Aliados acreditam que Agnelo esteja sendo alvo de fogo amigo vindo do GDF.

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Em meio a uma crise política, aliados acreditam que o governador Agnelo Queiroz esteja sendo alvo de fogo amigo vindo de dentro do próprio GDF. Para neutralizar esses ataques, Agnelo tem sido aconselhado a fazer substituições em postos estratégicos da Polícia Militar, onde há suspeita da existência de agentes infiltrados que estariam à frente de vazamentos de informações para municiar adversários. Pelo menos três oficiais da PM e um delegado já foram exonerados.

Dois inquéritos abertos pela Delegacia de Crimes contra a Administração Pública (Decap) e pela Divisão Especial de Combate ao Crime Organizado (Deco), sob a condução do delegado Filipe de Moraes Maciel, apuram eventos considerados suspeitos por integrantes da cúpula do GDF. Mas enquanto correm as investigações da Polícia Civil, a cúpula do governo se adiantou em medidas administrativas para se proteger do chamado fogo amigo.

Uma delas foi a recente demissão do tenente-coronel Renato Costa, que atuou no comando do Batalhão de Operações Aéreas da PM. Integrantes do GDF estão convictos de que o oficial — filho de Edes Costa, ex-comandante da PM no governo de Joaquim Roriz — foi quem levou Daniel Tavares à casa de Eduardo Pedrosa, irmão da distrital Eliana Pedrosa (PSD). Na ocasião, o lobista gravou um vídeo, desmentindo depois, acusando Agnelo de receber propina de uma empresa farmacêutica.

Faz parte do inquérito aberto na Decap e está entre as evidências que já motivaram outras substituições na área de Segurança do GDF uma troca de e-mails que demonstraria, segundo pessoas ligadas ao governador, a ponta de uma conspiração contra Agnelo.

É remetente de um desses e-mails a tenente-coronel Soraya Barbosa Sales de Almeida. Até junho, ela ocupava o cargo de analista de inteligência, posto vinculado à Secretaria de Segurança Pública.

Em 2 de junho, a oficial enviou e-mail a um grupo restrito de pessoas que ocupam postos estratégicos na administração pública e trocam informações entre si.

A mensagem endereçada a [email protected] tinha como conteúdo um questionamento sobre o que ocorreria caso o governador do Distrito Federal sofresse um processo de impeachment.

A pergunta da tenente-coronel foi respondida por um servidor do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) identificado na troca de e-mails como Carlos Lourenço. Para esclarecer a dúvida da oficial Soraya, o servidor escreveu: “Cel., verifiquei e não vi nenhuma norma genérica, depende do caso, se o registro for cassado perde o mandato o governador e o vice, aí assume o presidente da Câmara na hierarquia legal. Estando tudo bem com o candidato que ficou em segundo, este assume. Em outros casos, o vice e o TSE na sentença determinam ou não a realização de eleições.

Lembra do Collor, o vice assumiu. O Código eleitoral fala sobre vacância”, escreveu Lourenço em resposta à tenente-coronel. No texto, ele se despediu: “Estamos à disposição”.

E-mails
A troca de e-mail entre a analista de inteligência do GDF e o servidor do TRE ocorreu entre 1º e 2 de junho deste ano, seis meses após o início do governo, mas antes da crise política deflagrada com as denúncias do policial João Dias e depois agravadas com as revelações do lobista Daniel Tavares, que acabou voltando atrás nos ataques a Agnelo. Mesmo anterior às recentes acusações envolvendo o governador e outros integrantes do Buriti, o episódio acendeu a luz amarela entre os governistas, que buscam identificar de onde parte o fogo amigo.

Recentemente, o chefe da Casa Militar do GDF, tenente-coronel Rogério da Silva Leão, foi surpreendido com a divulgação de vídeos e relatórios dando conta de operações internas de monitoramento do governo e de pessoas ligadas ao GDF. Leão é tratado por um grupo de críticos de Agnelo como mentor de um esquema de captação clandestina de imagens e de dados que seriam usados para cacifá-lo no GDF. No episódio Daniel Tavares, o coronel é acusado por opositores do governo de ter coordenado operação que explicaria a mudança repentina da opinião do lobista.

