Ceilândia: A primeira tragédia não serviu de exemplo

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Basta uma chuva forte para que o viaduto da QNN 5/7, em Ceilândia, se torne intransitável. O primeiro grande alerta do perigo ocorreu com a morte da menina Geovana Moraes, de seis anos, passageira de um ônibus escolar que ficou ilhado.

Três meses depois, foi a vez de um incidente semelhante tirar a vida de Manoel Silva Júnior, 20 anos. Somente agora, depois da segunda morte, foi determinada a interdição da passagem.

Dessa vez, o acidente ocorreu por volta das 23h de terça-feira. O carro, um VW Gol prata, foi arrastado pela força da água. Dois homens que também estariam no veículo conseguiram sair, mas  Manoel  ficou preso pelo cinto de segurança e morreu no local.  
A equipe do 8º Batalhão da PM, que atende a região, viu uma cena de desespero se repetir. Os mesmos militares que atenderam Geovana fizeram o último resgate. Os nove policiais faziam ronda em uma quadra próxima ao lugar do acidente quando foram designados para o salvamento. 
De acordo com o sargento da Polícia Militar  Jaison Lima, no momento da ocorrência, a água empoçada no viaduto encobria completamente o carro e chegava a quatro metros de altura. 
Foram os policias que acionaram o Corpo de Bombeiros. “Quando chegamos, as outras duas pessoas já haviam saído, mas o Manoel, que não sabia nadar, continuava no veículo. Foi então que arrumamos uma corda, amarramos em um dos nossos homens e ele mergulhou para tentar retirá-lo”, relata.
 Segundo o sargento, o desespero do rapaz dificultou o resgate. “Ele ainda estava preso pelo cinto de segurança e, ao ser solto, ficou se debatendo e acabou sumindo na água. Só fomos encontra-lo novamente minutos depois, já desacordado”, lamenta. As equipes de resgate ainda fizeram massagem cardíaca no rapaz por 20 minutos, mas não conseguiram reanimá-lo. 
Lima conta ainda que, aproximadamente meia hora antes deste resgate, sua equipe já havia sido acionada para auxiliar   uma ocorrência similar, no mesmo local. “Retiramos um carro ilhado. Felizmente, dessa vez, sem vítimas. Mas acho que precisam fechar esse viaduto. Isso é comum ali. Essa é a segunda ocorrência com vítimas  em três meses”, alerta. 

Arma

O caso foi encaminhado para 15ª DP, que investiga um outro fato curioso:  uma pistola de calibre 32mm foi encontrada a cerca de um metro do carro. Ao que tudo indica, a arma estaria dentro do veículo, provavelmente embaixo de um dos bancos, mas, com a força da água, foi jogada para fora. A pistola foi apreendida e encaminhada para a perícia, assim como o carro da vítima.
De acordo com a Polícia Civil, “testemunhas contaram que Manoel já estaria em posse da arma bem antes de chegar ao viaduto. Porém, ainda não há comprovação de que a pistola pertencesse a ele”. O boletim de ocorrência aponta ainda que “está provado que nenhuma das pessoas que estavam no carro no momento do acidente possui porte de arma”. Os passageiros sobreviventes  devem ser convocadas para depor nesta semana.

Polícia indiciará motorista

De acordo com a polícia, o jovem de 19 anos que dirigia o veículo vai ser indiciado por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. Segundo informações da PCDF, todos os três ocupantes do carro têm passagens pela polícia por roubo, furto e uso de entorpecentes. 
A reportagem do Jornal de Brasília foi até a casa onde morava a vítima em Ceilândia Sul, no entanto, os familiares preferiram não se pronunciar sobre o caso.   

Testemunha

Uma testemunha que passava pelo local no momento do acidente foi a primeira a chamar a polícia. Jeniffer Cristine Sampaio, 19 anos, voltava para casa por volta das 22h40 acompanhada de uma amiga. Para retornar da academia, a dupla passa pelo viaduto. Foi quando as jovens perceberam que o carro estava sendo inundado. 
“Foi tudo parecido como o acidente da outra vez. O carro começou a ficar submerso e eu vi que tinham três pessoas. Todas tentavam sair, até o homem que morreu. Eu vi que ele tentou nadar, mas a água estava funda e ele se afogou”, relembra.
A estudante afirma que a dupla que estava junto com Manoel Júnior tentou puxá-lo contra a correnteza, mas a água foi mais forte e eles não conseguiram salvar a vida do jovem. “Foi um desespero. Assim que a polícia chegou, os homens já entraram na água amarrados com uma corda para tentar tirar o homem lá de dentro. Os policiais não esperaram nem um minuto e já mergulharam”, afirma.
Jeniffer ressalta que a vítima ficou submersa na água por aproximadamente meia hora. “Os amigos não tinham como salvá-lo porque a água puxava todo mundo”, diz. 

