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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A explosão da violência em Ceilândia



[Correio Braziliense] “Não tenho vontade de sair na rua. O medo está me vencendo.” Assim, Teo Carvalho, 26 anos, resume a insegurança na maior região administrativa do Distrito Federal. Esfaqueado, agredido e assaltado, o jovem não suporta mais a violência em Ceilândia. Morador da Quadra 18 da Expansão do Setor O, ele diz que o risco está perto de casa. “Fui assaltado há dois meses, com a minha sobrinha, quando saí no portão. Levaram os celulares, fui arrastado pelo chão e ainda nos ameaçaram”, conta.

Além de roubos como o sofrido por Teo, a cidade acumula histórias de latrocínio, tentativas de homicídio e estupros. Todos esses crimes registraram alta na comparação de dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social de janeiro a julho de 2016 e 2017 (veja quadro). O Correio esteve durante dois dias nas ruas de Ceilândia, nos dois batalhões da Polícia Militar e nas quatro delegacias de polícia responsáveis pela segurança local. A cada abordagem da reportagem, um olhar desconfiado, evidenciando o medo da população.

No último dia 24, Teo e o marido, Ed Carvalho, 30, foram esfaqueados em uma parada de ônibus, após uma tentativa de assalto a uma adolescente. “Fomos defender a menina, mas eles (bandidos) se voltaram contra nós”, revela. Debilitado, ele levou duas facadas no peito, e o companheiro, uma nas costas. Dias antes, no Setor Habitacional Sol Nascente — considerada a maior favela da América Latina, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — o cunhado dele sofreu um espancamento após três criminosos tentarem levar a motocicleta.

A violência também levou o ex-cobrador de ônibus Teo a mudar de emprego. Foi agredido por assaltantes no coletivo que cumpria uma linha circular de Ceilândia, mesmo entregando o dinheiro e o celular. “Em três anos, fui assaltado 17 vezes. Em todas, apontaram uma arma de fogo para a minha cabeça. Não aguentei”, desabafa. Hoje, ele trabalha como caixa em um restaurante do Setor de Indústrias Gráficas (SIG).

Rendido e roubado há menos de um mês, o comerciante Rodrigo Pedrosa, 23, é outra vítima. Sofreu um assalto quando se preparava para fechar a lanchonete, no P Sul. Uma mulher armada o atacou por volta das 19h. “Nós a vimos aqui um pouco antes. No fim do expediente, ela veio e nos assaltou. É uma sensação de revolta”, afirma. Na ação, a criminosa levou celulares e dinheiro.

Em outra loja, a menos de 200m do estabelecimento de Rodrigo, Joana (nome fictício), 55, teve quatro celulares levados por ladrões. O roubo mais recente aconteceu há cerca de um mês. A ação durou 30 minutos. “Além do dinheiro, foram mais de R$ 5 mil em prejuízo só em aparelhos de celular. A polícia sabe quem é, mas não faz nada”, lamenta. Agora, ela anda com um aparelho que nomeou como o “do ladrão”. Quando vou pegar o ônibus, eu escondo um e deixo esse daqui, caso venham me roubar”, explica.

Marcas

No P Norte, a situação é semelhante. Entre uma abordagem e outra do Correio, percebia-se a observação de pequenos grupos que se reuniam nas esquinas do bairro. Para andar pela cidade, é preciso atenção redobrada. Por 20 minutos, Rose (nome fictício), 57, pensou que morreria. Homens armados se fingiram de clientes no estabelecimento dela para roubar a caminhonete do filho, dias atrás. “Até hoje fecho os olhos e me lembro da arma na minha cabeça”, relata. Segundo ela, o trabalho não foi mais o mesmo. “Passei um tempo sem vir. O sentimento é de medo”, enfatiza.

Os criminosos não conseguiram levar o veículo, mas deixaram marcas na vida de Rose. Ela contou à reportagem que, a partir do dia do crime, qualquer pessoa diferente que entra no comércio é motivo de pavor. “Eu fico desconfiada, nervosa. É uma sensação de morte”, descreve.

