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Artigo: O Homem do chapéu e a grande farsa

Múcio já se movimentava para garantir mais quatro anos de imunidade, o que o livraria de responder a vários processos criminais na justiça

Por Pedro Tomaz de Oliveira Neto(*)

Na primeira metade dos anos 1980, com os ventos da redemocratização soprando forte em todo o país, a população de Brasília dava como certa a conquista do direito de eleger seu governador e de ter representaçãono Congresso Nacional. Mesmo sendo o centro da política brasileira, a capital federal jamais teve o que poderíamos chamar de “política local”. Agora, com a ditadura militar agonizando e a iminente vitória do candidato de oposição Tancredo Neves como novo presidente da república, não tinha como nossos legisladores negar esse direito aos brasilienses.

De olho na novidade, vários postulantes ao governo de Brasília ou a representá-la no parlamento começaram a aparecer, de dentro e de fora da cidade. Entre eles, Múcio Athaíde, então deputado federal por Rondônia. Múcio já se movimentava para garantir mais quatro anos de imunidade, o que o livraria de responder a vários processos criminais na justiça. Sem a certeza de reeleição pelo eleitorado rondoniense, o mais seguro seria buscar um novo domicílio eleitoral que desconhecesse os rolos e as tramoias de sua vida pregressa.

Com fome de votos e esbanjando dinheiro e poder, Múcio fixou residência em Brasília. E como se fosse o mais antigo dos moradores, íntimo até de JK,foi se apresentando como um defensor, desde criancinha, da autonomia política da cidade.Em busca de umabase de apoio popular, se aproximou de líderes comunitários nas cidades-satélites, pagando suas contas em troca de fidelidade política.Comprou também uma gráfica e lançou seu próprio jornal. Por fim, adquiriu uma fábrica de chapéu, produto que passou a oferecer ao povo e lhe deu o mote para adotar a alcunha de o“Homem do Chapéu”.

Não satisfeito, Múcio Athaíde sentia falta de um grande evento para consolidar de vez sua força e liderança na cidade. Pensando nisso, teve a ideia de organizar um megacomício de apoio ao candidato Tancredo Neves, e, de carona, fazer a defesa da emancipação política de Brasília. E assim agiu, programando o ato para uma noite de quarta-feira, em Ceilândia, a mais populosa cidade-satélite do Distrito Federal.

Múcio não economizou para fazer desse evento um marco na história de Brasília. Com farta distribuição de chapéus aos ceilandenses, colocou carros-propaganda para divulgar o comício em todos os bairros da cidade, anunciando como atrações as presenças do próprio Tancredo, de Ulysses Guimarães, o “Senhor Diretas”, e dos artistas Milton Nascimento e Fafá de Belém, além, é claro, do “Homem do Chapéu”.

Naquele grande dia, pouco antes das cinco da tarde, já havia milhares de pessoas concentradas na frente de uma carreta adaptada como palanque, quase todas com um chapéu de palha na cabeça. A espera pelas grandes estrelas da noite era animada por artistas e lideranças locais, com fogos de artifício e jingles enaltecendoMúcio como o paladino dos brasilienses na luta pela autonomia política. Volta e meia, o locutor oficial do evento pegava o microfone para lembrar: “Já, já, aqui com vocês: Tancredo Neves, Dr. Ulysses, Milton Nascimento, Fafá de Belém e Ele, o ‘Homem do Chapéu’, deputado MúuuuucioAthaíiiiide.”

A noite chegou e no palanque seguia a mesma ladainha: muita música e falação ao léu, chapéus jogados para a multidão, mas nada das atrações anunciadas. Vez em quando, o locutor esclarecia que o atraso da comitiva de Tancredo era devido a outros compromissos, mas logo estaria chegando. A noite estava agradável e a chance de ver o futuro presidente do Brasil bem de pertinho e de ouvir a Fafá de Belém era única. Valeria esperar um pouco mais.

Algum tempo depois, surgiam da plateia os primeiros sinais de impaciência e de cobrança: “Cadê o presidente?”“Cadê a Fafá?”“Como é que é? Os ‘home’ vão vir ou não?” Em resposta, do palco chovia mais chapéus, mais desculpas pelo atraso e mais fulanos, sicranos e beltranos de tal cantando e discursando sem serem notados pelo povão.

Nove da noite. As luzes no palco se apagam e a música passa a ser incidental. Parecia que o homem finalmente chegou. Deu até para se ouvir o silêncio que se fez. Se dirigindo ao grande público, o locutor do evento bradou: “Povo de Ceilândia, vamos receber com todo o carinho um lutador, um parceiro, amigo, o homem que veio para mudar Brasília, dando-lhe cidadania e o direito ao voto! O homem que veio engrandecer a nossa querida e sofrida Ceilândia! Com vocês, o Homem do Chapéu, futuro governador do Distrito Federal, deputado MúuuuucioAthaíiiiiide!!!”

Trajando roupas ao estilo John Wayne, Múcio adentrou ao palco triunfante. Seguido por luzes caleidoscópicas e festejado com um show pirotécnico, percorreu toda a extensão do palanque acenando para a multidão com seu garboso chapéu. Mas, ao invés de ganhar os aplausos do público, ouviu uma sonora vaia. Escondendo a decepção, o cowboy falastrão passou a arremessar chapéus em direção a multidão, conseguindo um minuto de atenção para falar: “Brava gente de Ceilândia, como sempre, estou aqui com vocês na luta pelo direito de voto dos brasilienses.” Mas os gritos de “Queremos Tancredo!” abafaram a fala do deputado. “Queremos Dr. Ulysses!”“Queremos Fafá!”

Convicto de que sua presença seria suficiente para compensar a frustração da plateia, o Homem do Chapéu insistia em falar, agora preocupado em dar explicações: “Meu povo, venho aqui fazer uma grave denúncia.” Diante da insatisfação popular, Múcio precisava se esgoelar para ser ouvido: “Ceilândia acaba de ser discriminada.” As vaias são cada vez mais fortes. “A cúpula do partido impediu o nosso querido presidente Tancredo Neves de vir a Ceilândia, essa cidade maravilhosa, habitada por cidadãos honrados e trabalhadores. Mas…”

Cansada das desculpas esfarrapadas, a plateia começou a atirar pedaços de pau, sapatos e todo e qualquer objeto arremessável. Assustado, Múcio conseguiu se abrigar providencialmente na casa ao lado que servia de comitê do evento. A intervenção da polícia evitou um linchamento, mas não impediu a destruição total do palanque.

Múcio não desistiu e seguiu com seus planos de poder no Planalto Central. Na primeira eleição realizada em Brasília, em 1986, candidatou-se ao Senado. Mas, por abuso de poder econômico, a justiça eleitoral cassou a sua candidatura. A partir de então, o Homem do Chapéu passou a ser apenas um causo da política brasileira.

(*) Pedro Tomaz de Oliveira Neto é formado em História e especialista em Ciência Política pela UnB. Natural de Teresina-PI e radicado no Distrito Federal desde 1968, testemunhou o nascimento de Ceilândia, onde morou por quase 20 anos. (facebook.com/ptoneto)

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