 Incontáveis problemas

 “Mas até quando problemas desse tipo vão acontecer?”. A pergunta é feita por vários moradores de Ceilândia,  após as   fatalidades dos últimos meses.  O servidor público José Eustáquio, morador da região desde 1977, conta o que vê: “Não sou especialista, mas acredito que existem dois problemas ali. Primeiro, um erro grave de engenharia. O barranco de terra – que separa uma construção  do viaduto – é muito próximo da pista. Constantemente ocorrem batidas. Mas o pior é o sistema deficiente de águas pluviais. Muitas vezes, a Novacap poda a grama e deixa por lá. Com a chuva, esses restos de planta entram nos bueiros junto com o lixo e ajudam a entupir”, avalia. 
O morador vai além: “Para completar, muitos motoristas   tentam forçar a passagem, a água entra no radiador, o carro apaga  e eles ficam ilhados. Já vi isso acontecer várias vezes, com carros, ônibus e até caminhões menores”, conta. 

Reconhecimento

Os   policiais que atenderam os dois alagamentos fatais também  se preocupam com a situação. O caso da menina Geovana ficou marcado na trajetória do sargento Jailson. Apesar da bravura e agilidade dos militares no primeiro caso, as promoções prometidas a eles    logo após o incidente  até agora não saíram. “Apenas o policial que retirou a garotinha do ônibus, Etelmo Souza,  foi promovido imediatamente, sem necessidade de sindicância. Os outros quatro aguardam o término desse processo”, conta o sargento da Polícia Militar.

Duas décadas como policial

O terceiro sargento Jailson Lima, 42 anos, é policial    há 22 anos, desde 1991.  O militar é pai de dois adolescentes, de 15 e 12 anos. Lima perdeu um filho em  janeiro de 2006, após um acidente de carro. Na época, o garoto tinha 9 anos. Na mesma ocasião morreram a irmã, o cunhado e o sobrinho do policial. A família voltava da Bahia quando o carro bateu de frente com um caminhão  perto de Cristalina (GO).

 Limpeza nos bueiros

Na manhã seguinte ao acidente que matou Manoel Silva Júnior, no viaduto em Ceilândia durante a forte chuva da última terça-feira, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) compareceu ao local, por volta das 9h30, com três caminhões Pipa. Os técnicos informaram que foram designados para fazer serviços de limpeza. 
Com mangueiras, os funcionários limparam os bueiros, retiraram o excesso da lama acumulada nas calçadas e recolheram os restos de plantas e lixo espalhados.
 

Interdição

Na tarde de ontem, pouco antes das 15h, equipes do Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) interditaram o viaduto onde ocorreram as duas mortes. A decisão foi tomada em reunião de emergência entre o governador do DF, Agnelo Queiroz, e a Novacap, a Administração Regional da Ceilândia e a Secretaria de Obras do Distrito Federal. O encontro foi provocado pela duas tragédias que ocorreram em um intervalo de três meses e pela comoção popular. 
Reconstrução
Equipes da Caesb também estiveram no local para reconstruir uma rede de água potável que abastece prédios residenciais a cerca de 200 metros do viaduto. A galeria estava comprometida. No entanto, técnicos afirmaram que os trabalhos não tinham relação com o viaduto.
 
Versão Oficial 
O secretário de Obras, David Mattos, explicou que há um problema estrutural na área do viaduto. Segundo ele, uma pesquisa feita pela pasta há alguns meses detectou que não há obstrução nos bueiros. De acordo com o secretário, o processo de licitação para  a escolha da empresa que seria responsável pelas obras já havia sido iniciado. “Só estávamos esperando a época de estiagem para iniciar as obras. Porém, diante dos últimos acontecimentos, o governador determinou que começássemos  imediatamente, utilizando recursos próprios”. 
David Mattos disse que a intenção da Novacap era construir uma nova rede de águas pluviais, paralela a existente, mas estudos técnicos mostraram que isso causaria incompatibilidade com a rede do metrô. “Entendo a preocupação e indignação da população, mas, infelizmente, esse processo de reforma é complexo e lento”, concluiu. A pasta estima que gastará algo em torno de R$ 1,7 milhão com a obra, que deve estar concluída em, no máximo, 70 dias.
Fonte: Da redação do Jornal de Brasília

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