Alunos da área rural de Ceilândia enfrentam dificuldades para ir à escola

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[Jornal de Brasília] Sob uma
densa cortina de poeira, alunos têm de caminhar por até cinco quilômetros para
chegar à escola. A estrada de terra batida dá acesso à única unidade
educacional da região do Incra 9, em Ceilândia, onde 718 estudantes ainda enfrentam
sol, chuva e lama para receberem educação formal na região rural da capital do
país. Há quem, pelas dificuldades, desista de estudar. Também há quem use os
obstáculos para buscar por melhorias, como mostra a série os Caminhos
da Educação
, do Jornal de Brasília.
Os maiores problemas são de
infraestrutura. O alambrado que cerca a escola não impede que o tempo atrapalhe
as aulas de educação física. A céu aberto, os alunos têm de interromper as
atividades por conta da poeira, calor ou chuva que invadem o local. Há um ano,
porém, a autorização para a construção da cobertura da quadra de esportes foi
publicada no Diário Oficial do DF. Falta verba, diz o governo.

Para chegar à aula, só com
sorte ou disposição. Até existem ônibus, mas são coletivos de linha que não
passam próximos às chácaras e que dependem do passe livre estudantil – feito
pela internet, à qual muitos deles não têm acesso. Os atrasos e faltas são
constantes e, depois de cerca de uma hora de caminhada, é difícil manter a
atenção na aula.
“Qual a condição psicológica da criança estudar depois disso?
O mais difícil é a motivação dos alunos”, revela uma professora da unidade. A
luta é por ônibus escolares, mas solicitações por ofícios e memorandos não são
atendidos.

Transporte

“O nosso grande gargalo é o
transporte”, admite Fábio Pereira de Sousa, subsecretário de planejamento,
acompanhamento e avaliação da Secretaria de Educação. De acordo com ele, há
negociações com o DFTrans, já que a pasta não pode oferecer o passe estudantil
a esses alunos. A prometida cobertura da quadra esportiva também está prevista,
garante. Já aprovada pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE),
a obra aguarda recursos financeiros.

As refeições, servidas nos
intervalos das aulas, são feitas em pé: não há refeitório e, às vezes, a comida
não é suficiente. Chacareiros costumam doar alimentos para complementar. Ano
passado, a escola conquistou o cercamento da área e a iluminação pública com
emendas parlamentares. O prédio é feito de alvenaria, mas o número de salas e
banheiros não atendem a necessidade da escola.

Ajuda da comunidade

Também em 2015, vendas e
eventos garantiram a construção de três salas para manter o Ensino Médio ali. É
com ajuda da comunidade que se mantém, reforma e amplia a estrutura da escola
para evitar a perda de alunos por falta de espaço. “Se acabasse a modalidade,
os alunos iriam para escolas urbanas, mas ao longo dos anos observamos
desistências pela distância”, ressalta o diretor Márcio de Oliveira.
Faltam maiores investimentos

Aos 17 anos, um estudante tem
na pele as marcas das dificuldades. O rosto queimado pelo sol evidencia o
trajeto diário que precisa fazer para frequentar o 9º ano do Ensino Fundamental
no CED Incra 9. “Ônibus tem, mas não chega até as escolas. Ficam presos nas
garagens do governo”, reclama. “É um dos problemas, mas também falta asfalto, o
espaço é pequeno para tantos alunos. Os problemas são muitos e os
investimentos, poucos”, emenda.

O estudante entende que é
justamente com educação que poderá mudar a história da família. Os pais, que
concluíram o 5º ano, são analfabetos funcionais. Ele, pela manhã, trabalha no
campo para ajudar em casa. “É bem desmotivador. Tenho muitos colegas que saíram
para o crime. Eu já me envolvi com isso, mas me conscientizei. A injustiça e a
desigualdade, imensas, são o que desmotivam”, desabafa.

“A escola rural não é tão
vista. Muitos nem sabem que existe”, simplificou o diretor Márcio de Oliveira,
professor há 18 anos, que enfrenta na unidade problemas similares às outras 77
escolas rurais do DF. “Existe um projeto de reformas desde 2010 para construção
de seis salas, do refeitório, aumento da cantina e dos banheiros. Estamos
aguardando há seis anos”, revela.

Jéssica Antunes – Jornal de
Brasília

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