Ex-moradora de rua, Nica abriga, em Ceilândia, soropositivos sem casa e rejeitados pelas famílias

Ex-moradora de rua, Nica abriga, em Ceilândia, soropositivos sem casa e rejeitados pelas famílias
Francisca Sena, a Nica, e a promessa de abrigar pessoas após 14 anos na rua: “Eu me vejo no lugar deles e entendo a rejeição” (Foto: André Giusti)

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[Projeto Colabora] “Até os 23 anos eu sabia apenas que meu nome era Francisca e que fui deixada em um orfanato com seis meses de idade por um homem”. É a primeira coisa que Francisca Tenório de Souza Sena conta sobre sua vida. Esse homem, que seria seu pai, disse que voltaria depois para pegar a criança. Claro que isso nunca aconteceu, e ela viveu nesse orfanato – em Itumbiara, Goiás, a 400 quilômetros de Brasília e 200 quilômetros de Goiânia – até os nove anos de idade. 

Foi aí, então, que tudo mudou. E para pior.

Nica, como é chamada, foi adotada por uma família de Uberlândia, em Minas. Adotada é força de expressão. Ela foi levada para ser empregada doméstica. “Acordava 5h30 para fazer café. Quando eles acordavam, tinha que estar tudo pronto”, conta hoje, aos 51 anos. “Não exigiram nada, nenhum documento, não passei por juizado nenhum”, acrescenta, relembrando a facilidade com que foi tirada do orfanato, uma realidade totalmente diferente da de hoje em dia quando se fala em adoção de crianças. “A única coisa que o orfanato pediu – pediu, não exigiu – é que eu continuasse estudando”.

Quando era interna, Nica frequentava a escola, mas, em Minas, a única coisa que fez foi trabalhar e trabalhar, em troca apenas de casa e comida. “Eu dormia no sofá da sala”, conta. E corria para se deitar na porta do quarto daquela que deveria ser sua mãe adotiva, mas que na verdade era sua patroa, ou senhora, em uma analogia ao trabalho escravo. É que ficava com medo dos surtos de um dos filhos do casal, um rapaz com deficiência mental. Mas essa nem era a pior ameaça. “Fui abusada por outro dos filhos, várias vezes” – ela lembra com os olhos duros de tristeza, mas sem chorar, porque talvez nem tenha mais lágrimas para lembrar desse tempo. Até porque a situação se repetiu ao longo dos anos que viriam. 

Ficou nessa casa apenas quatro meses. A família não a quis mais e nem se deu ao trabalho de devolvê-la ao orfanato. Abandonou-a lá mesmo, pelas ruas de Uberlândia, quando ela era uma menina de apenas nove anos. “Eu não consigo descrever a vida nas ruas, e, se eu conseguisse, você não iria entender. Só quem vive ou viveu entende” – ela assegura, mantendo o olhar duro pelo passado. 

A menina teve que descobrir o instinto de sobrevivência. Batia de porta em porta, se oferecendo para lavar e passar em troca de comida e de uma cama para dormir à noite, longe do relento. Nessa barganha sofreu humilhações e novos abusos dos homens das casas em que pediu abrigo. 

Em Uberlândia, quando estava nas ruas, juntava-se a um bando de outras quatro ou cinco meninas que também vagavam pela cidade. “Elas até tinham família, mas era aquele histórico de pai alcoólatra, mãe espancada, família desestruturada. E aí preferiam a rua”, conta. “Só eu é que não tinha ninguém. As meninas riam de mim: Nica, se você morrer, quem vai te enterrar? Você não tem ninguém. Aí eu ficava mesmo com medo de morrer e virar um zumbi, porque ninguém ia me enterrar”. E ela chega a rir, divertida, hoje em dia, da lembrança tão dura.

Nica recebe o abraço de integrante de ONG: para manter o abrigo, ela conta com a solidariedade (Foto: André Giusti)

Grávida aos 14 anos

Aos 12 anos, foi parar em Brasília. “Uma das meninas disse que tinha uma tia aqui, e que aqui dava para arrumar emprego”. De carona em carona, chegaram à capital do país. “Imagina só! Cinco meninas de 12, 13 anos entrando e saindo de carona na estrada”. Ela reconhece a sorte de nada de mau ter acontecido.

O grupo passou noites dormindo no meio do mato onde hoje é o Sudoeste, bairro de classe média, em Brasília. As companheiras de rua resolveram voltar para Uberlândia.  Nica ficou em Brasília, onde, aos 14 anos, engravidou de um outro morador de rua, bem mais velho e alcoólatra, que morreu pouco depois em um acidente.

Até os 23 anos continuou provando o inferno das ruas, que começou com o filho sendo levado dela com apenas 15 dias por uma das mulheres que lhe deram abrigo. Quando fala dessa época, ela não se detém em fatos, mas em um sentimento que perdura e resume o que passou. “Penso nas vezes em fui humilhada, espancada, nas vezes em que acordei com gente me chutando, jogando pedra em mim. E, por ser mulher, ser abusada na rua… quantas vezes eu ouvi: pode fazer porque não tem quem defenda ela”. E outra vez seu olhar endurece. “Eu ouvi durante muito tempo que eu não prestava, que eu não valia nada e que eu não ia ser nada. E durante muito tempo eu acreditei nisso”. 

Não bebia e usou drogas poucas vezes: o que a ajudou a se sustentar no meio de tanta adversidade foi – por incrível que pareça – a leitura. “Eu catava coisas para ler nas latas de lixo, livros, a antiga revista Manchete, até bula de remédio eu lia”. E, para espanto de quem ouve, cita Dante Alighieri, Dostoievski e Franz Kafka. “A leitura mostrava um mundo diferente do que eu vivia, sabe? A leitura para mim era uma fuga, me dava força para acreditar que eu poderia mudar a minha vida”, conta, exultante. “Tanto é que quando pude voltar a estudar, fiz o supletivo sem maiores problemas, porque a leitura me deu base”, destaca. Quando ela conta essa parte, é possível notar como ela fala corretamente, empregando pronomes certos e sem erros de concordância ou regência. 

Por acreditar que poderia mesmo mudar de vida, Nica fez o juramento que é a razão para contar sua história.  “Eu dizia que se um dia eu saísse das ruas eu ia cuidar de gente, eu ia fazer pelos outros o que não fizeram por mim”. Matéria completa do Projeto Colabora aqui.

1 Comment

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    Stelamar , 1 de outubro de 2019 @ 21:25

    Que alegria em ver a história dessa guerreira sendo publicada, ela e seu marido lutam hoje p manter uma casa de auxílio a tantos excluídos, Nica vc é um ser de muita luz

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