Mesmo sem salário, professores do Picasso Não Pichava mantêm projeto do GDF.

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O professor Kelton (E) teme ficar sem pagamento. Mesmo assim, se dedica à iniciativa por conta da semelhança da história de vida dele com a dos alunos (Carlos Vieira/Esp. CB/D.A Press)
O professor Kelton (E) teme ficar sem pagamento. Mesmo assim, se dedica à iniciativa por conta da semelhança da história de vida dele com a dos alunos

Os instrutores do projeto Picasso Não Pichava estão há três meses sem receber salário. Apesar da falta de pagamento, os 19 professores — que dão aulas de grafitagem, break e cinema para jovens carentes moradores de sete regiões administrativas do Distrito Federal — decidiram continuar abraçando a causa e não deixar os ensinamentos de lado. De acordo com Eliezer Santos, coordenador-geral do programa, apenas o salário de novembro deverá estar nas contas dos funcionários até amanhã. “Temos a previsão de que, até lá, os instrutores estarão com os salários creditados”, afirmou. Ainda não há previsão para os lançamentos dos salários de dezembro e de janeiro. O Picasso Não Pichava é patrocinado pela Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP-DF), a ONG Mediateca e o Banco de Brasília (BRB).

O atraso, segundo Eliezer, ocorreu por conta de um erro durante um dos relatórios do projeto, realizado mensalmente e inspecionado pela Mediateca. “Isso foi em novembro. Aí, esse problema não parou mais”, revelou. A organização é incumbida de analisar esses documentos e prestar contas ao BRB. Mediante a comprovação dos gastos, e, caso a documentação esteja em dia, o banco credita o pagamento dos educadores. “Mas no mês de novembro a organização demorou a apresentar os papéis. E só foram nos enviar no fim de dezembro, ainda com informações pendentes”, informou o BRB, por meio da assessoria de comunicação social.

Por conta desses trâmites, a prestação de contas do programa teve de ser enviada novamente à Mediateca para a inclusão dos dados em falta. “Com esse atraso, eles só nos entregaram os papéis com as informações do mês de novembro na semana passada”, acrescentou o BRB. Motivo que, de acordo com o banco, fará com que os funcionários do Picasso Não Pichava recebam apenas o salário de novembro. “Estamos esperando o balanço de dezembro, que eles ainda não nos mandaram, porque dizem estar à espera dos dados vindos da coordenação do projeto”, concluiu a instituição financeira.

Mesmo com a confirmação do pagamento de novembro, ratificada pelos três parceiros do projeto, o professor de grafitagem Kelton Macedo dos Santos, 30 anos, ainda não se sente seguro de que irá recebê-lo. “Eles dizem a mesma coisa desde 5 de dezembro”, reclamou o morador de Ceilândia. “Minha sorte é que eu não dependo somente desse dinheiro, mas muitos dos meus colegas estão sem saber o que fazer, já que vivem apenas do que ganham do projeto”, completou. A fiscalização do programa é feita pela Subsecretaria de Programas Comunitários (Suproc), da SSP-DF.

Sucesso
Além das aulas, cada participante do projeto assiste a palestras, que abordam temas como pichação, cidadania e droga. “Essas palestras são superconcorridas”, afirmou Eliezer Santos. Para Kelton, o projeto deu uma nova vida para 280 mil crianças e adolescentes, muitos deles em situação de risco e ou de vulnerabilidade social (leia Memória). “Eu via que antes havia muito mais pichações pelas ruas. Hoje, eu sinto que consegui mudar a visão dessas pessoas. Inclusive, um ex-aluno meu que passou pelo Picasso é meu concorrente, já que ele vive da grafitagem como eu. Demos bons frutos”, avaliou.

Kelton tem uma história de vida parecida com a de muitos meninos e meninas que frequentam as atividades do programa. Dos 15 anos aos 19, o morador de Ceilândia usava as mesmas tintas que hoje alegram as paredes da cidade para pichar monumentos públicos, como o Memorial JK e a Praça da Justiça. “Na época, eu estudava em uma escola pública e lá decidi, por status, entrar em um grupo que fazia pichações como forma de protestos em vários pontos de Brasília”, relembrou.

A revolta contra o governo da época e os desentendimentos familiares constantes levaram o então adolescente a ter três passagens pela Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), após ser acusado de dano ao patrimônio público. Mesmo com as punições, Kelton não deixou de cometer o crime, mas incluiu na vida dele os desenhos a lápis. “Só assim, eu saí desse mundo. Foi aí que dois grafiteiros conheceram o meu novo hobby e disseram que eu tinha talento. Assim, passei a grafitar também e virei um profissional da arte de rua”, contou.

MEMÓRIA
Jovens longe das ruas

Desenvolvido em junho de 1999, o projeto Picasso Não Pichava atende jovens entre 8 e 16 anos em sete regiões do Distrito Federal — Cruzeiro, Varjão, Paranoá, Itapoã, Sobradinho, Brazlândia e Ceilândia. A inauguração do programa ocorreu no estacionamento do Parque Ana Lídia, no Parque da Cidade. Durante o evento da abertura, os visitantes ainda percorreram uma exposição contendo imagens de monumentos pichados. A iniciativa foi montada com o objetivo de reduzir a criminalidade infantojuvenil por meio de ações socioculturais, como oficinas, palestras educativas e assistências psicossocial e pedagógica. A iniciativa visa também encaminhar todos os jovens atendidos ao mercado de trabalho. A maioria do público do programa é de crianças e de adolescentes vindos de famílias de baixa renda.


Do Correio Braziliense.

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