Ceilândia em alta no cinema.

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Ricardo Daehn


Cena do filme A cidade é uma só?: a Ceilândia sob o olhar de Adirley Queirós

Com o longa A cidade é uma só?, o cineasta Adirley Queirós arrematou o principal prêmio da 15ª Mostra de Tiradentes

Fosse o cineasta Adirley Queirós um cara vingativo, ele estaria por
cima da carne seca: como sentiu desrespeito, no tratamento reservado aos
diretores, no mais recente Festival de Brasília do Cinema Brasileiro,
preferiu retirar o longa A cidade é uma só? da Mostra Brasília. Deu o
destino as suas voltas, e, pronto: o filme, exibido na 15ª Mostra de
Tiradentes (Minas Gerais), levou o prêmio principal, despertando
representantes da curadoria de eventos fílmicos como Cannes, Veneza e
San Sebastián (Espanha).

“Abriu portas que a gente ainda nem tem noção”, comemora o
“autêntico ceilandense” (nascido, na verdade, em Morro Agudo de Goiás).
“Foi um filme que explodiu na tela. A coisa mais fantástica que já vivi.
Algo parecido com a repercussão do curta Rap, o canto da Ceilândia,
quando parou o Cine Brasília, na época. Fui aplaudido, em Tiradentes,
por 800 pessoas do festival mais crítico do país”, observa o diretor de
41 anos.

Um ponta de vaidade aflora — ou melhor, de pertencimento, quando
Adirley percebe que “a crítica começa a falar que existe um cinema
diferente em Ceilândia, em relação ao cinema de Brasília”. Explica-se: A
cidade é uma só? se atém a dado verídico, de cisão, “no filme, há a
música tema que retirou Ceilândia de Brasília. Jogaram as pessoas para
cá (Ceilândia), expulsaram”, como ele diz.

Alheia ao contexto socioeconômico da medida do governo, nos anos
1970, em que “crianças foram recolhidas em escolas públicas para
integrar um coral que, pelo canto, deu base para aliviar a remoção”, uma
menina acalentou o sonho de projeção, por meio da música. Nancy Araújo,
do grupo Natiê, era a criança que agora dá depoimento para a fita de
Adirley Queirós. Num misto de ficção e realidade, entram em cena os
atores Wellington Abreu (do Hierofante) e Dilmar Durães. Feito pelo
rapper Marquim (do grupo Tropa de Elite), um personagem marqueteiro
completa a trama de A cidade é uma só?.

“Crio aquela confusão nos espectadores sobre quem são os atores”,
explica, ao falar da trama que tem de candidato a distrital passando por
corretor de lotes na periferia e apropriações fictícias de documentos
verdadeiros. “Com o filme mostrado em Tiradentes, houve demanda muito
grande de pessoas interessadas, lá fora. Para circular, vou ter que
colocá-lo no suporte de película”, explica Queirós, em torno da produção
que derivou de um projeto para a tevê (em edital que ofertou R$ 400
mil). Um ano e meio depois da fagulha inicial da fita, a perspectiva é a
de que a versão abreviada seja exibida, via TV Brasil, em canal aberto,
no aniversário de Brasília (em 21 de abril).

Tarantino

Atualmente, Adirley Queirós se aplica ao documentário (com pegada
irreal) Branco sai, preto fica, em torno do popular baile Quarentão, uma
referência da noite dos anos 1980. “Não será tão histórico, já que vai
ter até ficção científica. A gente vai apostar na estética. A história
traz pessoas amputadas que fazem o percurso de futuro para o passado”,
adianta. Algo de Quentin Tarantino? “Não sei bem se é meu Tarantino.
Centralizarei mais em perdas físicas, em pessoas, por exemplo, com
pernas mecânicas que queiram reconstruir, buscar recuperação. Será uma
metáfora de momento histórico, da amputação cultural de uma cidade. A
minha geração foi amputada, em termos de valores de identidade”, pontua.

Saído de uma área rural próxima a Brazlândia, em 1977, Adirley
Queirós chegou a Ceilândia, onde atua como agitador cultural, vez por
outra, patrocinado pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC), “um privilégio
para a classe artística do DF, em termos de política pública”. Uma meta
para 2012 é a oficina, com duração de quatro meses, voltada a 20
ceilandenses interessados em formatar roteiro experimental.

