Implantação de Ceilândia foi o apartheid de Brasília

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[Poder360] O surgimento de ocupações urbanas irregulares é 1 dos marcos da história de Brasília, inaugurada em 21 de abril de 1960. A construção da nova capital provocou intenso fluxo migratório para o Planalto Central. Milhares de trabalhadores, de todos os cantos do Brasil, resolveram apostar no futuro buscando oportunidades de trabalho na região.

Com apenas 9 anos de fundação, a capital federal tinha 79.000 pessoas em situação de pobreza em 14.600 barracos espalhados. Os migrantes chegavam e se deparavam com a falta de habitações populares, o que resultou na construção de moradias em áreas desabitadas e em invasões.

No final dos anos 1960, o governo começou a transferir as primeiras ocupações urbanas irregulares para regiões mais afastadas do Plano Piloto –área nobre da capital. Surgia, a partir daquela transferência de famílias, a chamada CEI (Campanha de Erradicação de Invasões), que culminou na criação da região administrativa de Ceilândia.

A implantação de Ceilândia se deu em uma história que aproxima o Brasil da África do Sul, no auge do apartheid –regime de segregação racial  e populacional que vigorou no país africano de 1948 a 1994. A ação foi idealizada pela mulher do então governador Hélio Prates, Vera Silveira, que estava preocupada com ocupações irregulares.

Foto do então governador do Distrito Federal, Hélio Prates, à época da criação da CEI (Campanha de Erradicação de Invasões). A retirada das ocupações irregulares foi idealizada pela mulher do político, Vera Silveirareprodução/Arquivo Público DF

O professor Creomar de Souza, que dá aulas de História e de Ambientes e Cenários do Século 21, na Fundação Dom Cabral, explica que foi feita uma campanha de erradicação de barracos resultante da incapacidade de o Estado conseguir abrigar o contingente de pessoas que se mudou para a nova capital imaginando que a qualidade de vida já estaria garantida.

“Juscelino Kubistchek foi muito bem-sucedido em transformar Brasília em uma terra de sonhos e oportunidades no imaginário popular”.

O problema, segundo o professor, é que criou-se o lema dos 50 anos em 5 de governo, e alimentou-se a ideia de uma enorme “epopeia”, que fez com que pessoas de todos os lugares do país viessem para a cidade.

Segundo Creomar, o crescimento de Brasília provocou a segregação de grupos populacionais por meio de uma “limpa” das invasões que cercavam a área central da capital.

“A 1ª iniciativa de planejamento urbano para fazer essa limpa das invasões que cercavam o Plano Piloto e criar uma paisagem mais aprazível foi a construção da CEI”, afirma o professor.

Uma das consequências da transferência em massa das ocupações irregulares foi o fato de as distâncias se tornarem tão grandes, “talvez o componente mais complexo da vida hoje no Distrito Federal”, diz o professor. O que “torna a vida dos mais pobres mais complexa porque o transporte é ruim e caro”.

Os acontecimentos políticos do período imediatamente posterior à inauguração influenciaram as políticas públicas de Brasília. O golpe militar de 1964 foi 1 dos eventos que provocou a ruptura de 1 projeto de menos desigualdade. “Se você conversa com alguns pioneiros, eles dizem que vendia-se a ideia de que no Plano Piloto 1 médico, 1 engenheiro, 1 funcionário público e 1 construtor fossem ser todos vizinhos”, explica o professor Creomar.

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“JK inaugura a cidade, mas seu grupo político não a administra. Isso é feito quase que no final do governo e já no momento em que falta energia em termos de políticas públicas e dinheiro em algum sentido para avançar. Logo depois disso, o Brasil entra numa fase bastante conturbada do ponto de vista político. Vêm Jânio Quadros, João Goulart, depois o golpe e isso torna a situação ainda mais complexa porque alguns, como o próprio JK, são colocados na ilegalidade do ponto de vista político. Aí fica a questão: o que fazer com a cidade?”, observa o educador.

