Camelôs driblam fiscalização e faturam durante a troca de turno dos agentes em Ceilândia

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Entre as 12h e as 14h, as calçadas ficam repletas de produtos comercializados por eles. A maioria tem espaço demarcado


Publicação: 18/04/2011 07:00 Atualização: 17/04/2011 21:53

Próximo à Feira Permanente de Ceilândia, os ambulantes se articulam para que um não ocupe o lugar do outro. Eles distribuem até cartões de visitas (Monique Renne/CB/D.A.Press)
Próximo à Feira Permanente de Ceilândia, os ambulantes se articulam para que um não ocupe o lugar do outro. Eles distribuem até cartões de visitas



São 11h45 e a praça do centro da Ceilândia, próxima à Feira Permanente, na Avenida Hélio Prates, se enche de vendedores ambulantes. A montagem é rápida e as calçadas ficam repletas de DVDs piratas. Os variados títulos estão espalhados em cerca de 20 aparatos com as cópias dos vídeos que são erguidos formando corredores por onde circulam os apressados clientes em horário de almoço. Meias, bolsas, bijuterias e aparelhos eletrônicos, como celulares, também são expostos em outros espaços, somando mais de 30 pontos irregulares de venda. Os ambulantes aproveitam cada minuto, das 12h às 14h, para lucrar. A ação é baseada em uma falha da fiscalização.

É nesse mesmo horário que é trocado o turno de trabalho na Agência de Fiscalização do DF (Agefis)e, portanto, a ação de monitoramento dos agentes é minimizada. “Quando vai dando perto das 14h, já é bom ficar esperto porque os caras (fiscais) chegam aí”, diz um vendedor ambulante, sem saber que conversa com a reportagem do Correio. As duas horas de ilegalidade “garantidas” podem se prorrogar um pouco mais, dependendo da programação da fiscalização, que é feita em forma de rodízio dos profissionais. “Às vezes, eles só chegam aqui às 15h, tem dia que vêm antes, varia muito”, completa o mesmo autônomo, enquanto oferece um DVD pirata a R$ 3 a unidade, ou a R$ 5, dois exemplares.

A movimentação é diária e os pontos, fixos. Um ambulante é proibido de invadir o espaço de outro mais antigo na região. Tanto que, nos cartões distribuídos aos clientes, a localização do vendedor é revelada, tendo como referência a loja em frente à qual as vendas ocorrem. “Se o DVD não funcionar, volta aqui amanhã que eu troco, tô sempre aqui”, garante uma vendedora a um comprador. Os nomes estampados nos cartões, na maioria das vezes, revelam os apelidos pelos quais os ambulantes são conhecidos na região.

Opiniões divididas

O comércio ilegal divide opiniões de quem trabalha nas grandes lojas próximas. Quem comenta o assunto, no entanto, tem receio de se identificar. “Visualmente, não é bonito. Aqui todo mundo detesta eles. Mas, para as nossas vendas, até que é bom, a pessoa vem comprar uma bolsa aqui na frente, eu acabo oferecendo um produto e fechando um negócio”, diz o vendedor de uma das lojas da comercial.

A oferta de produtos é grande: vai de DVDs piratas a bolsas e roupas (Monique Renne/CB/D.A.Press)
A oferta de produtos é grande: vai de DVDs piratas a bolsas e roupas

Quem trabalha na região confirma a ação dos autonômos e a falta de fiscalização no horário do almoço, justamente o período de tempo em que mais pessoas circulam pelas imediações. “Os fiscais passam todos os dias aqui, em diferentes horários. Tem fiscalização sempre. Mas na hora do almoço, eu nunca vi”, conta o vendedor de uma grande loja de eletroeletrônicos ao lado da praça. O gargalo na fiscalização também é assumido pelos fiscais da Agefis. “Na hora do almoço, realmente é mais complicado, devido às nossas escalas. É um problema que a gente tem. Além disso, o baixo efetivo de fiscais atrapalha a cobertura completa de todos os pontos o tempo todo. Precisamos de mais profissionais”, confirma um fiscal que atua na área. 

De acordo com o diretor de Operações de Fiscalização da Agefis, Cláudio Caixeta, o intervalo entre as 12h e as 14h é utilizado para a troca de turnos na agência. “Tanto a fiscalização como o policiamento militar trocam os turnos nesse horário, por isso a maior movimentação de ambulantes nesses pontos. Estamos verificando a atuação dos autônomos, fazendo um estudo e alternando o horário das abordagens”, afirmou Caixeta. Ainda de acordo com o diretor, a fiscalização nas áreas é realizada diariamente. “Desde 2007, não existe mais aquela ocupação constante de autônomos no DF. Ambulante tem em todo lugar, mas o importante é não deixar que ele ocupe o espaço definitivamente. Manter os camelôs longe das ruas é a parte mais onerosa, a mais difícil, e estamos conseguindo cumpri-la”, avaliou Caixeta.

Mudança desde 2008 Até 2008, a paisagem da área central de Brasília era marcada por camelôs e vendedores ambulantes. O comércio ilegal se espalhou pelos setores comerciais e bancários Sul e Norte. Mas a maior concentração de barracas era na região do antigo Gran Circular, ao lado da Rodoviária do Plano Piloto. O Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Federação do Comércio do DF pressionaram o GDF pela remoção dos comerciantes ilegais. Mas, diante das reclamações dos ambulantes, o governo postergou a retirada até a conclusão da obra do Shopping Popular, ao lado da Rodoferroviária. Com os novos pontos, o Executivo local promoveu uma varredura em áreas consideradas tradicionais pela exploração dos informais e os reposicionou nos espaços, alguns dos quais não vingaram. Ainda em 2007, a desocupação das calçadas de Ceilândia, por exemplo, tornou-se modelo de sucesso do governo local para a erradicação das bancas irregulares.

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