No plano da cena cultural local, “um acúmulo histórico” incomoda o
diretor: “Temos a necessidade de uma sala pública de cinema, em
Ceilândia. Como a gente pode se conformar com o fato de um perímetro
urbano que abriga Ceilândia, Samambaia, Águas Lindas e Santo Antônio do
Descoberto não ter uma sala de cinema? Até temos o espaço do Sesc, mas
que não passa filme aqui — passa uma mostra, de vez em quando”. Nos
últimos cinco anos, aliás, a bandeira de um espaço para escoar a
efervescência de “atores, diretores, músicos e escritores” tem sido uma
constante. “O espaço público é intocável, e deve ser gerido pelo
público”, conclui.

“Temos a necessidade de uma sala pública de cinema, em Ceilândia.
Como a gente pode se conformar com o fato de um perímetro urbano que
abriga Ceilândia, Samambaia, Águas Lindas e Santo Antônio do Descoberto
não ter uma sala de cinema?”

Adirley Queirós, cineasta

Polêmica em casa

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Nancy Araújo, protagonista de A cidade é uma só?, à frente de Adirley Queirós

» Quando o assunto é a polêmica que ocasionou a retirada do longa A
cidade é uma só? da Mostra Brasília do Festival de Brasília do Cinema
Brasileiro, o diretor Adirley Queirós (foto) não contemporiza: “Não bato
de frente, no sentido revanchista, mas a gente tem que debater a
política de cultura de forma franca”. Remexido o regulamento do “maior
patrimônio de Brasília e dos festivais de cinema, no Brasil”, na ótica
de Queirós, o resultado não lhe agradou.

Quando falaram em popularizar as exibições — com projeções no
Entorno —, o artista se sentiu “empolgadíssimo”. “Mas, mudar quase toda a
estrutura da festa, sem uma discussão ampla com a classe?”, questiona. O
emagrecimento das premiações para profissionais técnicos “justo quem
mais precisa de incremento”, incomodou. “Os caras do filme grande, que
levam prêmios; de cara, têm uma publicidade gratuita de pré-estreia”,
observa.

Na visão dele, houve diálogo muito confuso entre os coordenadores da
festa e a classe cinematográfica. No acúmulo do “constrangimento
total”, a Mostra Brasília teve o peso definitivo. Diferenciar cineastas
de longas (que teriam à disposição o Cine Brasília) e de curtas não foi
algo a lhe convencer. “Não vou fazer um filme, com todo o respeito aos
locais, para passar às três da tarde, no Museu da República, com más
condições. Prefiro passar o filme no muro da minha casa, teria muito
mais sentido: chamava os vizinhos, e passava, então”, exagera. Em meio a
tantos contrastes, em conclusão, ele dispara: “Com relação ao último
festival de Brasília, Tiradentes está dando de 10”.




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Rap, o canto da Ceilândia (2005)

» Na construção de uma cidade, a interação entre quatro artistas que
são alicerce para uma linguagem popular. “É o mais importante filme,
por ter sido o meu primeiro. Foi ele que me lançou. Fez muito sucesso e
até hoje é lembrado por muita gente”, enfatiza Queirós.

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Dias de greve (2009)

» Metalúrgicos mobilizados captam o espírito de que, talvez, a
cidade não lhes pertença. “Esse entrou muito no circuito de festivais.
Ele fortaleceu a ideia de um cinema típico de Ceilândia. As pessoas
reconheceram, finalmente, o nosso cinema”, comenta.


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Fora de campo (2010)

» Média-metragem que competiu no festival É Tudo Verdade e circulou
por países como México e Itália. “Aqui começa a fusão entre o que seja
verídico e um jogo de envolvimento meu com o grupo de atletas retratado,
que já me conhecia bem. Nas beiradas, registro quem está fora do
mercado do futebol. De cada 100 jogadores, por dados da CBF, 92 vão
acabar a carreira desempregados aos 30 anos. O filme comprova que
futebol, no Brasil, é uma ilusão”, diz Adirley Queirós.

Do Correio Web.

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