DF conta com equipamentos modernos para identificar temporais.

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Distrito Federal conta com equipamentos modernos para identificar temporais, mas não dispõe de sistema para comunicar os moradores das 26 áreas de risco. Defesa Civil reconhece falha, mas alega não termos problemas tão graves quanto o Rio de Janeiro


Publicação: 17/01/2011 07:57 Atualização: 17/01/2011 10:58

O Distrito Federal não tem um sistema de alerta preventivo de temporais instalado formalmente em seu território. Se, porventura, for detectado pelos órgãos de meteorologia a iminência de uma chuva forte na região, a televisão, o jornal impresso, o rádio e a internet serão os principais meios usados pela Defesa Civil para avisar a população dos perigos. Problema para quem reside em uma das 26 áreas de risco da unidade da Federação e não tem acesso a essas fontes de comunicação.

As previsões sobre o tempo no DF ficam a cargo do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que, em casos de chuvas atípicas, que incorram em riscos à população, repassa as informações a órgãos como a Defesa Civil. Os comunicados, nomeados tecnicamente de Avisos Meteorológicos Especiais, são encaminhados às entidades via fax e e-mail. No segundo caso, a distribuição segue a inúmeros organismos. “Só mandamos esses alertas quando há justificativa para tal. Quando isso é feito, praticamente afirmamos que pode ocorrer algum desastre”, ressaltou o meteorologista Manoel Rangel, do Inmet. “Hoje, por exemplo, passei seis desses boletins informando que nas regiões de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Ilha do Marajó, Amapá e Amazonas há previsão de chuva moderada a forte, com trovoadas e rajadas de ventos ocasionais”, contou Rangel, em entrevista na quinta-feira.

Ainda segundo o meteorologista, não há motivos aparentes a população do DF se preocupar. Nos próximos dias, é prevista muita nebulosidade e pancadas de chuva, mas nada que possa causar danos e estragos. Situação diferente da que ocorreu na região serrana do estado do Rio de Janeiro, em que uma forte chuva deixou vários mortos em cidades como Teresópolis e Petrópolis, semana passada. O Inmet e o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec) enviaram um alerta sobre chuvas fortes às 16h23 de 11 de janeiro, mas esse foi ignorado pela Defesa Civil local.

Em alerta
A meteorologista Odete Marlene Chiesa, também do Inmet, afirma que os moradores do DF não podem se descuidar. “As pessoas, a princípio, precisam ficar de sobreaviso. Há boletins que estamos emitindo parecidos com o que enviamos ao Rio. Na Vila Rabelo II, por exemplo, onde é área de risco, chuvas acompanhadas de vento podem causar transtornos para a população”, justificou a especialista.

Todas as regiões listadas pela Defesa Civil como áreas de risco no DF têm um fator em comum: a ocupação desordenada. Muitas vezes, ela pode estar associado à baixa renda das famílias. E, algumas delas, apesar de saberem que ocupam pontos problemáticos, resistem a deixar os locais quando acionadas pelos órgãos de prevenção. “A Defesa Civil não tem o poder de retirada. Ela pode analisar o risco e determinar os locais que devem ser evacuados, fazendo a interdição da residência. Em caso de resistência, temos que acionar outros órgãos, como a Polícia Militar e a Secretaria da Ordem Pública e Social (Seops)”, alegou o gerente de Minimização de Desastres da Defesa Civil, capitão Hélio Maurício de Carvalho.

Diferenças
Apesar de achar que é de “inegável importância” criar no DF um mecanismo concreto de alerta à população, o capitão Carvalho esclarece que os meios usados atualmente funcionam bem. “Há diversos sistemas de alerta que a bibliografia menciona, como os usados na usina de Angra dos Reis (RJ), onde a situação é permanente. É o caso de carros de som, rádio local, sirenes em pontos estratégicos da cidade. No DF, contudo, não há uma situação permanente”, ponderou. “A pretensão da Defesa Civil não é de manter as áreas de risco, muito pelo contrário. Por isso mesmo que não vamos precisar desse tipo de sistema de alerta e alarme. Estamos fazendo um esforço muito maior para retirar essas pessoas dos locais comprometidos. Isso pode ser mais fácil que desenvolver um sistema de comunicação para tal”, completou reitera.

