Após superar quase 30 cirurgias, artista sonha criar centro cultural em Ceilândia

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[Jornal de Brasília] Após ter a morte dada como
certa por um médico, uma atriz amadora do Distrito Federal tem provado que a
projeção estava errada ao continuar firme na luta contra uma doença renal
crônica. Aos 36 anos, Célia de Oliveira já fez 29 cirurgias e ficou internada 40
vezes. Contabiliza duas paradas cardiorrespiratórias e sobrevive com apenas um
rim. Detalhe: o que restou funciona parcialmente – somente 20%. O desgaste
físico e emocional foram incapazes de afastá-la do grande amor da vida dela: o
teatro. Foi a paixão pela arte, inclusive, que a motivou a criar junto com
amigos o projeto cultural ‘Cia de Teatro Art Vida’, em Ceilândia.

“Sinto dores nas costas e
tenho infecções urinárias desde pequena. Fazia exames e nada era detectado.
Como era gordinha, achava que a culpa era do peso. Levei uma vida normal até os
24 anos, quando descobri uma pedra de seis centímetros no rim direito e outras
menores, no esquerdo. Na época, trabalhava normalmente como professora e tive
que fazer a primeira cirurgia”, conta Célia.

Segundo a atriz, que também é
formada em pedagogia, o procedimento cirúrgico não surtiu efeito e o problema
logo agravou. “Foi só o começo… Vieram depois múltiplos cálculos [renais],
repetidas infecções. E como os rins estavam parcialmente tampados, começaram a
me operar a cada quatro meses. Eu usava um cateter, entre o rim e a bexiga,
para evitar algo pior”.

O tratamento não avançou e
Célia, em 2005, foi afastada do trabalho em uma escola para alunos com
necessidades especiais na Asa Norte. Seis anos depois, recebeu a notícia de que
o rim direito havia atrofiado. Após dez meses, o órgão parou de funcionar. A
paciente ficou com o corpo inchado e sem urinar durante cinco dias. Não teve
escolha: teve de retirar o rim e uma costela. Ficou entre a vida e a morte. Um
exame de sangue para medir a função renal chegou a registrar nível 14 vezes
acima do recomendado.

“Fiz várias sessões de hemodiálise
e por milagre, o nível de creatinina no meu sangue abaixou mais que a metade.
Daí, continuei o tratamento em casa. Porém, ao repetir os exames por três meses
seguidos, fui diagnosticada com insuficiência renal crônica e alertada a
receber um transplante imediatamente”, relata Célia Oliveira.

A brasiliense foi encaminhada
ao Setor de Transplantes do Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), onde
foi novamente pega de surpresa ao ser informada que não poderia substituir o
rim afetado, aquele que mantém 20% de função, pois morreria antes mesmo do
término da cirurgia. O 28º procedimento cirúrgico da paciente foi no ano
passado. O rim que sobrou foi aberto para corrigir o ureter – tubo que
transporta a urina dos rins para a bexiga – que estava colado. Alteraram a
anatomia do órgão para tentar mudar também o funcionamento dele. Como
resultado, enfrentou complicações pós-operatórias devido a ruptura de vísceras
e à inflamação de um apêndice. Para não entrar na sala de cirurgia de novo em
tão pouco tempo, pois seria arriscado, ficou cinco noites sem dormir acamada em
leito de UTI, queixando-se de dores a todo momento.

“Voltei para casa com a
certeza de que voltaria em breve. Não deu outra! Piorei novamente e retornei ao
hospital. Foi necessário operar mais uma vez: a 29ª cirurgia no currículo.
Ainda ouvi de um médico a seguinte frase: ‘você é o tipo de paciente que
profissional nenhum quer levar para a mesa de cirurgia por causa dos riscos’.
Felizmente, deu tudo certo”, comenta Célia, aliviada.

Caso “acima da média”

O nefrologista Mario Ernesto
acompanha o caso da atriz há mais de 10 anos. Ele diz ter atendido pacientes
com quadros similares, mas enfatiza que a situação de Célia é acima da média.
“Ela tem um quadro de litíase renal, com formação de vários cálculos que
levaram a repetidas infecções urinárias e ainda a perda de um rim. A atividade
dela [a frente de um projeto social] é grande. Ela tem muito valor por
conseguir realizá-lo com as dores que sente”.

