Natural de Ceilândia, Japão comemora mais de duas décadas de carreira e ainda planeja voos mais altos.

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O rapper na Caixa d’Água, em sua terra natal: poeta e bairrista (Foto: Michael Melo)

O rapper na Caixa d’Água, em sua terra natal: poeta e bairrista (Foto: Michael Melo)

Para entender o amor incondicional de uma pessoa pelo lugar onde nasceu e cresceu bastam uma caminhada e alguns minutos de prosa. A regra vale para Japão, rapper de 42 anos que celebra mais de duas décadas de carreira com um pacote de novos projetos. Em 3 de novembro, o MC divulga na internet, ao custo de 5 reais, as sete faixas de Eles Falam Quando Deveriam Ouvir, gravado com a banda Viela 17. A versão física chega sete dias depois ao mercado, pelo mesmo preço.

A fala de Japão, assim como a poesia de suas músicas, está sintonizada com o cenário de um passeio pelas ruas de Ceilândia. Os problemas sociais e a marcante violência na cidade inspiram o artista. E ajudam a entender por que a região administrativa se mostra tão importante para o rap do Distrito Federal quanto o bairro do Capão Redondo, berço de Mano Brown, é para o rap paulistano. No caso do nosso músico, a ligação com as origens tornou-se ainda mais simbólica: ele nasceu no mesmo ano que sua terra natal, em 1971. “Tem rap em todo lugar do DF, mas o discurso engajado começou aqui”, afirma.
Há treze anos Japão comanda o Viela 17, grupo que segue um modelo democrático de produção: forma, promove e coloca na rua novos MCs e DJs. “É passe livre. Você entra e fica até quando puder e quiser”, explica. Desde 2012 ele investe no slogan “20 de 40”, alusão ao tempo de carreira e à idade do rapper. É também o título do último videoclipe, lançado em agosto, e deve dar nome ao próximo disco do conjunto, a ser prensado no ano que vem, quando ele espera ver seu DVD nas lojas. “A crônica do rap é um jornal cantado”, diz. “Fazemos disco de quatro em quatro anos, mas toda semana daria para lançar um sobre Ceilândia, com histórias tristes e alegres.”
O cantor se apresenta para 8 000 pessoas no Rap Federal, em abril: fama ascendente (Foto: Paulo Tavares / Divulgação)
Marcos Vinicios de Jesus Morais ganhou o apelido Japão na infância, obviamente por causa dos olhos puxados. Mas a alcunha de rapper demorou alguns anos para vingar. A exemplo da maioria de seus pares, o primeiro contato com a música foi por meio do break. Em 1989, aos 18 anos, entrou definitivamente para a cena ao integrar o coletivo Esquadrão MCs. Desde então, não parou mais. Passou o restante da década seguinte ao lado de GOG, um dos pioneiros do movimento rap no DF. Juntos, os dois gravaram quatro discos e produziram grandes hits dos anos 90, comoPeriferia Segue Sangrando e É o Terror. A bordo do Viela, o vocalista parte para o quarto disco dessa turma.
Firmar-se como um rapper de sucesso exige muito mais do que fazer rimas com as mazelas da cidade. No papel de ativista social, Japão envolve a comunidade em seus projetos. Há quatro anos, gravou o disco Rap com Ciência, acompanhado de crianças de escolas públicas da capital. Hoje, na organização sem fins lucrativos Função Comunidade, ainda em estágio embrionário, ele planeja atrair produtores para a região. “A cidade cresceu demais e estamos colhendo os problemas. Querem fazer daqui o metro quadrado mais caro das satélites. Mas a população fica esquecida”, critica. Num centro urbano que convive com carências e excessos, a música surge para vocalizar angústias das pessoas. “O rap é a única expressão musical que está entre o caos e o progresso.”
As rimas abriram outros caminhos na jornada do cantor. Até o início de 2011, Daniela Mara, produtora e mulher do MC, só conhecia rap pelas músicas do Racionais. Em fevereiro daquele ano, a paulistana topou com versos de Japão, conversou com o ceilandense via internet e, logo, veio para cá. “Casamos no São João do Cerrado de 2012. A gente formou uma dupla de sucesso: um rapper e uma advogada em um evento de forró”, brinca.
Hoje, ela administra a carreira do marido e se empenha em aumentar o alcance do trabalho dele. Para elevar o profissionalismo do artista, foi contratada uma produtora cultural de Taguatinga, a Tauá. “Ele tem abrangência nacional, mas hoje está só em Brasília”, diz a mulher do músico. No ano passado, o rapper começou a participar do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), dispositivo do GDF de fomento ao setor. “É um recurso criticado. Fica a questão: ‘Puxa, usar dinheiro do sistema?’. E por que não? É a mesma história que diz que rapper não pode melhorar de vida”, explica Daniela. A mira de Japão extrapola os limites do DF. Mas os pés, como ilustra o refrão de 20 de 40, continuam fincados aqui. “Ceilândia nasceu na viela expansão / Onde eu fiz a minha história, meu irmão.” Está dado o recado.
Grupo sangue bom
A temporada de shows do Viela 17 recomeça em novembro
Formação atual do conjunto
Japão e Diogo Loko (MCs), Thiago
Jamelão e Chris Soul (backing vocals),
Guiga (percussão) e DJ Beetles
Discografia de Japão com a banda
O Jogo (2001), O Alheio Chora Seu
Dono (2004), Lá no Morro (2008)
Próximas apresentações
3/11: Satélite 061, no Museu da República
10/11: 5º Festival Hip-Hop do Cerrado, na Esplanada dos Ministérios

Informou a Veja Brasília

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