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Benzedeiras realizam trabalhos em unidades básicas de saúde do DF

Espinhela caída, quebranto, mau olhado. Quem é do interior, provavelmente, já ouviu essas expressões e, na sequência, um conselho: é melhor se benzer. O costume, porém, também tem seu espaço na cidade grande. Uma vez por mês, três unidades básicas de saúde (UBS) ficam lotadas de pessoas em busca dos saberes populares.

Acostumada ao benzimento na cidadezinha onde mora, no Espírito Santo, a aposentada Dalva Caversan aproveitou a estadia em Brasília, onde está para cuidar do neto que acabou de nascer, para levar a família inteira à UBS 2, da 114/115 Norte, onde cerca de 50 benzedeiras atuam uma vez por mês.

“Lá, temos o costume de levar as pessoas para ser benzidas quando estão com alguma dor, com um machucado, quando estamos bocejando muito ou, ainda, quando a criança está muito agitada”, conta ela. A filha, Nair Angélica, já está acostumada e, agora, levou o pequeno Miguel para receber o que ela teve muito na infância. “Lembro-me da minha mãe levando a gente. Saímos mais leves”, destaca, ao lado do marido, Vilar Cardozo, benzido pela primeira vez.

O trabalho das benzedeiras começa com uma roda, onde fazem uma oração entre elas. Em seguida, organizam outro grande círculo, desta vez com os presentes, quando fazem a leitura de um texto e explicam a dinâmica do benzimento. Elas ficam na unidade por duas horas, no final da manhã ou da tarde. Senhas são distribuídas ao longo desse tempo e as pessoas são encaminhadas às benzedeiras.

Vocação Cada benzedeira tem seu método. Algumas usam terços, outras preferem um galho de arruda. Há ainda aquelas que usam da conversa, um abraço, massagem. O mais importante é ter fé e conexão com quem está buscando este auxílio.

Há um ano e meio atuando como benzedeira, Edna Francischetti diz que, para exercer essa tarefa, é preciso ter sintonia com quem precisa ser benzido. “Quando pergunto por que a pessoa veio, já se vai estabelecendo uma conexão mais profunda, de muito acolhimento e compreensão. Olho no olho, ouço e vou-me conectando com o melhor de mim mesma, um amor mais alto. Então, com base nisso, ou faço uma “costura” ou benzo com alecrim e água, usando palavras fortes de uma bênção muito antiga”, diz ela, sempre calma.

Uma das benzedeiras, Edna Francischetti, utiliza galho de arruda para atender pessoas da comunidade. Foto: Mariana Raphael/Secretaria de Saúde

Qualquer um pode se candidatar a ser um benzedor. “É preciso ter fé e confiar que somos capazes de interceder para o bem-estar de outros, humanos ou animais. Existe uma formação que promovemos anualmente para compartilhar nosso caminho e experiências, para nos conectarmos com a energia cósmica de nossos ancestrais”, explica a guardiã da Escola de Benzedeiras, Maria Bezerra, responsável por levar o trabalho às unidades básicas de saúde.