Jovens de Ceilândia têm vidas transformadas pelo sonho olímpico em 2020

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O sonho de muitos jovens
brasileiros de disputar as Olimpíadas de Tóquio 2020 pode ter começado nos
Jogos de Seul, em 1988. Foi pouco depois de conquistar a prata nos 800m na
Coreia do Sul – a segunda medalha olímpica na carreira, já que havia levado o ouro
em Los Angeles (1984) – que o corredor Joaquim Cruz intensificou suas
atividades sociais. Em 1989, fundou o clube dos DescalSOS, que dava apoio
material a jovens atletas, iniciativa que levou à fundação de um instituto com
seu nome em 2003. Mas foi há cinco anos que o foco do Instituto Joaquim Cruz
(IJC) se ampliou com o programa “Rumo ao Pódio Olímpico”, voltado a desenvolver
talentos para o alto rendimento.

Atualmente, 16 atletas treinam
diariamente no Centro Olímpico de Ceilândia (DF) e nas trilhas da Floresta
Nacional buscando índices para as provas de fundo e meio-fundo dos próximos
Jogos Olímpicos. Para oferecer a estrutura necessária aos jovens de 15 a 21
anos, o IJC recorreu à Lei de
Incentivo ao Esporte (LIE). Hoje, os meninos contam com vale-transporte e
refeição, bolsa aprendizagem, passagem e hospedagem para competir, equipamento
e uniforme, plano de saúde e equipe muldisciplinar (assistente social, psicólogo,
fisioterapeuta, dois treinadores e dois assistentes).
“A Lei de Incentivo passou a
ser uma fonte de financiamento que abrange as três dimensões do esporte:
participação, educação e rendimento. No nosso caso, somos de rendimento.
Propiciamos um ambiente para os atletas treinarem continuamente e com
tranquilidade e alguns resultados já vêm acontecendo em sul-americanos,
pan-americanos e mundiais”, afirma Ricardo Vidal, diretor-executivo do
instituto.

Com o apoio de empresas que
abateram até 1% do Imposto de Renda devido para investir na iniciativa, o IJC
captou, somente em 2016, mais de R$ 1,8 milhão. Os recursos permitem uma
preparação de alto nível, em uma fase em que há poucas empresas dispostas a
patrocinarem os atletas. “Nós estamos formando garotos. As empresas normalmente
aparecem quando eles já estão prontos. Trabalhamos em uma faixa etária em que
não há muita visibilidade nem apelo midiático. A Lei de Incentivo permite mudar
essa realidade”, diz Vidal.

Peneira

Para chegar ao número atual de
competidores, a equipe do “Rumo ao Pódio Olímpico” fez uma seleção criteriosa
por alguns meses. A ‘peneira’ começou com 50 atletas. Destes, ficaram 30, após
dois meses de avaliações. Hoje, são 16.
“Boa parte da meninada vem
porque gosta de fazer atividade esportiva, mas sem noção do que é o alto
rendimento. Então, trabalhar isso com eles é complexo. Têm uns que já vem com
essa garra, essa vontade, esse desejo… Treinam pensando na competição e
mostram na competição o que são. Outros não deram certo, treinavam bem, mas
chegavam na competição e mostravam deficiência naquilo que eles queriam de
fato, aí a gente vai fazendo a peneira”, explica Luiz Carlos Santana,
coordenador-técnico do IJC.
Mateus Américo, 20 anos, é um
dos exemplos de quem não sabia o que era atletismo e, agora, é uma das
promessas. “Eu conheci o projeto em 2012, não sabia o que era atletismo, só
jogava futebol. O pessoal do Instituto foi na minha escola e falou sobre o
programa, me interessei e me inscrevi”, recorda o atleta, que já foi vice
campeão sul-americano nos 1.500m, na base, e hoje está entre os dez melhores
tempos do país nos 800m.

