Em Ceilândia, o horror do crack continua, sete meses após denúncia

Compartilhe essa matéria

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on telegram
Sete meses depois da denúncia de que viciados escondiam-se em bueiros para fumar a droga, nada mudou. Com o tráfico fora de controle, casos de roubos crescem


Publicação: 25/04/2011 08:00 Atualização:

Conhecida como Castelo de Grayskull, uma construção abandonada na QNN 13 serve como abrigo para os usuários. GDF discute se o esqueleto deverá ser demolido ou concluído (Fotos: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press)
Conhecida como Castelo de Grayskull, uma construção abandonada na QNN 13 serve como abrigo para os usuários. GDF discute se o esqueleto deverá ser demolido ou concluído


A revelação de que bueiros serviam de refúgio para viciados em crack causou perplexidade entre os brasilienses. Mas, sete meses depois da descoberta, dependentes químicos dessa devastadora droga ainda escondem-se no subsolo, em uma galeria de águas pluviais entre a QNN 1 e a QNN 3, em Ceilândia Norte. Outro ponto de encontro dos usuários é uma construção abandonada da QNN 13, conhecida como Castelo de Grayskull. Apesar do alarde inicial das autoridades, as cracolândias da cidade estão cada dia mais cheias de viciados, que disputam espaço para consumir droga sem serem incomodados. 

O Castelo de Grayskull chegou a ser parcialmente cercado, mas os bueiros continuaram abertos e nada foi feito. Na época, policiais militares afirmaram que trabalhar no local seria como “enxugar o gelo”, já que eles não podem prender os usuários. Lá, viciados fumam crack em plena luz do dia. Garotas prostituem-se para conseguir dinheiro para comprar as pedras e, muitas vezes, utilizam árvores e muretas como motel a céu aberto. Segundo moradores, pequenos furtos são comuns nas quadras vizinhas e ninguém tem coragem de deixar os carros no estacionamento da estação de metrô de Ceilândia Norte porque os veículos sempre são arrombados. Crianças e adolescentes que frequentam a cracolândia andam por todos os lados, sob efeito da droga, e passeiam entre os carros. Mais de uma vez, a polícia foi chamada para conter os jovens.

Nos bueiros e na construção abandonada, é fácil encontrar roupas esquecidas e latinhas, em geral de refrigerante, que são usadas como cachimbos. A reportagem também flagrou cadernos escolares do ensino médio preenchidos e alguns, parcialmente queimados. Os viciados que moram no local frequentemente são vistos revirando o lixo em busca de restos de pedras da droga. Comerciantes colocaram grades nas lojas, para evitar que usuários entrem nos estabelecimentos e intimidem funcionários e clientes, pedindo esmola para comprar a droga.

A cabeleireira Ana Lúcia Frota trabalha em um estabelecimento só com mulheres e a porta do salão fica trancada com cadeado. Toda vez que chega um cliente, elas abrem o portão e, em seguida, voltam a fechá-lo. Segundo Ana, os viciados que mais atrapalham a rotina da região são os adolescentes. “Os meninos que usam crack ficam beirando as portas e pedindo dinheiro. Por isso, todo mundo resolveu colocar grades. Eles entram aqui, pedem dinheiro e ficam nervosos quando não damos. Dessa forma, nos sentimos intimidadas”, reclamou. 

Segundo a estudante Luana Batista, 23 anos, a situação do local nunca mudou, apesar da promessa das autoridades. Para a jovem, não é uma simples grade que vai resolver o problema dos viciados. Além disso, ela acredita que a tendência é que a situação se agrave porque “sempre aparecem novos usuários na região”. Ainda de acordo com Luana, é comum os usuários brigarem entre si. “O negócio aqui é muito feio. Eles pedem muito, incomodam, ameaçam, intimidam e, muitas vezes, caem no tapa. Fico assustada quando eles começam a brigar. Muitos usuários do metrô são assaltados”, relata a estudante.

Um morador de um prédio da QNN 11, que preferiu não se identificar, reclamou da proximidade dos usuários com as crianças que moram na região. “Já vi vários furtos aqui neste local. Eles levam bolsas, celulares e carteiras para comprar crack. Minha filha tem 6 anos. Fico preocupado com o fato de ela presenciar essas cenas”, justifica o morador de Ceilândia. “O dia inteiro tem movimento de traficantes. Eles param o carro, vendem a pedra e vão embora. Também há prostituição e eles fazem sexo em plena luz do dia. Não gosto nem que minha menina vá à janela”, finalizou.

Demolição 
Na visão do administrador de Ceilândia, Ari de Almeida, será difícil tirar os usuários da cracolândia. Ele admite que, principalmente no caso do Castelo de Grayskull, não basta cercar o local com uma grade. “Ali, ou derruba tudo, ou termina logo de construir. O governo decidiu concluir a obra, mas a administração não tem verba. Isso ficou a cargo da Secretaria de Obras. Foi feita uma licitação, mas o preço ficou alto”, explica Ari de Almeida. “O que fazemos para amenizar o problema é pedir que a Polícia Militar reforce a segurança no local”, explicou o administrador.

Leonardo e Agenor (nomes fictícios) moram no esqueleto abandonado. Eles explicam que a droga faz com que os usuários comecem a andar em grupos. “Tenho mulher e sobrinho aqui. O que posso dizer é que o crack causa muita depressão e violência. Eu servi o Exército, depois saí, tentei estudar e comecei a trabalhar como carregador. Foi aí que eu conheci a droga. E foi aí que eu perdi minha vida”, contou Leonardo.

A dupla revelou que espanta os usuários “com vício mais forte” porque eles incomodam os moradores vizinhos. De acordo com Agenor, essa é uma forma de evitar a polícia. “Se não fizermos isso, os traficantes passam a peneira. Eles matam os que estão piores, que estão assaltando, porque eles atraem os policiais e isso não é bom para o negócio deles”, justifica o viciado. “Os moradores não gostam da gente por causa da galera que usa drogas no meio da rua e por causa dos crimes que rolam na área. Mas nós ficamos só aqui dentro. Até limpamos o local”, disse.

O governo promete travar uma batalha contra o avanço da droga na capital. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, o Núcleo de Enfrentamento ao Crack tem um mapa com 64 pontos de tráfico e de consumo do entorpecente em todo o DF. A iniciativa começou no mês passado, durante uma grande operação, no Setor Comercial Sul, com o saldo de 11 pessoas presas por tráfico. Segundo o órgão, os trabalhos chegarão ao restante dos locais identificados em ações que podem envolver as secretarias de Justiça, de Desenvolvimento Social e de Saúde, além das polícias civil e militar.

Entorpecentes
A Secretaria de Segurança estima que quase 30% dos crimes registrados no Distrito Federal tenham relação com o tráfico e o uso de drogas. Hoje, a maior preocupação das autoridades de saúde e segurança é a expansão do crack. É cada vez mais comum ver crianças, jovens e adultos fumando pedras em plena luz do dia.

Tratamento
Um dos maiores desafios do governo é tratar os dependentes químicos. Parentes de usuários reclamam da dificuldade de encontrar vagas para tratamento na rede pública. O governo local tem planos para expandir a rede de atendimento e essa é uma das metas do plano de combate às drogas do GDF.

Crianças e adultos disputam espaço para fumar pedras de crack. Moradores da região estão assustados
Crianças e adultos disputam espaço para fumar pedras de crack. Moradores da região estão assustados

http://www.correiobraziliense.com.br

Deixe uma resposta

Veja Também:

Últimas Postagens

Siga-nos nos Facebook

%d blogueiros gostam disto: