Coordenador do MTST sofre atentado em Ceilândia.

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Eram quase 2h da madrugada de 3 de outubro quando, em Ceilândia (DF), a casa que abrigava Edson da Silva, integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), foi alvejada por tiros. “A gente apagou a luz, se jogou no chão, se escondeu no banheiro. Não conseguimos ver nada, só um carro saindo em alta velocidade”, conta Edson. Ninguém que estava dentro da casa, inclusive as crianças, se machucou.

“Ligamos para a polícia, demorou um pouco mas chegaram duas viaturas. ‘Ah, foi tiro, foi?’, eles perguntaram, vendo as balas no chão, as marcas na porta, no portão, na janela. ‘A gente não pode fazer nada porque a Civil está em greve. O que vocês têm que fazer é se proteger do jeito que der. Entrem, apaguem a luz e fiquem tranquilos’, foi o que eles disseram!”, relata a vítima do atentado, dizendo que a insistência foi inútil, os policiais se negaram a levar o caso para a delegacia para registrar o boletim de ocorrência (BO).
Procurada pela Caros Amigos, a 15ª Delegacia de Polícia de Ceilândia não soube dar nenhuma informação. “Ninguém está sabendo de nenhum atentado que ocorreu nessa madrugada”, afirmou a atendente, que não quis divulgar seu nome e pedia orientações antes de responder as perguntas. “Nem o delegado?” “O delegado não está. Não tem como falar não. Ninguém que está aqui estava no plantão da madrugada então não sabem”. Questionada sobre quando seria possível falar com o delegado ou algum policial presente no plantão, ela afirmou que, caso seja possível, só no domingo. “E em que situação é possível registrar uma ocorrência?” “A polícia está em greve, então só fazemos BO em caso de flagrante ou crime grave”. “E tentativa de homicídio é crime grave?” “É crime grave, sim senhora”.
Pouco depois que as viaturas se retiraram do local, sem nada fazer, Edson da Silva saiu da casa e permanece escondido em outro lugar. Um carro ainda passou lá uma vez mais e disparou dois tiros.
Constância de atentados
Essa já é a terceira vez que tentam tirar a vida desse militante do MTST. A primeira foi em Brasilândia, na própria casa de Edson, há dois anos atrás. “Cortaram o cadeado da garagem com tesoura, eu estava sozinho, me encontraram no corredor fugindo, deram 18 tiros na minha direção, um pegou no meu peito de raspão, outro de raspão no pé. Machuquei o rosto também tentando fugir, consegui pular para o vizinho e eles saíram de moto”, afirma. Dessa vez o BO não foi feito por receio de recorrer à polícia.
O outro episódio foi no ano passado, na estrada Incra 9, por volta das 2h. “Um carro começou a me seguir, eu estava de moto e acelerei. Quando estava chegando numa rotatória, jogaram o carro para cima de mim. Eu caí no canteiro e eles não conseguiram passar por cima. Foram embora”, diz. Nesse caso o BO foi feito, mas a polícia registrou como “acidente de trânsito”.
Mandantes
A respeito dos principais incomodados com as ações do MTST no Distrito Federal, Edson da Silva responde sem hesitar que são os interessados na especulação imobiliária. “Tem muita cooperativa de moradia que é base de deputado, as construtoras e empreiteiras também. Tem a questão do Roriz [Joaquim Domingos Roriz, ex-governador de Brasília, acusado de corrupção, atualmente do PSC] que se apropria de terras e as troca para se beneficiar política e economicamente. O governo do estado também se incomoda bastante com a gente, porque o enfrentamos diretamente. Eles já quebraram muitos acordos com o MTST, inclusive cortaram recentemente bolsa-aluguel que havíamos conquistado para as famílias”, critica.
“Não dá para saber quem são os mandantes desses atentados, porque o enfrentamento do MTST é com muitos setores”, constata, e afirma que ao menos outros quatro militantes vêm sofrendo ameaças de morte.
Enquanto vigorava a ocupação do MTST na Ceilândia, o “Novo Pinheirinho”, que começou em 21 de maio, os militantes já perceberam a presença de alguns carros que ficavam do lado de fora da ocupação. “Quando acabou o acampamento sempre que a gente fazia assembleia esses carros apareciam. Chegamos a tirar fotos e até divulgar. Tinha um carro prisma, por exemplo”, narra. Chegaram a se aproximar dos carros, perguntar quem eram as pessoas lá dentro. “Policiais civis”, responderam, “Estamos dando proteção”. “Mas a gente não pediu proteção policial, quem deu a ordem?”, questionaram os integrantes da ocupação, os quais foram respondidos que polícia não tem que justificar ordens para ninguém.
“Daqui eu não saio”
“Tá complicada a situação. Não sabemos quem é autor dos atentados, a polícia não investiga, não registra nada. Estamos pensando em entrar no Ministério Público”, expõe Edson, para quem a denúncia do que se passa é atualmente o mais importante. “Precisamos proteger nossos militantes. O MTST não vai parar, vamos fazer ato, novas ocupações. Vamos continuar lutando e eu já adianto, que daqui eu não saio, vou continuar lutando com as famílias do DF, que a situação daqui está terrível”, salienta: “Não é com bala que se cala o movimento popular”.
Por Gabriela Moncau

Caros Amigos

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