Para Carvalho não se pode fazer uma comparação pura e simples entre o DF e o Rio de Janeiro. “As realidades são distintas. O tipo de ocupação é diferente, o tipo de solo não é semelhante. O único local em que podemos estabelecer um elo com o Rio é a Vila Rabelo II. Mas não por conta das características da terra e sim por conta do tipo de ocupação humana”, ponderou. “De qualquer forma, tivemos um período de chuva durante duas semanas e não houve nenhum desastre. Nosso papel é manter a população informada, não causar pânico”, arrematou.

Classificação
A Defesa Civil classifica as áreas de risco em três modalidades: baixo, médio, alto e muito alto. Ao todo, 12 áreas no Distrito Federal estão incluídas na terceira modalidade.


Removidos para o perigo

Há mais de três anos foi criado ao lado da Quadra 11 do Varjão, um assentamento, que na verdade é um emaranhado de barracos de madeirite localizado na encosta de uma das montanhas de circunda a cidade. O lugar está relacionado pela Defesa Civil entre as regiões onde é muito alto o risco de desastres. Mas para lá a auxiliar de cozinha Mariana Gomes da Silva, 29 anos, foi transferida com os seis filhos, pois a casa onde moravam, em outro ponto do Varjão, também estava condenada por risco de desabamento. Quando está trabalhando, Mariana monitora por telefone a situação dos filhos, da mãe e da irmã, que também moram no barraco de seis metros quadrados. “Digo a eles que saiam de casa se a chuva ficar forte demais”, contou. A água das chuvas fez apodrecer alguns tapumes que fazem as vezes de parede, abrindo fendas na estrutura.

A auxiliar de cozinha conta que nunca foi notificada por um órgão do poder público sobre o perigo da região. “Só ficaremos sabendo quando o pior estiver acontecendo”, disse. Mariana acompanha a tragédia das cidades fluminenses destruídas pela chuvas e tem motivos para temer o pior: uma irmã mora na região atingida e até agora a família não tem notícias dela. “Minha mãe está desesperada, não sabemos nada. Meu maior medo é que uma coisa dessas acontece aqui, principalmente à noite. Vai que esse morro cede e mata todo mundo?”

Encosta
Há seis anos, nove integrantes da família Ferreira, incluindo uma criança de quatro meses, vivem em uma casa no Alto Bela Vista, morro da Fercal, em Sobradinho II, também classificado como área de vulnerabilidade muito alta pela Defesa Civil. O imóvel de alvenaria é colado à encosta da montanha. Na pequena varanda onde Adriana, secretária de 20 anos, e seis de seus familiares conversaram com o Correio, a vegetação e a terra da encosta estão ao alcance das mãos. Para chegar à casa, é preciso descer à pé uma ribanceira bastante íngreme. “Quando nos mudamos para cá, ninguém nos disse que essa é uma área perigosa”, ressaltou Adriana. A lembrança que Tainara, 15 anos, tem da presença do Estado na região são homens do Exército inspecionando casas em busca de focos do mosquito transmissor da dengue.

Entre os vizinhos, sim, os perigos são comentados. “O pessoal fala entre si, diz que é perigo”, contou Nelci, empregada doméstica, 35 anos. Até hoje, os temporais não perturbaram a paz na casa. As cascatas com águas pluviais que se formavam na ribanceira foram contornadas com a implantação de manilhas. “A água agora tem caminho certo para percorrer”, comentou Almir, 21 anos. Mas a possibilidade de um desastre ocorrer sem que um aviso prévio seja dado atormenta a família. “Poderiam passar aqui para fazer a avaliação do risco”, sugeriu Adriana. Questionados sobre a possibilidade de mudar para um endereço mais seguro, os moradores da casa relutam. “Por enquanto, graças a Deus, nada aconteceu. Gostamos de morar aqui.”

A Secretaria de Defesa Civil do DF informa que foram raros casos em que foi pedido evacuação das casas antes de a chuva cair. No banco de dados da entidade não há estatística concreta que faça referência a isso.

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