Crônica: “É o retrato de Brasília”

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Turista, peguei o ônibus de dois andares para um tour pela cidade. Éramos 15 os passageiros, alguns de língua inglesa, outros que me soaram alemães e alguns brasileiros. É um roteiro restrito — percorre o Eixo Monumental Leste e parte do Oeste, vai até a Ponte JK, para na Catedral, na Praça dos Três Poderes e no Alvorada. Despreza as superquadras — a melhor das formulações de Lucio Costa, a Igrejinha, o Eixão e, mais que imperdoável, passa duas vezes pela Plataforma Rodoviária, sem fazer nenhuma referência à genial obra de arquitetura e urbanismo de doutor Lucio, do mesmo modo que menospreza o cruzamento dos Eixos, o ponto seminal de Brasília. 


O Plano Piloto continua inequivocamente moderno, mas está velho, maltratado — ou como grita o morador de rua, a bordo de um carrinho de supermercado, numa tesourinha próxima à Torre de Tevê: “É este o retrato de Brasília”, apontando para si mesmo. O sistema de som informa ao turista que Brasília “é a mais importante experiência urbanística do século 20”. Não exagera. Mas resume as qualidades urbanas da capital às “largas avenidas e à qualidade de vida”. Nada mais vago, porém repetido em três idiomas, português, espanhol e inglês. 

Do andar superior do ônibus, Brasília exibe seu mais potente cenário: o céu majestoso, os vazios imponentes, o sistema viário que predomina sobre a escala humana — tudo se impõe sobre o tamanho do corpo humano. 

Ainda o desprezo à Rodoviária: não deve ser fácil enaltecer as incríveis qualidades urbanísticas e arquitetônicas da obra de Lucio Costa. O amontoado de ônibus, o aspecto maltratado da plataforma, a aparência de feira livre misturada com terminal de coletivos de periferia, tudo isso pode/deve ter impedido ao autor do texto exaltar da edificação que é ao mesmo tempo via, cruzamento de vias, praça, centro comercial e marco zero da capital. 

Para o gosto dessa turista, o momento de maior enlevo do passeio é a chegada ao Palácio da Alvorada. O sol bate de frente nas dez colunas (seis inteiras e quatro metades) do edifício e realça a brancura do mármore e o azul das vidraças. Por sorte, nuvens cobrem o extenso gramado e o palácio flutua no cerrado, como queria Niemeyer. É um edifício, mas é uma aparição. 

O mesmo sol impudico intimida os turistas na Praça dos Três Poderes. Alguns ficam dentro do ônibus, mas a maioria se dispõe a enfrentar a acidez solar para as fotos de praxe — diante do Palácio do Planalto, tendo o Congresso ao fundo. Ninguém presta atenção no Espaço Lucio Costa — que está fechado para reforma, segundo uma informação em papel grudado no vidro. Não há prazo estibulado para a reabertura do espaço.   

Não há nenhuma manifestação evidente de espanto durante todo o percurso. A Catedral e a Ponte JK mobilizam as máquinas fotográficas com um pouco mais de interesse. O tour termina, duas horas depois, e deixa nesta passageira a sensação de ter visto um retrato esmaecido do Plano Piloto, seja pelo roteiro incompleto, sejam pelas informações também incompletas, seja pelo aspecto envelhecido e abandonado da cidade patrimônio da humanidade. 

Blog da Conceição

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