Kit gay caiu….Polêmica não!

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A polêmica provocada pelo kit Escola sem Homofobia, conhecido como kit gay, já ia longe — com direito a bate-boca e, por pouco, agressão física entre a senadora Marinor Brito (PSol) e o deputado Jair Bolsonaro (PP) nos corredores do Congresso — quando a presidente Dilma Rousseff (PT) decidiu suspender a produção e divulgação do material nas escolas públicas. Ela disse não ter gostado do conteúdo de um dos vídeos que assistiu e declarou não aceitar propaganda de opções sexuais. Se essa é realmente a opinião da presidente, ninguém nunca ficará sabendo por que ela só tomou a decisão ao ser pressionada pela bancada evangélica e grupos católicos do Congresso, que ameaçaram votar a favor da convocação do ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci — envolvido em escândalo de multiplicação de patrimônio —, para se explicar no Congresso, caso o kit fosse produzido e distribuído.

O material nem chegou a ser divulgado pelo Ministério da Educação (MEC); vazou e, desde então o ministro Fernando Haddad vinha resistindo às pressões para reavaliar o kit. Após a decisão da presidente, ele declarou que também “não gostou” de uma parte do material e disse que o ministério já havia decidido suspender a produção do kit. Se havia decidido, não divulgou. Pelo contrário. Tentou convencer os críticos do material, dizendo que o kit anti-homofobia era voltado para alunos do ensino médio e que não seria obrigatório nas escolas. Todavia, já se sabe que o caderno Escola sem Homofobia é destinado também a estudantes do ensino fundamental. O texto diz claramente: “Essas dinâmicas podem ser aplicadas à comunidade escolar e, em especial, a alunas e alunos do ensino fundamental (6º ao 9º ano) e do ensino médio”.

O kit é composto por três tipos de materiais: o caderno do educador, seis boletins para os estudantes e cinco vídeos. Em um dos filmes, “Boneca da Mochila”, o protagonista é uma criança e a história conta um episódio verídico. A mãe de um aluno é chamada na escola porque o filho está com uma boneca na mochila. Com base nesse filme, os professores são incentivados a discutir com alunos de até 11 anos temas que envolvem gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais por intermédio de questões como esta: “Ser um menino mais sensível e uma menina mais durona significa que são ou serão gay e lésbica?”

Em outro vídeo, “Torpedo”, voltado para adolescentes, duas alunas que mantêm uma relação são perseguidas pelos colegas na escola depois que um vídeo mostrando cenas de carinho entre elas é postado na internet.  Em um terceiro filme, “Encontrando Bianca”, um adolescente que se veste como menina fala de seus conflitos e das dificuldades que encontra na escola por se travestir de mulher. Uma delas diz respeito ao uso do banheiro. O aluno não sabe qual escolher, se o masculino ou o feminino. O outro filme, uma animação intitulada “Probabilidade”, trata da bissexualidade. Um aluno se sente confuso por se sentir atraído por meninas e por meninos. Os críticos do kit denunciam que no material há cenas de masturbação e ilustrações com cenas de sexo entre dois homens. Os alunos também são orientados a ver filmes que tratam de homossexualidade, como “Brokeback Mountain”, “A gaiola das loucas”, “Milk” e “Desejo proibido 2”.

O material foi produzido a partir de um convênio firmado entre o MEC com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), e a ONG Comunicação em Sexualidade (Ecos) e poderia ser ainda mais polêmico se o beijo entre as duas meninas de um dos vídeos tivesse acontecido. Houve quem defendesse o beijo gay, mas foi voto vencido.

A polêmica do kit gay ocorre logo depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir em favor da união estável entre homossexuais e demonstra o avanço das políticas públicas a favor de homossexuais no País. O PT e, consequentemente o governo petista, sempre foi um defensor da causa gay, mas no caso do combate à homofobia nas escolas, a iniciativa tem como base uma pesquisa realizada pelas ONGs Reprolatina e Pathfinder em escolas brasileiras e que identificou um quadro de tristeza, depressão, baixo rendimento escolar, evasão e suicídio entre os alunos gays, da 6ª à 9ª séries, vítimas de preconceito, explica Léo Mendes, jornalista e militante da causa homossexual em Goiás. “Os travestis são excluídos nas escolas.” Segundo ele, as agressões aos homossexuais vão bem além das verbais, são físicas. “O aluno homossexual é a principal vítima de bullying nas escolas.”
Ewerton de Freitas Ignacio, pós-doutor em Literatura Brasileira e professor titular da UEG, avalia que, do modo como foi formatado o kit não é apropriado para combater a homofobia nas escolas. “O material confundiu esclarecimento com segregação.” Seria mais eficaz, na opinião do professor, os alunos terem aula de cidadania a fim de que aprendessem valores de respeito a todo ser humano, independentemente de credo, orientação sexual, cor e condição social. “O preconceito como um todo é que deveria ser combatido, afinal todos merecem respeito e não só este ou aquele grupo minoritário.” 


Inversão de papéis

A reação dos evangélicos ao kit radicaliza o pensamento da sociedade brasileira, na opinião de Ewerton de Freitas. “Houve, historicamente, uma inversão de papéis: de perseguidos, os evangélicos tornaram-se perseguidores.” Ele observa que os evangélicos se amparam, principalmente, nas condenações de Paulo sobre o fato de que “afeminados” não herdariam o reino dos céus. “Quer dizer que se o gay não for afeminado, for másculo, sobe para a glória?”, questiona. Ele lembra que o mesmo Paulo considerou indecência as mulheres falarem na igreja. “E, hoje, temos pastoras e missionárias que falam, algumas muito alto.”

Ewerton observa que os evangélicos “modernizam” algumas passagens da Bíblia e levam outras ao pé da letra, a ferro e fogo. “É desses radicalismos que não precisamos e são eles, talvez mais que esses kits, que nos fazem tão mal.” O professor também não crê que o homossexualismo possa ser estimulado. “Quer mais estimulado e socialmente imposto do que a postura heterossexual? E mesmo assim existem os homossexuais. Se a orientação pela sexualidade se desse por estímulo, não haveria, nem nunca teria havido, em toda a história mundial, a existência de gays e lésbicas.”
Na opinião de Ewerton, os professores não estão preparados para combater a homofobia nas escolas, apenas um dos preconceitos existentes nas escolas. “O que deveria ser combatido é toda forma de preconceito, todos os radicalismos e todos os outros preconceitos.” Ele lembra que um país se faz com investimentos maciços em educação, o que implica preparar as crianças para o mundo que as aguarda lá fora: “Um mundo plural, composto por coletividades, sem que uma seja necessariamente melhor do que a outra”. 

Com informações do Jornal Opção.

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