Marina Silva e o gueto dos puros.

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A ex-senadora e ex-ministra planeja criar um partido para os políticos que avalia como “escolhidos”. Mas isto é uma impossibilidade e é uma velha fantasia cara aos comunistas
Caroline Bittencourt/ Divulgação SWU
Marina Silva: a ex-senadora pelo Acre é uma política exemplar, íntegra e competente, mas sua tese sobre criar uma “sociedade dos puros” lembra a fracassada utopia comunista
O filósofo inglês John Gray, no livro “Missa Negra”, faz o registro de que há uma identidade profunda entre algumas religiões e o marxismo. As religiões em geral pregam que uma vida perfeita é possível — na Terra, às vezes, e, sobretudo, no Céu. Pode-se, com crença ou ações, alcançar o Paraíso. Lá, onde deuses e demônios se irmanam, tornando-se todos anjos, tudo é perfeito. Por isso, e tratando do assunto com indisfarçável leveza, tantos seres humanos rezam e sofrem, pois sabem que, no porvir, alcançarão a paz e a igualdade coletiva. Porém, antes de chegar a uma espécie de território das delícias, as pessoas trabalham e levam suas vidas adiante. Daí que os religiosos fazem trabalhos sociais e defendem determinadas bandeiras. Há esquerdistas que percebem as religiões tão-somente como “alienação”. Trata-se de uma leitura redutora, pois religião é um fenômeno cultural de matizes extremamente variados.


Aliás, não se pode falar apenas em religião, no singular, e sim em religiões, no plural, porque, embora as vezes  possam apresentar um terreno comum, elas são diferentes, e não apenas na superfície. Leitores interessados numa análise instigante e perceptiva devem consultar o livro “O Debate Sobre Deus — Razão, Fé e Revolução”, do crítico literário e filósofo Terry Eagleton.

O marxismo é uma religião (dos ateus) derivada de uma filosofia, o Iluminismo. De algum modo, radicalizou o Iluminismo, dotando-o, digamos assim, de um espírito religioso. Noutras palavras, o marxismo arrancou do pensamento dos filósofos franceses a ideia crítica agressiva do mundo (da realidade), a possibilidade de transformá-lo, tornando-o justo ou, ao menos, mais justo. O filósofo alemão Karl Marx, seguido pelo epígono Engels, sugeriu que não era mais hora de ficar apenas interpretando o mundo — urgia transformá-lo. Na sua teoria, Marx supôs, examinando os “períodos” da história — e aqui, nota John Gray, há uma herança positivista —, que, em seguida ao capitalismo, modo de produção que via como revolucionário (o “Manifesto Comunista” é uma ode aos capitalistas-burgueses), viria o socialismo e, daí, o comunismo.

Como morreu em 1883, trinta e quatro anos antes da Revolução Russa de 1917, não pôde verificar a aplicação de suas teorias. Suas ideias, para torná-las mais pragmáticas, foram ampliadas pelo russo Vladimir Lênin, um filho de nobres que se tornou comunista.

Em que, porém, marxismo e religião se imbricam? O marxismo, como algumas religiões, diz que um novo mundo é possível — no futuro. O socialismo é o começo da construção de uma “sociedade de iguais”. Depois, com a chegada do comunismo, os homens edificariam a sociedade perfeita. O presente pode de ser agruras, como o foi na União Soviética de Stálin e na China de Mao Tsé-tung — com fome e milhões de mortes —, mas o futuro, com o comunismo, será uma maravilha. O paraíso terrestre será conquistado.

 A ideia do paraíso é extraída, a fórceps, da religião. A ideia de uma história linear — sempre avançando, como supostamente a evolução, mas agora a saltos mais rápidos, via revolução — é filha do positivismo.

Os homens, nos seus labores e lazeres cotidianos, descobrem que a teoria bela, como o socialismo, nem sempre produz uma prática bela. Os comunistas, advogando a igualdade para todos e a produção de um mundo perfeito, produziram o stalinismo e o maoísmo, que, juntos, provocaram a morte de mais de 100 milhões de pessoas — o maior genocídio da história da Humanidade. Hitler merece a execração dos democratas, mas, ao seu lado, deve haver um espaço cativo para Stálin, Mao Tsé-tung e Pol Pot. Os homens de boa vontade — a maioria dos comunistas era idealista, no geral crentes fanáticos —, mesmo sacrificando-se durantes décadas, não chegaram ao Paraíso. Por quê?

