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Artigo: Súplica ceilandense

Em seu cinquentenário, Ceilândia tem muito o que agradecer à fibra e determinação dos seus pioneiros

por Pedro Tomaz de Oliveira Neto(*)

Ceilândia está completando cinquenta anos. Neste meio século, de cidade-dormitório na periferia de Brasília transformou-se numa grande cidade, a mais populosa do Distrito Federal, com vida própria, comércio forte e cultura vibrante e diversificada em sabores e ritmos. Tal progresso não seria possível sem o suor, o sacrifício e o sofrimento dos seus pioneiros, boa parte deles nordestinos, que enfrentaram terríveis condições de sobrevivência acreditando na construção de um futuro digno e promissor para as gerações vindouras.

Aliás, sofrimento é o que nunca faltou à gente humilde do Nordeste, principalmente os sertanejos vitimados pela seca, fome e desemprego, como tão bem descreve a letra de“Súplica Cearense”, baião-toada imortalizado na voz de Luiz Gonzaga. Até quando essa genteresolvia deixar o torrão natal à procura de sorte melhor, a desgraça sempre dava um jeito de se esconder dentro do matulão e seguir na sua cola. Só que esses cabras marcados para sofrer também eramcabras da pestemarcados para não esmorecer diante das dificuldades.Quem o diga minha família e milhares de outras que migraram rumo ao Planalto Central nos anos de construçãoda nova capital do país.

Antes mesmo de ser concluída, Brasília já convivia com problemas sociais típicos dos grandes centros urbanos. Era o caso das invasões nas adjacênciasdo Plano Piloto, onde fomos morar sob condições deploráveis. Da janela dos aviões que decolavam ou aterrissavam no aeroporto perto dali, a visão que se tinha era a de um bolsão de miséria, com inúmeros barracos de madeira amontoados num labirinto de ruas e ruelas. Vistos como estorvos pelos donos do poder, topamos ser transferidos para uma área distante quase 30 quilômetros do centro de Brasília, com promessas de implantação de infraestrutura básica e de serviços públicos essenciais à comunidade.

Assim,há 50 anos, nascia Ceilândia, nome originado da sigla da Campanha de Erradicação das Invasões, que mobilizou a alta sociedade brasiliense incomodada com a vizinhança maltrapilha.No entanto, o sonho de morar num lugar decente virou um pesadelo logo que os caminhões de mudançadespejaram as tábuas do velho barraco e as nossas tralhas no meio daquele cerrado semidesmatado. Fora a demarcação dos lotes, nada do prometido pelo governo tinha sido entregue. Uma lástima! Começava ali a nossa “súplica ceilandense”: Oh! Deus, perdoe esses pobres coitados! Que de joelhos rezaram um bocado, pedindo pra vida ser menos sofrível.

Menos mal que antes de Ceilândia completar seu primeiro aniversário, a rede elétrica havia sido implantada. Isso, por si só, não fez com que as noites na cidade perdessem seu lado tenebroso, pois as ruas aos poucos foram ganhando iluminação. O grande desafio era trazer a energia para dentro de casa. Isso implicava alguns sacrifíciospara tirar do minguado orçamento doméstico a grana para pagar a instalação, sem esquecer da conta de luz de todo mês. Dessa forma, muito lentamente, os ceilandenses foram deixando para trás a idade das trevas, trocando candeeiros, lamparinas e velas por lâmpadas elétricas.

Apesar das luzes, em seus primeiros anos, Ceilândia era reconhecida mais como favela do que como cidade. Por qualquer ângulo de visão, a paisagem urbana se mostrava feia e desoladora. A maioria da população vivia em barracos caindo aos pedaços e as condições sanitárias eram degradantes. Motorizado ou não, era complicado transitar pelas ruas da cidade. Somente as vias principais ganharam asfalto. Nas demais, prevalecia o terrão, onde os carros passavam deixando enorme rastro de poeira para trás. Sobrava aos pedestres o dissabor de engolir terra pelos sete buracos da cabeça. A mesma poeira que incomodava nos períodos mais secos se transformava em lama nos dias chuvosos. Dificilmente dava para chegar a algum lugar sem chafurdar os pés e emporcalhar as roupas nas sucessivas poças de lama que se formavam ao longo do caminho.

Contudo, a violência crescentee a falta de água encanada, desde o início, eram de longe os problemas mais sentidos pela população. Se na luz do dia não tínhamos aplena sensação de segurança, sair de casa na penumbra da noite, no mínimo, significava correr alto risco de ser assaltado, mesmo o delinquente sabendo que sua vítima pouco ou nada teria a oferecer além do calçado e das roupas do corpo.

Em relação ao problema da água, diariamente precisávamos nos desdobrar para conseguirmos, sabe-se lá como, encher ao menos um balde para as necessidades mais básicas. Não havia tantas alternativas. Uma delas era o caminhão-pipa que a administração mandava semanalmente.Outra, era recorrer às torneiras instaladas em diversos pontos, muitas das quais passavam tempos sem cair uma gota.Sob um sol escaldante,ziguezagueávamos pela cidade à procura de uma fonte com água. No caminho, cruzávamos com gente de variadas idades, e até crianças recém largadas das fraldas, numa verdadeiraromaria pela sobrevivência.

Até a regularização definitivado abastecimento d’água, decorreram-se quase dez anos de muita aflição para os ceilandenses.Neste período,o retrato mais fiel da cidade mostravasenhoras donas de casaindo e vindo com uma lata d’água sobre a cabeça e outra igualmente cheia numa das mãos, trazendo pra toda a família a água do sustento do dia. Foi na força e na perseverança dessas senhoras, no trabalho árduo de seus maridos e na maturidade precoce dos filhos, que Ceilândiachegou ao seu cinquentenário crescida, pujante e mais autônoma e desenvolvida.

(*) Pedro Tomaz de Oliveira Neto é formado em História e especialista em Ciência Política pela UnB. Natural de Teresina-PI e radicado no Distrito Federal desde 1968, testemunhou o nascimento de Ceilândia, onde morou por quase 20 anos.

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