreviatura deveria significar Candangos Esquecidos Incansáveis. “As famílias não eram invasoras, foram convidadas para construir Brasília e, depois da cidade inaugurada, passaram a representar um estorvo para as autoridades”, reclama.

Na luta incansável por esse reconhecimento, iniciada em 1993, quando decidiu criar o museu, Jevan busca o apoio dos alunos da escola onde leciona à noite. No começo de cada ano letivo, solicita que os estudantes indiquem parentes que chegaram no começo da cidade para registrar sua história no museu. Assim, reuniu mais de 100 biografias de fundadores de Ceilândia.

Guardião da cultura local, o professor teve no pai o seu inspirador. “Um cearense candango que trouxe toda a família para cá e, como todos os outros, foi esquecido”, fala com certa mágoa. Ao pai ele prometeu que iria se formar em história e ser pesquisador “para contar a verdadeira saga daqueles que foram renegados na história de Brasília”.

Hoje, a partir das 20h, cantores da cidade estarão reunidos no espaço cultural Túnel do Tempo, para participar do Festival Canta Ceilândia. 

E assim , Jevan continua, ano após ano, a tarefa que tomou para si, de preservar a memória da cidade. E faz isso movido por motivações pessoais, em memória do pai, e sociais, como reconhecimento aos construtores de Brasília. Quem quiser conhecer o museu, as portas estão sempre abertas, na QNN 40, conjunto J, casa 3.

Mutirão para obter água

Uma foto em preto e branco com uma fila de latas e baldes é o registro das dificuldades enfrentadas pelas milhares de famílias que foram transferidas para Ceilândia em 1971. “Não havia água encanada, energia elétrica nem saneamento”, diz Manoel Jevan. “Os moradores tiveram que fazer tudo em regime de mutirão”, lembra. A imagem é uma das muitas que ele conserva no museu, assim como fotos de antigos moradores.

No acervo, além de bibliografias, há também a bandeira da cidade, que traz a imagem dos dois candangos, “mas esses são os esquecidos”, como tenta denunciar a imagem feita por personagens com roupas em frangalhos. Na parede, um quadro também reforça a mesma cena dos habitantes do Barril, como ficou conhecida a cidade pelo seu formato. Com o passar dos anos e a criação de novas áreas, a figura original se descaracterizou.


A cidade que tem como ícone a Caixa-D’Água, patrimônio de Ceilândia, traz uma grande simbologia especial para a memória da população, “que viveu nos primeiros anos sem água encanada e ao redor de bicas”, lembra o professor. “Tudo aqui é superação”, reforça.