Peça em Ceilândia traz ex-usuários de drogas e meninos de rua no elenco

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No palco, adolescentes entre 13 e 18 anos. Todos vivem em abrigos. A
maioria perdeu contato com os pais. Por vezes, dormem nas ruas. Desde pequenos,
vivem próximos do mundo das drogas e da violência urbana. As histórias se
repetem: “Não tenho contato com minha mãe”, “meu padrasto me batia”,
“já fui abusado por policiais”, “tive que roubar”, “fui jogado de uma ponte,
algemado, e largado para morrer”. Hoje, eles fazem teatro. Protagonistas
da peça Meninos da guerra, esses jovens foram resgatados por meio de um projeto
artístico das companhias Teatro La Casa Incierta, Celeiro das Antas e da
Associação Cultural Intermedia Caliandra – Cinema. “O meu mais difícil
trabalho. Gratificante por um lado, por vê-los afastados de um passado
opressor, mas é tão doloroso perceber essas árduas jornadas”, conta a produtora
e atriz Clarice Cardell.



A própria trajetória da peça acaba esbarrando com
a realidade que acompanhou (e ainda acompanha) esses jovens atores em
desenvolvimento. “Perdemos alguns integrantes ao longo do caminho. Um dos
meninos morreu, outro está desaparecido. Uma terceira não consegue frequentar
os encontros, pois está jurada de morte nesta área”, lamenta Clarice, durante
um dos ensaios, sempre realizados em Ceilândia por conta da proximidade com os
abrigos, onde a maioria deles reside.

A realização de um espetáculo como Meninos da
guerra logo nos remete ao Teatro do Oprimido e nos relembra a premissa de que
as artes cênicas transgridem o mero entretenimento. “Fazer teatro é,
inicialmente, um resgate do sujeito sobre si mesmo. Uma retomada da infância,
buscando libertar-se das amarras sociais que moldam nossos corpos. Uma
releitura crítica das situações cotidianas de opressão, que no teatro podem ser
revividas, reinventadas, transformadas”, comenta Martha Moraes, mestra em
pedagogia do teatro pela Universidade de Brasília (UnB) e doutoranda em artes
cênicas pela Universidade de São Paulo (USP), onde se debruça sobre os
trabalhos de Augusto Boal, principal nome do Teatro do Oprimido.

“O Teatro do Oprimido busca transformar o
espectador, a priori passivo, em ator, que é um ser ativo. Propõe que as
pessoas sejam protagonistas de suas próprias vidas, que escrevam suas
histórias, tanto no teatro quanto na vida. Isso é transformador e resgata
socialmente jovens em situação de risco”, reforça a pesquisadora.

O argumento apresentado por Martha ganha força nas
palavras de Juliana Castro, doutora em acolhimento institucional de
adolescentes pela UnB e pela Université du Québec à Montréal, do Canadá:
“Ao olhar para essas vivências (por meio do teatro), possibilita-se, por
exemplo, que o adolescente compreenda que sua mãe não conseguiu cuidar dele
como gostaria, pois sua família vivia num contexto de extrema pobreza, com
baixa renda, numa área de ocupação irregular, comum no DF historicamente. E
esse novo olhar possibilita que o adolescente organize seu futuro e não fique
preso ao passado, com raiva e mágoas”.

Ainda durante a graduação, Juliana trabalhou com
jovens em situação de vulnerabilidade e testemunhou a importância da
intervenção do teatro como “ferramenta que pode facilitar o acesso do
adolescente à sua história”. “Além do mais, o teatro possibilita que
essa caminhada seja compartilhada e reconhecida por outros que vão assistir à
apresentação, o que legitima todo o trabalho desenvolvido na criação”. De
alguma forma, de acordo com a especialista, o espetáculo traz ao centro das
atenções pessoas que costumam permear o invisível.


Correio Web

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