Oficina em Ceilândia resgata a tradição nordestina dos mamulengos

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O ator pernambucano Aguinaldo Algodão, 42 anos, mudou-se para Brasília em 1985, mas nunca esqueceu as tradições carnavalescas de sua terra. Natural de Olinda, ele trouxe na bagagem a técnica para a confecção dos famosos bonecos gigantes que enfeitam os carnavais de rua da cidade. Para não perder a tradição e passar para a frente tudo o que aprendeu, ele ministra uma oficina dessas peças que fazem a alegria das crianças nos dias de folia do bloco de rua Menino de Ceilândia. As aulas ocorrerão até 5 de março, sábado de carnaval, e os interessados ainda podem se inscrever. O curso é realizado em Ceilândia e o participante não paga nada. 

Algodão é um dos fundadores do Menino de Ceilândia. Durante as oficinas, além de ensinar à comunidade um ofício, ele prepara os bonecos que serão usados no carnaval. “O grupo serve como uma referência para algumas pessoas que enfrentam uma fragilidade social. Esse aprendizado funciona como uma ponte, um outro caminho para elas”, acredita. Cerca de 20 pessoas se inscreveram para as aulas, mas esse número deve aumentar, de acordo com o presidente da Associação Cultural Menino de Ceilândia, Ailton Velez. A oficina existe há cerca de cinco anos, mas somente em 2011 a entidade resolveu abrir as portas a toda a comunidade. 

Em poucos dias, Algodão deve finalizar 23 bonecos para serem usados nos dois dias de desfile do bloco Menino de Ceilândia (veja quadro). Boa parte deles já está praticamente pronta porque o ator aproveita as peças de um ano para o outro. Na sede da associação, está guardada uma peça que foi confeccionada em 1995, primeiro ano em que o bloco de rua circulou pela cidade. “Usamos bastante material reciclado: jornais, papéis, isopor… Não perdemos quase nada. E o que não é usado aqui, a gente passa para frente.”

Para confeccionar os bonecos, ele diz, basta a imaginação. Quem estiver trabalhando na peça tem liberdade para desenhar o rosto com a fisionomia que quiser, e o nome também fica por conta do criador. “Inventamos nossos próprios personagens. Procuramos nos afastar dessa veia política que o Pacotão tem, por exemplo. Depois de pronto, a gente olha para o boneco e se pergunta: ‘Esse aqui tem cara de quê?’.” Todos os bonecos são feitos de isopor e recebem uma pintura e roupas. 

Apesar de não brincar o carnaval, devido à religião, o pastor Cláudio Alves de Almeida, 40 anos, morador de Ceilândia, encontrou na oficina uma oportunidade para aprimorar um trabalho de teatro na igreja da qual faz parte. Depois de aprender a técnica de confecção, ele pretende passar todo o conhecimento para os integrantes do grupo teatral. “Esses bonecos são grandes e chamam bastante atenção. Acredito que assim a gente pode divulgar ainda mais o nosso trabalho”, explica. Não é a primeira vez que Cláudio participa de uma oficina na sede da associação. O pastor já fez curso para a elaboração de projetos e produção de eventos. 

Iniciativa 
Uma das razões que levaram Algodão a criar o bloco Menino de Ceilândia foi a impossibilidade de viajar para Olinda. Em 1995, ele percebeu que não conseguiria sair de Brasília no feriado do carnaval para curtir a folia e decidiu fazer a festa por aqui mesmo. O nome do grupo surgiu devido a uma notícia de que Ceilândia tinha uma grande quantidade de meninas adolescentes que estavam grávidas. “Hoje esses filhos estão com 16 anos e muitos participam do nosso bloco. O Menino de Ceilândia é bem família, muitas crianças fazem parte da festa. Nunca houve nenhum incidente”, orgulha-se Algodão. Ele estima em 300 o número de integrantes do bloco que anima o público com frevo e marchinhas nos dias de folia. 

Desde pequeno, Algodão trabalha com a confecção de bonecos. “Aos 10 anos, eu já ajudava os artistas no horário contrário às aulas lá em Olinda.” O ator veio a Brasília com o grupo de teatro do qual fazia parte e encantou-se com a cidade. Pouco tempo depois, estava morando aqui. E a habilidade para fazer esses trabalhos sempre esteve presente. Atualmente, Algodão faz as peças para vender em várias partes do país. “Os bonecos para o carnaval são feitos para dança. Mas faço peças de todos os tipos e que podem ser usadas para várias outras funções, como os bonecos de mamulengo”, explica. 

O presidente da Associação Cultural Menino de Ceilândia, Ailton Velez, diz que a ideia de montar a oficina surgiu para expandir a técnica da confecção de bonecos em Ceilândia. “Criamos essa tradição aqui com o bonequeiro Algodão e não queremos perdê-la. Nosso objetivo é passá-la adiante”, diz. Ailton conta que encontrou no bloco Menino de Ceilândia uma forma de proporcionar um pouco de diversão para a comunidade, carente de opções de lazer. E assim essa arte tem sido passada para a frente. 

Arte popular 
Mamulengo é um tipo de fantoche típico do Nordeste brasileiro, especialmente no estado de Pernambuco. Há controvérsias em torno da origem desse nome: alguns acreditam que vem de “mão molenga”, ideal para dar movimentos vivos ao fantoche. Em Olinda, o Espaço Tiridá / Museu do Mamulengo reúne um acervo de aproximadamente 1.500 bonecos, preservando a tradição e a obra de artistas populares e também promovendo apresentações frequentes. 

Programe-se 

Asé Dudu 
5 e 7 de março, das 16h às 24h 
Local: Praça do DI, em Taguatinga 

Galinho de Brasília 
5 e 7 de março, das 16h às 24h 
Local: SBS/SAUS, L1 Sul, Setor de Autarquias Sul (ao lado da Caixa Econômica), passagem pela 203 Sul, rumo ao Gran Folia 

Mamãe Taguá 
5 e 7 de março, das 17h às 24h 
Local: Taguatinga CNB 14 rumo à Praça do DI 

Pacotão 
6 e 8 de março, das 11h às 24h 
Local: CLN 302/303, via W3 Norte/Sul (na contramão) 

Baratona 
6 e 8 de março, das 17h à meia-noite 
Local: Eixão Sul, concentração em frente à 109/110 Sul rumo ao Gran Folia 

Raparigueiros 
6 e 8 de março, das 17h às 24h 
Local: Eixão Sul, concentração em frente à 109/110 Sul rumo ao Gran Folia 

Baratinha 
6 e 8 de março, das 15h às 22h 
Local: Parque da Cidade, no estacionamento ao lado do Nicolândia 

Menino de Ceilândia 
6 e 8 de março, das 14h às 24h 
Local: EQNM 1/3, Via NM1, Rua da Administração Regional, Ceilândia Sul 

Fonte: Ligas dos Blocos Tradicionais de Brasília 


Últimos dias 

Os interessados em participar da oficina de confecção de bonecos em Ceilândia podem entrar em contato pelo telefone 3373-2741. O curso é gratuito.



Correio Braziliense

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