Célia afirma ter ficado com
sequelas a ponto de ficar dependente de medicamentos, como morfina, por
exemplo, para tentar amenizar as dores no dia a dia. A maior parte do tempo,
fica em repouso, deitada em uma cama cheia de travesseiros e com uma bolsa
térmica grudada ao corpo. O cômodo ganhou até o apelido de “quarto da guerra”.
Para movimentar e relaxar os músculos, Célia procura manter uma leve rotina de
exercícios a cada trinta minutos enquanto acordada. Quando as dores dão trégua,
dá um jeito de contracenar nem que seja rápido ou trata de colocar a ‘mente
para criar’: é autora de 40 roteiros de peças pantomimas – quando a expressão
corporal dita a apresentação – e de mais quatro textos voltados ao público
infantil. Um dos sonhos da brasiliense é transformar as histórias para crianças
em livros.

“Meu corpo hoje é meu maior
troféu. Me assustei com as primeiras cicatrizes, chorei, fiquei chocada. Mas
nunca tive problemas de autoestima. Levo cada hematoma, cada marca, como uma
vitória. Eu tenho orgulho, sabe”!?

Grupo de Teatro

Em meados de 1994, Célia e um
grupo de jovens de uma igreja criaram a Cia Art Vida. A sigla vem de amando,
resgatando e transformando vidas. A moradora de Ceilândia ainda era adolescente
e nem cogitava sofrer de problemas nos rins. Conforme o tempo passava, o
projeto ganhava novas dimensões: apresentações com temáticas sobre aborto,
bullying, drogas, política e até respeito à diversidade foram expandidas para
casas de recuperação, creches, escolas, hospitais e orfanatos. Sempre de forma
itinerante. Pelo menos, por enquanto.

O marido da atriz é técnico em
Eletrônica e responsável pela sonoplastia das atrações. Ele, ao receber uma
indenização em decorrência da morte da mãe em outubro do ano passado, decidiu
investir o dinheiro na compra de um terreno na chácara 85 do Sol Nascente, em
Ceilândia. No lote, já existia uma casa, que, até hoje, continua alugada. A
área dos fundos, então vazia, deu espaço a um salão de 90m², que abriga a sede
da companhia, formada oficialmente por 10 integrantes, além de voluntários. Até
o momento, o lugar serve de depósito para doações de alimentos, brinquedos,
roupas e móveis. O material recolhido é doado a cerca de 50 famílias da região.

“Além de ajudar as pessoas,
quero tornar esse lugar num verdadeiro centro cultural. Queremos dar aulas de
teatro, de dança, música e de inglês e francês. Mas antes é preciso ajustar
alguns pontos. Não temos, por exemplo, cadeiras suficientes para realizar as
oficinas. Temos apenas três. Por isso, estamos pedindo doações”.

Sonho compartilhado 

Casado com a atriz há seis
anos, Maurício de Oliveira não apenas ‘abraçou’ os sonhos da esposa, como
enfrentou quem foi contra ao relacionamento do casal. “No início do namoro, ela
tinha crise renal quase todos os dias. Ao menos, três vezes por semana tinha
que levá-la para o hospital. Teve uma consulta em que o médico chegou em mim e
perguntou se eu pretendia me casar com a Célia. Eu disse ‘sim’ e o doutor na
mesma hora me orientou a não fazer isso, pois, segundo ele, a minha mulher
morreria em breve. Eu respondi que pediria a mão dela mesmo assim porque
acredito em milagres”, relata Maurício, orgulhoso.

O casal e os amigos prometem
seguir com a missão de levar alegria e cultura aos mais carentes, por meio, de
apresentações, oficinas de teatro e também doações. Quem quiser conhecer de
perto o projeto, o espaço fica localizado no conjunto ‘P’ da chácara 85 do Sol
Nascente – lote 1, em Ceilândia.
*Informações Andrei Helber do Jornal de Brasília

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