Albergue público do DF – Casa dos horrores

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Descaso, maus-tratos e condições de higiene precárias. Esse é o retrato do Unidade de Acolhimento a Adultos e Famílias do Areal, em Águas Claras. O cenário é digno de filme de terror, denunciam os abrigados ali. Se não bastassem todos os problemas citados, a insegurança também toma conta dos vizinhos do centro de albergamento.

O Jornal de Brasília teve acesso a um extenso material, em vídeo e imagens, onde são mostradas as condições insalubres que os moradores do albergue precisam enfrentar. O esgoto dos banheiros é despejado a céu aberto, causando mau cheiro e incômodo. Cachorros e pombos estão presentes frequentemente no local, inclusive onde são feitas as refeições. Nos banheiros,  a fiação dos chuveiros fica exposta e existem inúmeros vazamentos e ralos entupidos. As mulheres  não podem lavar as mãos, já que no banheiro feminino não há pias.
Agressões


Em um dos vídeos, aparece uma suposta agressão a um morador do albergue. É possível ouvir pessoas descrevendo a cena como “covardia”. Aparentemente, vários homens cercam a vítima, já caída no chão, e desferem golpes. É possível ouvir repetidas vezes: “Desmaiou o cara”. E em seguida: “O cara já ta todo mole”.
A  universitária Roselane Roberto Nonato se viu obrigada a ir morar no albergue do Areal no começo do ano. De janeiro a junho, ela registrou várias cenas de desrespeito aos direitos humanos. “Existe uma salinha onde eles fazem torturas. As revistas são exageradas, com homens armados, cães farejadores. Eles chegam   no meio da noite, batem sem motivo e por tudo você corre o risco de levar pancada”, revelou.
Roselane   ficou indignada com as cenas de desperdício de dinheiro público. “Quando um albergado sai, eles queimam os colchões em vez de lavar e reaproveitar”, disse.
A revolta nos relatos
As agressões e o desrespeito por parte dos funcionários é constante, segundo Luís (nome fictício), que afirma ter levado golpes de cassetete. Ele  conta que a esposa sofreu tentativas de abuso. “Quando saí do albergue para fazer a denúncia na delegacia, fui impedido de entrar. Me disseram que minha mulher, grávida, e minha filha poderiam ficar, mas eu ia ter que procurar outro lugar”, contou. 
O que fez Luís sair do albergue teve a ver com o ambiente presenciado pela filha de três anos. “Ela disse que estava estressada e precisava fumar maconha para se acalmar. Aí decidi pegar minhas economias e alugar um espaço para minha família”, revelou. A chegada a Brasília ocorreu há seis meses, porque, órfão, Luís decidiu procurar notícias dos parentes. Agora, ele tenta se estabilizar, após conseguir emprego.
Depois de dois meses albergado, José (nome fictício) conta ter sido expulso por negligência dos assistentes sociais. Para fazer as refeições no local, é necessário conseguir um documento, que precisa ser renovado pelos profissionais da casa, mas ele não pôde fazer a renovação. 
Assistência social
“Estava comendo há alguns dias com o papel do meu amigo e eles me pegaram. Daí me botaram para fora. A gente não consegue se consultar com a assistente social, que nunca está lá”, alegou. Ele ainda ouviu  que não poderia pegar as suas coisas.
Durante a estadia, José também ouviu relatos de tentativas de incriminação por parte dos funcionários. “Eles colocam drogas, facas, tesouras nas coisas dos albergados. Se tomarem raiva de você lá dentro, eles fazem isso”, contou.
Cenário assustador

Se de fora o cenário já assusta,   dentro a situação é ainda pior. A comida servida no local, segundo a estudante Roselane Roberto Nonato, não está em condições de consumo.  Nos refeitórios, a roleta que contabiliza o número de pessoas   é girada várias vezes pelos funcionários, o que levanta a suspeita de que pode haver desvio de alimentos, de acordo com Roselane.

Ponto de vista
A discussão sobre as condições precárias de estabelecimentos de assistência é antiga. Para o antropólogo Benedito Rodrigues, especialista em direitos humanos, as denúncias são graves e precisam ser apuradas.  “É inadmissível que isso aconteça em qualquer governo com compromisso com os direitos humanos. Temos também os problemas com leitos de UTI, que  não deveriam acontecer”, disse. “Trata-se de uma dupla violação, já que a pessoa em estado de vulnerabilidade não foi incluída no desenvolvimento econômico e o Estado também torna um violador, quando não dá condições dignas a quem precisa de um albergue”, explicou.
Problemas do lado de fora
Quem passa perto da Unidade de Acolhimento a Adultos e Famílias do Areal pode ver vários moradores de rua instalados na área. Nas proximidades do albergue, a população vê com maus olhos a situação. “A gente até entende a questão social, mas os comerciantes sofrem bastante. Com menos de dois meses aqui, já fui assaltado. Embora tenha um posto policial aqui perto, ele não adianta muita coisa”, desabafou o comerciante Adenir Bernardo. 
Segundo Adenir, é comum encontrar pessoas nas proximidades da loja de madrugada. “O orelhão aqui de frente tem um cheiro forte de urina, porque serve de banheiro. Aqui atrás virou um motel, porque direto ouvimos os gritos. Também vemos muitos vestígios do consumo de drogas”, disse.
 Há 13 anos no mesmo ponto, a atendente Maria Cândida da Cunha revela que só continua trabalhando na padaria porque a dona do comércio é a filha. O clima de medo é constante no lugar, já que os comerciantes já perderam a conta de quantos assaltos e arrombamentos já aconteceram. “Todo ano dizem que o albergue vai sair de lá ou vai acolher só idosos, mas isso nunca acontece. É muita gente aqui na frente o tempo todo pedindo, incomodando os clientes, que às vezes nem entram na loja. Se a gente nega as coisas para eles,  xingam a gente, ameaçam vir assaltar”, contou. “Até paramos de vender bebida alcoólica e cigarro, para não incentivar a presença deles aqui”, concluiu.
Difícil convivência
A dona de casa Lucilene de Barros mora a poucos metros do albergue e conta como é difícil conviver no lugar. “Tem muitos bêbados e usuários de drogas andando por aqui. Teve um caso de uma menina que foi estuprada e morta por um morador do albergue e isso deixa a gente assustado”, disparou.
Na loja de artigos automotivos, foi necessária uma adaptação. Em uma área coberta por uma marquise, foi preciso colocar uma grade para evitar que o local servisse de dormitório. Segundo o comerciante João Barbosa, há sete anos no mesmo local, ter o albergue como vizinho não é nada fácil. “O albergue tinha que sair daqui, porque ele afasta os clientes. Tem gente pedindo dinheiro aqui o tempo todo”, reclamou.
Versão oficial
Em nota, a Secretaria de Comunicação se limitou a dizer que “a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedest) desconhece a denúncia. Anteriormente, episódios semelhantes se revelaram infundados. A Sedest apurará minuciosamente tão logo receba a denúncia formalmente”.

Daniel Cardozo do Jornal de Brasília

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