“Eu não tinha preparo, não
sabia o que fazer no dia da seletiva. Cheguei aqui no Centro Olímpico e tinha
mais de 1.400 atletas. Vi um monte de corredores na pista e disse: ‘Vamos lá!’.
Era um teste de 600m. Na primeira volta saí forte, cansei, mas consegui chegar.
Passei nas seletivas seguintes e ganhei todas. Detalhe: corri de chuteira,
porque não tinha tênis, e em uma das seletivas estava machucado, mas fui na
raça. Até caí na chegada”, descreve Américo, que se interessou pela
oportunidade por causa da bolsa oferecida pelo projeto.

“No início era a bolsa que
eles estavam dando, porque seria uma oportunidade. Não trabalhava, só ficava na
rua. Hoje, com a bolsa que recebo do projeto, posso pagar a faculdade, tenho
dois anos cursando educação física, pude dar entrada no meu apartamento e
ajudar a minha mãe. Com o projeto também consegui a Bolsa Atleta do Ministério
do Esporte, pelo resultado que tive no sul-americano”, completou. A Bolsa
Aprendizagem do programa chega a até R$ 920 por mês.
Sucesso
Se no início o “Rumo ao Pódio
Olímpico” realizava peneiras com jovens do Distrito Federal e Entorno, indo à
rede de ensino pública para chamar os estudantes, agora são os atletas que
procuram o projeto para tentar uma vaga, tanto que há dois corredores do
Espírito Santo e dois de Goiás. “O programa começou a se definir quando a gente
começou a mostrar resultados”, explica Santana. “A propaganda natural da
qualidade do trabalho fez com que eles quisessem vir para cá”.

Ao lado da pista, os
treinadores são, também, espelhos para os iniciantes. Ronaldo Costa foi
vencedor da maratona de Berlim em 1998, quando estabeleceu recorde mundial na
prova, e Hudson de Souza participou das Olimpíadas de Atlanta 2000, Atenas 2004
e Pequim 2008 nos 1.500m. “Antes eu estava na pista, agora estou do outro lado,
passando a experiência que tive como atleta. É uma oportunidade única atuar na
área que sempre trabalhei e passar conhecimento para as pessoas”, descreve
Hudson.

“Todo mundo aqui é uma
inspiração para a gente: o Hudson, o Ronaldo, eles vão motivando a gente cada
dia mais… sou muito grata ao projeto”, conta Karina Gualberto, 20 anos, líder
do ranking nacional nos 1.500m, 5.000m e 10.000m em 2015, antes de ficar
afastada este ano por lesão. “Os resultados surgem com uma vida voltada aos
treinos e competições. Tenho uma rotina bem distinta de outras pessoas da mesma
idade. Eu venho para o treino, à tarde vou para a fisioterapia e à noite tenho
a faculdade. Não dá tempo de sair, amigos só de vez em quando. Todo mundo
entende quando vê os resultados, mas é bem corrido, quase não há tempo para
outras coisas”, prossegue.

Outro caso é o de José Miguel
de Sousa, 17 anos, que passou a integrar a equipe no ano passado, após passar
alguns anos no Clube dos DescalSOS. “O programa abre portas, amplia horizontes.
Eu estava no projeto DescalSOS e tinha a visão de correr só corrida de rua,
5Km, aqui eu consigo ver outras modalidades dentro do atletismo”, explica
o campeão brasileiro nos 1.500m e 3.000m sub 17 e prata nos Jogos Escolares da
Turquia 2016.

“Tem bastante garoto aqui com
futuro. O objetivo é 2020. Como a estrutura aqui é boa, podemos colocar alguns
desses garotos nos Jogos Olímpicos”, analisou Hudson, que projeta um de seus
sonhos nos alunos. “Meu sonho como atleta era ter uma medalha olímpica. Como
não consegui conquistar, tomara que consiga com esses atletas”.

Gabriel Fialho, brasil2016.gov.br

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