Rocinha brasiliense

As autoridades responsáveis pela segurança de Ceilândia também cuidam dos setores habitacionais Sol Nascente e Pôr do Sol, área considerada crítica e em espera de regularização. Assaltada três vezes em um mês, Jussara (nome fictício), que mora no primeiro condomínio, enfrenta problemas com a depressão e o medo. “Estou afastada do trabalho há três anos. Fui roubada e fiquei traumatizada”, relata a cobradora de ônibus. Segundo ela, os bandidos a reconheceram e a ameaçaram de morte. “Só fiz a ocorrência porque o motorista insistiu”, diz.

A população do Sol Nascente teria se aproximado de 100 mil habitantes. A maior parte da cidade não tem saneamento básico, e poucas são as ruas asfaltadas e iluminadas. O crescimento desordenado dificulta o policiamento, fazendo com que a criminalidade avance. “Não temos como enfiar uma viatura lá dentro. O acesso é péssimo”, admite um PM. As forças policiais tentam combater a ação dos bandidos no local, mas esbarra no baixo efetivo. “Não falta delegacia, falta gente para estar nas ruas”, denuncia um policial civil.

Segundo a Polícia Militar, o problema da reincidência criminal influencia, diretamente, o número de delitos. A corporação usa dados da Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social (SSP-DF) para justificar a dificuldade: 37% dos presos em flagrante repetem o crime. No caso de adolescentes, o número salta para 70%.

Questionada acerca do trabalho realizado na cidade, a comunicação da PM explica, em nota, que “a segurança pública abrange a atuação de diversos outros órgãos públicos e não apenas da PMDF. E que, diante disso, tem trabalhado de forma sistemática e ininterrupta em toda a região de Ceilândia”.

Em nota, a SSP-DF reforçou que os índices de criminalidade têm apresentado queda em comparação ao ano passado. A pasta ressaltou ainda a importância de as vítimas sempre registrarem as ocorrências nas delegacias da Polícia Civil.

Palavra de especialista


“A população está enjaulada”

“A ausência e a omissão do Estado, o uso indiscriminado do solo e as ocupações irregulares no entorno de Ceilândia agravam mais a situação da segurança pública da cidade. Com isso, o tráfico e a criminalidade tomam conta. A PMDF é uma das instituições que mais prendem no país, mas a criminalidade não para de crescer, de usar droga. Outro ponto bastante importante é que esses bandidos têm a fuga facilitada pelo abandono do Entorno do Distrito Federal. A região tem várias áreas de escoamento, o que dificulta o trabalho das autoridades. O problema só se agrava. Outro ponto importante nesse contexto é a impunidade. A população é refém, está enjaulada. Não existe polícia suficiente para prender num dia e, no outro, a Justiça soltar. A impunidade, talvez, seja o grande ponto de discussão.”

Antônio Flávio Testa, especialista em segurança pública

Três perguntas

Capitão Daniel Borges Santiago, subcomandante do 10º Batalhão da Polícia Militar de Ceilândia

No primeiro semestre do ano, houve aumento nos roubos a pedestres em Ceilândia. Há justificativa para esses crimes?

Não existe uma explicação precisa. Pode ser uma questão de oportunidade do bandido, descuido, uma série de fatores. Mas, certamente, o uso de drogas é um dos principais motivos de essas pessoas cometerem essa modalidade de crime. Nos últimos tempos, houve uma melhora, mas nós estamos atuando com operações para mudar esse cenário.

Qual é a justificativa para a população se sentir insegura?

Os números estão aí. Houve queda em quase todos os crimes. Isso é um sentimento individual. E, para mudar, precisa-se de tempo, de reeducação e de políticas públicas que mostrem que é seguro sair de casa. Mas justifica-se por conta da impunidade, que piorou com as audiências de custódia. Às vezes, prendemos um suspeito hoje e, amanhã, ele está nas ruas cometendo mais crimes.

Como é o combate à criminalidade?

Constatamos que os roubos a pedestres e a ônibus ainda destoavam. Por isso, intensificamos as patrulhas nos horários de saída e de chegada das pessoas. Colocamos viaturas em pontos estratégicos e de maior circulação, fazemos operações surpresas em áreas que consideramos mais críticas, como a entrada do Sol Nascente e a Expansão do Setor O. As rondas foram fortalecidas pela presença dos carros da PM, que ficam expostos em pontos estratégicos.

*Por Ricardo Faria / Correio Braziliense