Ficção científica sobre ‘apartheid’ entre Ceilândia e a capital federal é aplaudida em Brasília

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Mistura de documentário e filme de ficção científica, “Branco sai. Preto fica” (DF), de Adirley Queirós, fez finalmente sua estreia em casa, na competição do 47º Festival de Brasília, na noite deste sábado (20), depois de passar pela Mostra Tiradentes (MG), em janeiro, e no Olhar de Cinema de Curitiba, em junho. “Em casa” é força de expressão: o diretor é um agitador cultural de Ceilândia, uma das mais populosas cidades-satélite de Brasília, e construiu uma filmografia baseada na difícil relação entre a capital e sua periferia.


O ponto de partida de “Branco sai. Preto fica” é um episódio ocorrido em Ceilândia em meados dos anos 1980, quando um grupo de policiais invadiu o ginásio Quarentão para acabar com um baile de música negra, em ação truculenta que deixou um morador paralítico e um outro acabou amputando uma das pernas. Essa trauma coletivo é recuperado pela memória de Shokito e de Marquim do Tropa, vítimas da tragédia real, que interpretam a si mesmos em uma trama futurista, na qual seus personagens planejam uma vingança contra Brasília, que exige passaporte da comunidade vizinha.

O filme, fortemente aplaudido pelo público que superlotou o Cine Brasília, muitos deles vindos de Ceilândia especialmente para acompanhar a projeção, acrescenta um tom fabular à obra de Queirós, marcada pela experimentação e o realismo social. No plano mais próximo ao documental, mostra-se o cotidiano do amputado Marquim e o cadeirante Shokito, que faz do microfone de sua rádio pirata plataforma de combate contra o processo de exclusão social; no ficcional, temos um agente do futuro enviado para recolher provas contra o Estado.

— A geração que está hoje entre os 40 anos e os 50, que é a minha, sente que a distância entre Ceilândia e Brasília aumentou desde os anos 1980. Não existe uma interligação entre as duas cidades, é como se existisse um muro entre elas. Quem mora em Ceilândia não usufrui de Brasília. A ideia do passaporte veio para representar esse apartheid — explicou Queirós, autor do curta “Rap, o canto da Ceilândia” (2004), e do documentário “A cidade é uma só?” (2012). — Acho que há uma relação meio fascista entre Brasília e Ceilândia, que tem ligação com o fato da capital concentrar o poder.

O programa da noite foi aberto pelos curtas “Nua por dentro do couro” (MA), drama de terror dirigido por Lucas Sá, e “Castillo y el armado” (RS), de Pedro Harres, única animação da competição da categoria. O filme de Lucas se passa em um condomínio residencial no qual se cruzam no dia a adia, mas quase não interagem. Um deles é uma senhora com cara de poucos amigos que vende bolinhos em casa para atrair clientes que servirão de comida para seu bichinho de estimação, que ela guarda na banheira. Já “Castillo y el armado” é inspirado em caso real ocorrido com o uruguaio Ruben Catillo, diretor de arte do curta, sobre um pescador obcecado pela ideia de capturar um peixe estranho e extremamente forte.

O filme de Harres, uma produção da Otto Desenhos Animados, do animador gaúcho Otto Guerra, foi o único representante brasileiro no Festival de Veneza deste ano, exibido na mostra paralela Horizontes.
— Tivemos uma boa repercussão em Veneza, que é uma janela de muito prestígio — contou o diretor. — Como aqui em Brasília, éramos o único filme 100% de animação competindo naquela mostra. Foi uma experiência muito boa para nós, mesmo não tenho ganhado qualquer prêmio, porque ela é freqüentada por curadores de outros festivais, que acabam fazendo contato e nos convidando.
Informações POR  O Globo



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