O tenente-coronel é um dos agentes que já prestou depoimento no inquérito aberto pela Decap. Fazem parte do relato de Leão os e-mails trocados entre a tenente-coronel Soraya e o servidor do TRE para apurar os cenários em caso de impeachment do governador. Ao tomar conhecimento da mensagem que, justamente por ter circulado dentro de um grupo acabou chegando às mãos de Leão, o chefe da Casa Militar contou aos delegados em depoimento que pediu explicações à colega de patente. Constrangida com a situação, Soraya explicou a Leão que não tomou a iniciativa da consulta.

O ofício encaminhado pela analista de inteligência a seus superiores
O ofício encaminhado pela analista de inteligência a seus superiores

Missão
A analista de inteligência Soraya de Almeida alega que fez a consulta ao TRE para cumprir uma missão designada pelo seu superior, o ex-subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança, delegado Gilberto Maranhão. Soraya acabou registrando o episódio em um memorando (veja fac-símile) endereçado à Subsecretaria de Inteligência. No documento, a militar expõe: “Dirijo-me a Vossa Senhoria, a fim de relatar os fatos relacionados ao cumprimento de missão solicitada a esta analista e que tem tomado proporções que extrapolam os limites da Atividade de Inteligência”. Segue Soraya no documento; “No dia 1º de junho, fui solicitada por V.Sr. a efetuar uma pesquisa de dados acerca do seguinte assunto: ‘Em caso de impeachment do governador do DF, quais as implicações segundo a legislação eleitoral vigente’, objetivando avaliar a credibilidade de dados disponíveis em fontes abertas”.

Como medida de proteção, Soraya continua a explicação oficial relatando que fez a coleta dos dados pela internet e que, para dar rapidez à apuração das informações, foi “realizado um telefonema a um colaborador, funcionário do TRE. E que, no mesmo dia, foi enviada a resposta dele via Rede IDF, acessada por diversas pessoas”. De acordo com Soraya, “a resposta, eminentemente técnica, recebeu interpretação diversa e foi utilizada indevidamente por integrantes da Rede e, apesar de não ser um documento de inteligência classificado, foi postado inadvertidamente por integrante que provavelmente desconhece as implicações inerentes ao sigilo que a atividade requer”.

A tenente-coronel Soraya alega ainda no memorando que a interpretação dada ao tema compromete diretamente a ela, “no que tange aos padrões éticos, hierárquicos e disciplinares”. Em seguida, a oficial pede que o superior dela “tenha a gentileza de esclarecer o exmo. sr. secretário de Segurança para que o mesmo, ciente do fato, esclareça possíveis distorções envolvendo o nome desta oficial junto ao presidente da Câmara, do chefe da Casa Militar e do diretório regional do PT”. Antes de se despedir, ela ainda ressalta que, como analista de inteligência, “cumpriu determinação e agiu no estrito cumprimento do dever”.

O e-mail enviado pela tenente-coronel e a resposta do TRE
O e-mail enviado pela tenente-coronel e a resposta do TRE

Medidas
A tenente-coronel Soraya foi exonerada do cargo em seguida ao episódio. Da mesma forma, perdeu a função de confiança o subsecretário Gilberto Maranhão, em setembro deste ano. O governo esperou um rearranjo na Secretaria de Segurança para tirá-lo. A polícia apura as razões do episódio com um fator que apimenta as investigações sobre o caso. Maranhão é casado com uma sobrinha do vice-governador Tadeu Filippelli (PMDB), ligação que alimenta a tese de alguns integrantes do governo de que o vice teria interesse na cassação do mandato de Agnelo Queiroz.

Filippelli nega fazer parte de qualquer conspiração para atingir Agnelo. Pelo contrário, em conversas reservadas, insiste que essa tese é absurda e que a queda do governador poderia lhe prejudicar frontalmente, uma vez que ele passaria a ser a vidraça de um grupo de políticos e empresários que estaria armando para tomar o governo de Agnelo e voltar ao poder. Nos bastidores, Filippelli sustenta que o melhor dos mundos é a parceria vitoriosa nas eleições perdurar até 2014.

O Correio tentou fazer contato com Gilberto Maranhão, mas não localizou o delegado. O chefe da Casa Militar, coronel Leão, não quis comentar o teor do depoimento à Decap. Confirmou, no entanto, que o caso está sob investigação policial. “Seria precipitado emitir juízo de valor sobre os episódios”, limitou-se a dizer. A reportagem procurou também o tenente-coronel Renato Costa, mas ele não foi localizado.

Lilian Tahan para o Correio Web

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