A CEI começou a atuar em 1969 e conseguiu demarcar 18 mil lotes em uma área de 20 metros quadrados ao norte de Taguatinga, outra região administrativa de Brasília reprodução/Arquivo Público

Primeiros moradores da CEI (Campanha de Erradicação de Invasões)reprodução/Arquivo Público do DF

Vista aérea do começo da implantação da CEI, ao norte de Taguatinga (DF)Arquivo Público do DF

A remoção de famílias em habitações irregulares no centro de Brasília foi realizada nos chamados anos de chumbo da ditadura militar. Os militares, no entanto, pouco se envolveram.

A ação não era nova e a prática era tolerada pelo então presidente Juscelino Kubitschek que, antes da inauguração da capital, já havia permitido transferências de trabalhadores que atuavam na construção, instalados precariamente nas proximidades do Plano Piloto, para Taguatinga e outras localidades distantes.

CONTEXTO HISTÓRICO E DIFERENÇAS SOCIAIS

O professor Rogério Lustosa Victor, doutor em História e professor do IFB (Instituto Federal de Brasília), explica que, à época da transferência, foi criada até uma campanha publicitária para convencer a população sobre a necessidade da saída das ocupações irregulares.

“Houve uma interessante campanha publicitária de convencimento da população. Uma musiquinha foi muito tocada: ‘A cidade é uma só’, que tentava convencê-los dessa ideia. A violência não foi maior que a práxis da República brasileira. Poderíamos lembrar do ‘Bota abaixo’ no Rio de Janeiro, empreendido pelo prefeito Pereira Passos, em 1903-1904, em meio à campanha de saneamento do próprio presidente da República, Rodrigues Alves, que resultou no início das habitações nos morros do Rio de Janeiro”, destaca o historiador.

Lustosa afirma que Brasília conseguiu em seus 60 anos sintetizar a “tragédia brasileira”, por evidenciar enormes diferenças sociais em pouco tempo. “Temos o Plano Piloto, como região com renda per capita altíssima para a realidade brasileira, nível de escolaridade também alto, ambiência urbana, muito verde etc. E temos a Ceilândia –o oposto: renda baixa, desemprego alto, escolaridade baixa”.

O professor diz que década depois de década, em Brasília, fugiu-se do ideário de igualdade construído pela civilização ocidental na modernidade. “Como a exclusão faz-se brutal, exclusão em todos os aspectos, a própria liberdade fica comprometida –outro ideal de nossa civilização. Não é difícil encontrar jovens de 15 anos que jamais saíram de suas áreas administrativas, da Ceilândia, por exemplo. Quando nós, do IFB, fazemos alguma visita técnica, levando esses jovens para conhecer o Plano Piloto, alguns afirmam que nunca haviam ido lá”, afirma.

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Poder360 preparou 1 álbum com fotos históricas sobre o desenvolvimento da região administrativa de Ceilândia. Veja abaixo: Campanha de Erradicação de Invasões 13 FotosVeja a galeria completa›

CEILÂNDIA HOJE

Atualmente, segundo a Codeplan (Companhia de Planejamento do Distrito Federal), a Ceilândia é a maior e mais populosa região administrativa da capital federal, com aproximadamente 500.000 habitantes. Distante 30km do centro de Brasília, a região tem diversos problemas de infraestrutura, educação e, principalmente, de mobilidade, com 1 transporte público caro e ineficiente.

Hoje, Ceilândia possui uma área urbana de 29,10 km² e está subdividida em diversos setores: Ceilândia Centro, Ceilândia Sul, Ceilândia Norte, P. Sul, P. Norte, Setor “O”, Expansão do Setor “O”, QNQ, QNR, Setores de Indústria e de Materiais de Construção e parte do Incra (área rural da Região Administrativa) e Setor Privê.

O professor Creomar de Souza diz que o Distrito Federal tem o enorme desafio de prover serviços de qualidade à população, como saúde, educação, e transporte público.

Na visão do educador, entretanto, Ceilândia e as demais regiões administrativas passaram a adquirir vida própria. “Ceilândia se tornou 1 grande ponto de ebulição cultural, educacional em vários sentidos. Aos 60 anos, o que Brasília tem de melhor são as suas pessoas. É a sua gente. Gente muita engajada em fazer suas vidas melhor e fazer da cidade 1 lugar melhor a cada dia”.

*Por Nathan Victor do Poder 360

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