Dona do Diáspora Tattoo, em Ceilândia, tatuadora trabalha com temática africana e só tatua peles negras

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A grande deusa africana Oyá é conhecida por ser rainha dos ventos: ora
suave como a brisa, ora poderosa como um ciclone. Ela é a mulher que, como
conta a mitologia africana, derruba a porta velha com um machado para abrir
novos caminhos. Assim também é a tatuadora Karoline Portelo
“Kalibre”
, de 27 anos. 



Ela é quase filha de Oyá: ao mesmo
tempo em que passa calma e tranquilidade em sua fala, tem força suficiente para
quebrar barreiras e correr na direção de seus objetivos. Com a determinação e
acompanhada por seus orixás, ela idealizou e abriu um estúdio de tatuagem na
periferia de Brasília que tem como premissa enaltecer temática negra e
africana.


Ela tatua só peles negras e, nelas, deixa as marcas das histórias que
cada cliente busca não esquecer. Filha de uma artesã, Karol aprendeu com a mãe
a desenvolver seu lado artístico. Na escola em Planaltina — cidade satélite do
DF — percebeu que tinha um lado artístico quando ganhou um concurso de desenho
e depois acabou indo pro grafite, que a mostrou que tudo era possível.
“Foi o que me trouxe a coisa de ser mais livre, de fazer um personagem com
a cabeça e desenho maior, sem medo do padrão”, relembra. Começou a
frequentar os estúdios de tatuagem perto de casa e ficou encantada. Logo estava
trabalhando com bodypiercing e nas horas
vagas, desenhava.


O que sempre me encantou na tatuagem é a autonomia para modificar
seu corpo independente da sua personalidade ou caráter.


Aos 20 anos, começou a receber incentivos pra
tatuar, mas demorou para acreditar em si mesma. “Eu achava aquilo um
trabalho surreal, que era uma coisa mágica, dos deuses; mas peguei uma máquina
e fiz minha primeira tattoo em uma
pele de porco e fui pintando minha irmã, amigos e foi indo”, conta em
entrevista ao HuffPost Brasil. Apesar do incentivo inicial, ela começou a ver
que rolavam competições entre tatuadores e acabou se afastando um pouco; sentiu
que não se encaixava em nenhum grupo. “A partir deste momento eu comecei a
ver minha autonomia pra certas coisas e ir atrás do meu próprio espaço”.
Foi então que resolveu se mudar pra Ceilândia, outra cidade satélite do DF, e
criar seu público.

Meu trabalho como mulher preta da quebrada é
ir entrando e introduzir a minha arte… quando você vê, já foi.
 


Quando começou a tatuar, Karol sabia que queria se
especializar em peles negras. Ela não se conformava quando ouvia alguém dizer
que tatuagens só foram feitas para determinado tipo de pigmentação de pele.
“Ainda existe muito esse conceito que uma boa tatuagem só pode ser feita
em pele clara. E eu estava promovendo uma arte também; por que eu não poderia
fornecer um trabalho de boa qualidade? Aquilo foi me incomodando”. A
inquietude de não conhecer meios ou nenhuma tatuadora executando alguma técnica
específica para peles negras fez com que ela fosse atrás das próprias
experiencias e experimentos.

Se a tatuagem é uma parada tão ancestral, por que
eu não posso trazer pros dias de hoje e pra pele preta? Então, fui aprendendo
com meus meios.
 


Karol nunca foi de ficar parada. Ela se movimenta onde vai e tenta fazer
acontecer. Quando mudou pra Ceilândia, começou a morar em um lote com outras
mulheres e, a partir desse contato, ela criou um agito pra nascer um espaço de
cultura, chamado Casa Dandara. “Sempre fui
pro-ativa e percebi que faltava uma movimentação com arte, música, pra trazer
um senso mais coletivo, então comecei a catar pessoas”, lembra. No local,
eram ministradas aula de capoeira, cultivo de horta, produção grafite, de
poesia — além de um cineclube com documentários de cineastas independentes.






Depois de se envolver com cultura, ela começou a
buscar iniciativas do governo para incentivar a arte. E foi aí que resolveu, de
fato, de arriscar. Karol se inscreveu com um projeto do estúdio de tatuagem com
foco apenas em peles negras. Se não havia lugar pra ela, ela fez, e ele
aconteceu. “Com a aprovação do projeto, eu comprei macas, material e
aluguei o espaço onde eu tive a oportunidade de ser acolhida. Porque é meu,
entende?”. Assim nasceu o 
Diáspora
Tattoo
. Um
lugar de resistência com paredes amarelas, repleto de desenhos de mulheres
negras, com a placa “Permitido respeitar as rainhas”, que ela divide
com o tatuador 
Wellington
“Rasta” Nascimento
.

Empreender, no entanto, tem sido uma batalha. Não
só na parte financeira, mas para realizar o projeto em si. “Você chega num
estúdio onde ninguém é chefe, um espaço onde se respeita as mulheres, onde você
vai tatuar gente preta e de tudo quanto é lugar. É difícil a galera se
disciplinar dentro disso, porque a gente é criado pra obedecer regras e escutar
vários ‘nãos’. E nós precisamos de pessoas pró-ativas. O pessoal acha que só
porque somos um estúdio na quebrada, ele não pode ser limpo ou bom”,
reclama. Outros cinco tatuadores já passaram pelo estúdio, que hoje tem quase
uma no de funcionamento. “Já ouvi tatuador negro dizer: ‘eu odeio tatuar
pele preta’ e eu falei ‘negão, então o que você tá fazendo aqui?'”

Com o tempo e experiência, Karol desenvolveu o
próprio estilo. Para as peles negras, ela usa um pigmento mais forte. Em seus
desenhos, estão mulheres fortes, com cabelos altos, encaracolados e que
transpiram força. “Todas elas têm um pouco de mim, tenho feito muitas com
um padrão de deixar o olho sem íris para remeter à questão da ancestralidade,
pelas mulheres que foram, das que são e das que irão”.

Ficha
Técnica 

#TodoDiaDelas
Texto: Tatiana Sabadini
Imagem: Tatiana Reis
Edição: Andréa Martinelli
Figurino: C&A
Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC
O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres
durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie
um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto
“Todo Dia Delas” ou fale por inbox
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Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil,
Elemidia e CUBOCC 


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