Porque não existe Paraíso. Só um mundo é possível: o complexo e multifacetado em que todos vivem. As sociedades e os homens terão problemas excruciantes sempre. Alguns serão resolvidos. Outros serão equacionados mais ou menos e alguns não serão resolvidos. A sociedade e o indivíduo perfeitos são, a se aceitar como o mundo de fato se move, uma impossibilidade, digamos, lógica. Todas as vezes em que se tentou forjá-los, longe de se obter resultados positivos, a colheita foi altamente negativa. O socialismo resultou numa ditadura cruenta, porque, como notou o filósofo Norberto Bobbio, os meios às vezes corrompem os fins. Por incrível que possa parecer, é a desigualdade — a diferença abissal entre os indivíduos, seus desejos e aspirações diversos —, e não a igualdade, que move o mundo. O mundo e o indivíduo são o que são. Podem melhorar, mas dificilmente podem ser “revolucionados”. Daí que, como insistia o político e historiador inglês Winston Churchill, é possível dizer que a democracia é uma “joça”, mas, infelizmente, não inventaram nada melhor. Ao indivíduo, à sua liberdade de agir e viver, é muito mais adequado o suposto caos da democracia à ordem das ditaduras. E mais: como sugerem John Gray e o filósofo anglo-letão Isaiah Berlin, o indivíduo deve viver para o presente, buscando melhorias aqui e agora, e não gastar energia para um futuro improvável. A ideia de que o futuro será melhor é uma espécie de perversão, quem sabe, de verniz religioso.

Por que a discussão filosófica acima? Porque se percebe que, ao discutir a fundação de um novo partido, possivelmente com o estranho nome de Rede, a Imprensa não avalia como funciona a cabeça da ex-senadora e ex-ministra Marina Silva.

Marina Silva é uma cidadã exemplar, não há dúvida, e sua sugestão de que é possível construir um mundo ideal, nos quais os homens respeitarão tudo, como a natureza, parece a todos impecável. Mas será? A ex-senadora repete, com linguagem diferente, a razão comunista.

Religiosa e de esquerda — o que sugere que esquerda e religião podem se tornar irmãs, e não rivais —, Marina Silva acredita que é possível criar a “sociedade dos puros” — uma espécie de “gueto dos bons”. Todos nós gostamos, porque parece uma ideia altruísta e humanista. Marina Silva frisa que “seu” partido — uma legenda dos “escolhidos”, os puros (quase bolcheviques imoderados na correção moral) — não aceitará doações de empresas que julga “sujas”. Na lista dos não-limpos, a política acriana aponta os fabricantes de bebida.

(Não se está aqui defendendo os que bebem e os que fabricam bebidas. Mas beber, socialmente ou não, é um componente da vida social e o ser humano não vai parar de fazê-lo. Sempre que os governos tentaram proibir as pessoas de beberem, como na época da Lei Seca, nos Estados Unidos, e na União Soviética de Mikhail Gorbachev, os indivíduos se rebelaram.)

O que Marina Silva, excelente política, não quer perceber, talvez não possa perceber, é que não se constrói uma sociedade democrática tão-somente com os bons e puros. A sociedade democrática não é excludente e se move com os bons, os mais ou menos e os maus. O sal da vida, que faz o mundo seguir em frente, às vezes recuando, é a diversidade de ideias e comportamentos dos homens. A ideia de uma sociedade dos escolhidos — dos que não bebem, dos que não fumam, dos que não jogam —, se posta em prática, termina muito mal, sabemos hoje depois da longa noite do socialismo.

Então, ao dizermos que é impossível alcançar a pureza humana, estamos sugerindo, e até propondo, que se deve deixar a sociedade brasileira do mesmo jeito? Não é isto que estamos dizendo. Estamos apenas frisando que construir uma sociedade dos puros, que caiba numa “Rede”, é impossível e que as tentativas feitas até hoje naufragaram, à direita (fascismo italiano e nazismo alemão) e à esquerda (comunismo). A sociedade pode ser aperfeiçoada — com a melhoria dos instrumentos institucionais —, mas não pode ser mudada de ponta-cabeça, isto se se ficar nos marcos da tolerância democrática. O Brasil tem melhorado, com a redução da impunidade, e tende a evoluir ainda mais. Mas, como diria São Marx de Trier, Deus nos livre dos que querem construir o “gueto dos puros”.   
Jornal Opção

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